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Falta de verbas poe em risco sitios arqueologicos do PI

OESP, Geral, p.A10
22 de Abr de 2004

Falta de verbas põe em risco sítios arqueológicos do PI Fundação que mantém Parque da Serra da Capivara demitirá todos os funcionários no dia 30
EVANILDO DA SILVEIRA
A integridade e a riqueza natural e arqueológica do Parque Nacional da Serra da Capivara, em São Raimundo Nonato, no Piauí, considerado Patrimônio da Humanidade pela Unesco desde 1991, estão em perigo. Por falta de recursos, a Fundação Museu do Homem Americano (Fumdham), criada em 1986 pela arqueóloga Niède Guidon para pesquisar e manter o parque, vai demitir, no dia 30, os seus últimos 79 funcionários.
A partir daí, vão ficar apenas três servidores do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para manter e proteger uma área de 100 mil hectares, que abriga 735 sítios arqueológicos e paleontológicos, 105 dos quais preparados para a visitação turística, e uma das maiores concentrações de pinturas rupestres do mundo.
Segundo Niède, desde 1986 o parque vem sendo gerido e mantido por meio de parcerias, convênio e contratos de co-gestão entre a Fumdham, o Ibama e o Ministério da Cultura (MinC). Os problemas para administrar o parque começaram em 1998 e se agravaram a partir de 2002. Antes disso, de 1991 e 1998, Niède lançava mão dos fundos da Fumdham, aplicados no mercado financeiro, para cobrir eventuais atrasos ou falta de repasses do Ibama ou do MinC.
Em 1998, a Fumdham decidiu investir no desenvolvimento do ecoturismo e turismo cultural, com o objetivo de obter recursos fixos e consistentes para manter o parque e seus sítios arqueológicos, cinco escolas rurais na região, a pesquisa e o Museu do Homem Americano. "Para isso, nós dependíamos da construção de um aeroporto em São Raimundo Nonato", diz Niède. "O projeto nunca saiu do papel, no entanto."
De acordo com a arqueóloga, sem o aeroporto ela não levará mais nenhuma iniciativa adiante. "Em 1996 nós conseguimos a criação de um aeroporto internacional aqui", conta. "Em 1997, ele foi licitado. Em 1998, foi liberada a primeira parcela de R$ 5 milhões, que não chegou às nossas mãos.
Em 2003 foi licitado de novo e o ministro Walfrido Mares Guia (do Turismo) já liberou R$ 5 milhões, sendo que R$ 1 milhão já está com o governo do Estado. A última promessa era que as obras iniciariam nessa semana, mas até agora nada."
Sem o dinheiro dos visitantes que desembarcariam no aeroporto, com os fundos próprios minguando e os atrasos ou falta de repasses dos órgãos federais, a situação da Fumdham chegou ao limite. "Quando os recursos federais começaram a baixar, em 2002, a carga foi demasiado alta para a Fumdham e nossa descapitalização aumentou", diz Niède. "Como a situação se repetiu em 2003 e em 2004, chegamos ao limite de nossas possibilidades e decidimos que teremos de abandonar o intento de proteger integralmente o parque."
Ela calcula que são necessários R$ 220 mil mensais para a administrar o parque. O último repasse feito pelo Ibama, em dezembro, foi de R$ 248 mil.
Niède aproveita para alertar sobre os riscos que o parque corre. "É necessário que os ministros responsáveis por ele estejam cientes de que, a partir de 1.o de maio, o parque começará a ser depredado", avisa. "As populações animais que cresceram muito nestes últimos anos, com um sistema cerrado de vigilância, serão dizimadas. E os sítios arqueológicos serão pichados, os caçadores farão tiro ao alvo com as figuras, as fogueiras vão destruir a rocha e apagar as pinturas."

OESP, 22/04/2004, p. A10

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