O Globo, Sociedade, p. 18
04 de Dez de 2017
Falta de verbas ameaça centro de observação de desastres
Renato Grandelle
RIO - Criado há seis anos, após as tempestades que mataram mais de 500 pessoas na Região Serrana do Rio, o Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden) está afundado em problemas financeiros e corre risco de interromper suas atividades. A previsão orçamentária para 2018 do Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) destina apenas R$ 19,8 milhões para o órgão - cinco vezes menos do que em seu auge.
Diretor do Cemaden, Osvaldo Luiz Leal alerta que, se tiver apenas a verba reservada, perderá em agosto a capacidade de fazer a manutenção da sofisticada rede de radares e sensores hidrológicos, geológicos e meteorológicos do órgão. Sem esta infraestrutura, haverá uma redução significativa na capacidade de pesquisa e emissão de alertas sobre desastres naturais para 958 municípios.
- Precisamos garantir constantes reparos aos equipamentos. Do contrário, o Cemaden ficará cego - ressalta Leal. - Nossos boletins servem de base para que as defesas civis decidam como avisar ou retirar a população vulnerável às catástrofes naturais. Até hoje, já emitimos mais de 6 mil alertas. Estamos fazendo um esforço enorme para conseguir contratos adequados, tentanto uma comunhão entre aquilo que é disponível do que é possível fazer, mas eu diria que o recurso já está no limite mínimo do que nós necessitamos.
Leal ressalta que, antes do Cemaden, o governo federal não contava com um sistema que fornecesse de antemão as informações necessárias para que órgãos públicos se preparassem contra eventos como enxurradas, inundações e deslizamento de encostas.
Desde sua fundação, o centro de pesquisas testemunhou dois movimentos opostos - o número de atribuições foi multiplicado, enquanto as verbas minguaram. Em seu primeiro ano, o Cemaden monitorava a ocorrência de desastres naturais em 56 municípios. Hoje, são 958. Já o orçamento, que chegou a R$ 99,2 milhões, está desabando desde 2014.
- Nós nos deparamos com limitações desde o início de nossas atividades - lembra Leal. - Quando o Cemaden foi fundado, solicitamos 180 servidores para atender pouco mais de 50 cidades. Nunca chegamos a este contingente: temos 105 em nossos quadros. Além disso, três anos atrás, o governo federal retirou R$ 40 milhões previstos em nosso orçamento para a construção de nossa sede. E nós não tivemos este dinheiro de volta. Ainda funcionamos em instalações provisórias.
CIDADES SEM COBERTURA
Apesar do aumento de sua rede, o Cemaden não contempla todos os pontos vulneráveis do país. O órgão ainda não está atuante em 340 municípios onde o Serviço Geológico do Brasil (SGB) realiza atividades.
Sandra Silva, chefe da Divisão de Geologia Aplicada do SGB, avalia que a falta de manutenção da rede do Cemaden levaria o país ao "total desconhecimento" sobre os impactos de fenômenos meteorológicos.
- Seria como poder identificar uma doença, mas não conseguir medicar. Daríamos 50 passos para trás - condena. - O Serviço de Geologia conhece 11.971 setores de alto risco no país, onde moram mais de 4 milhões de pessoas. Todos nossos dados são consolidados e depois disponibilizados para o Cemaden, mas a sua cobertura ainda não abrange todas essas áreas.
Para a geóloga, os municípios mapeados precisam de estações pluviométrica e fluviométrica que meçam as precipitações e o nível dos rios. Desta forma, o Cemaden montaria séries históricas sobre o regime de chuvas, diminuindo a exposição destas cidades a fenômenos como inundações e deslizamentos de terra.
Professor do Instituto de Física da USP, Paulo Artaxo considera que o corte orçamentário do Cemaden é uma opção governamental, e não um reflexo da crise econômica:
- Não se trata da falta de recursos financeiros, e sim de uma avaliação do governo que o desenvolvimento científico e tecnológico não é necessário - critica. - Se não monitorarmos os eventos extremos, haverá um gigantesco custo social, porque a população, especialmente a de baixa renda, estará exposta e, por isso, muito frágil. E isso é especialmente grave se considerarmos que, com as mudanças climáticas, os desastres naturais serão cada vez mais frequentes e intensos.
Em nota, o MCTIC ressaltou que o orçamento para o ano que vem ainda está sendo discutido e não há um detalhamento definitivo sobre cortes ou aumentos de verbas para a pasta: "O ministério está em contato com o Cemaden, demais entidades vinculadas e organizações sociais para garantir a continuidade de suas atividades sem que impactos significativos sejam observados". Ainda de acordo com o comunicado, as verbas são necessárias porque o MCTIC considera que o papel da pesquisa científica é "imprescindível para o desenvolvimento econômico e social de qualquer país".
O Globo, 04/12/2017, Sociedade, p. 18
https://oglobo.globo.com/sociedade/falta-de-verbas-ameaca-centro-de-obs…
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.