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Falta informação a consumidor

OESP, Economia, p. B16
02 de ago de 2006

Falta informação a consumidor
Questões socioambientais ainda têm pouco peso na decisão de compra, mostra pesquisa

Andrea Vialli

O consumidor brasileiro está mais consciente, mas ainda é pouco informado sobre a responsabilidade social das empresas. Por isso, esse fator não tem tanto peso nas suas decisões de compra, segundo mostra uma pesquisa feita pelo Instituto Akatu, ONG que defende o conceito de consumo consciente - ou seja, levar em conta fatores como a atuação social da empresa na hora de comprar seus produtos. Nos países desenvolvidos, o consumo consciente já é uma realidade e impacta diretamente o comportamento das companhias.

Um exemplo disso pôde ser visto na semana passada: o boicote do varejo e das redes de fast food européias à soja brasileira - acusada de ser o novo motor de desmatamento da Amazônia - levou entidades representantes da indústria de óleos vegetais e dos exportadores de cereais a assinarem um documento se comprometendo a não comprar soja proveniente de novas áreas desmatadas da Amazônia.Os consumidores europeus, sensibilizados com as denúncias de que seus hábitos de consumo estariam contribuindo para a devastação da floresta, pressionaram as empresas, que por sua vez boicotaram o produto brasileiro.

No Brasil, não há nenhum registro de mobilização semelhante partindo do consumidor. Na prática, preço e qualidade norteiam as decisões de compra dos brasileiros, mais do que a responsabilidade social das empresas. Mas ele já começa a ficar atento à questão, conforme mostra a pesquisa do Instituto Akatu.

O estudo ouviu 800 pessoas, em oito capitais, e 78% dos entrevistados se mostraram interessados em saber sobre as ações de responsabilidade social das empresas. Porém, ainda são poucos os que efetivamente punem uma empresa que não possui essas práticas - 14%. A pesquisa brasileira compõe um estudo global, feito em 21 países. No ranking dos consumidores que puniram empresas, o Brasil ocupa a 15ª posição. Austrália, Suíça, Alemanha, EUA e Canadá lideram a lista.

"O consumidor está mais sensível em relação ao papel das empresas, mas falta isso refletir nos atos de consumo", diz Hélio Mattar, presidente do Instituto Akatu. Um caminho para isso, diz, é o dos selos e certificações. "O consumidor já conhece selos que atestam a qualidade dos produtos, como os da ISO, e de empresas que aboliram o trabalho infantil, como o da Fundação Abrinq."

Por outro lado, há um grupo de consumidores mais conscientizados que começam a impulsionar nichos de mercado, como os de produtos orgânicos, madeiras certificadas e cosméticos naturais.

O episódio do boicote à soja brasileira mostrou ainda, segundo Mattar, que o consumidor europeu percebe de modo mais claro que seu ato de compra reflete em questões globais. "Ele percebeu que a carne ou o frango que come poderia estar contribuindo para a devastação da Amazônia. O consumidor brasileiro já não tem tanto essa noção."

No entanto, as mesmas empresas pressionadas no exterior por comprar a soja brasileira estão revendo suas posições aqui no Brasil, em um esforço para evitar danos à sua imagem. Um exemplo é a Cargill, que foi apontada pelo Greenpeace como uma das grandes compradoras de soja da região do desmatamento. Agora, além de ser uma das signatárias do documento assinado pelas entidades, também se comprometeu individualmente a não comprar soja daquelas regiões. "A principal pressão veio de clientes europeus, mas foi um avanço para as empresas também", afirma Afonso Champi, diretor de assuntos corporativos da Cargill.

A rede de lanchonetes McDonald's foi na mesma linha: divulgou um comunicado de apoio à moratória contra o plantio de soja na floresta, ressaltando que não utiliza soja amazônica na alimentação das aves.

OESP, 02/08/2006, Economia, p. B16

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