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Falta de investimento ameaça etanol

OESP, Economia, p. B1
23 de Mai de 2011

Falta de investimento ameaça etanol
Sem novas usinas e sem aumento do plantio de cana, setor terá dificuldades para atender à demanda crescente dos carros bicombustível

Renée Pereira

A freada nos investimentos do setor sucroalcooleiro, após o revés sofrido com a crise mundial de 2008, poderá interromper o sucesso do etanol brasileiro, uma experiência vista como modelo no mundo inteiro. Sem grandes projetos à vista, a expectativa é que haja déficit de cana-de-açúcar para atender à frota crescente de veículos flexíveis, cuja participação no mercado nacional tem avançado a uma taxa média de 35% ao ano desde 2006.
Se não houver uma reversão no quadro, a previsão é que o volume de carros bicombustível abastecidos com etanol caia gradualmente. A participação, que já atingiu 60% na safra 2008/2009, recuou para 45% neste ano, e pode despencar para 37%, em 2020/2021, segundo dados da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica). Na prática, o motorista terá de consumir mais gasolina, por causa da desvantagem do preço, ou reduzir o uso do veículo.
A meta da Unica era abastecer com etanol 66% da frota de bicombustíveis - ou seja, dois terços do mercado. Mas falta matéria-prima. Nesta safra, por exemplo, o déficit seria de 143 milhões de toneladas de cana para conseguir atingir o objetivo. Para os próximos dez anos, a diferença tende a aumentar e alcançar 400 milhões de toneladas se novos projetos não saírem do papel.
Esse déficit deve ocorrer mesmo com a expansão prevista para as 430 usinas em operação hoje, diz o presidente da Unica, Marcos Jank. A expectativa é que, juntas, elas acrescentem 342 milhões de toneladas de cana nos próximos dez anos, sendo 146 milhões até 2015. Isso vai envolver a renovação dos canaviais e expansão da área plantada. Mas esses investimentos serão suficientes apenas para atender a uma parte da demanda.
Área plantada. Para abastecer 66% dos carros flex, o País teria de dobrar a área plantada, chegando a algo como 18 milhões de hectares - isso, nos padrões atuais, sem considerar as novas tecnologias, que poderão aumentar a produtividade. Na safra atual, o aumento da área plantada será de 4,8%, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Nas contas de Jank, o setor precisará de R$ 80 bilhões de investimentos nos próximos dez anos para atender à demanda. Isso significa 133 usinas, ou 15 unidades por ano.
O problema é que não há sinalização de que esses projetos possam se tornar realidade no curto prazo. O vice-presidente da Dedini (fabricante de equipamento), José Olivério, confirma o baixo astral do setor. Ele conta que a última decisão de investimento foi tomada em 2007.
Desde então, não surgiu nada novo. Este ano, apareceram algumas consultas, segundo ele, mas a maioria se refere à expansão da infraestrutura atual. "São projetos que foram interrompidos com a crise e que agora precisam ser revistos, precisam da atualização dos orçamentos. Mas o movimento está muito tímido", destaca Olivério.

Cenário de escassez continuará até 2013
A decisão de iniciar um novo projeto demora, em média, um ano para sair do papel; investimento iniciado agora só terá reflexo em 2013

Renée Pereira

Mesmo que os investimentos do setor sucroalcooleiro sejam retomados neste ano, o cenário de escassez deve prevalecer, pelo menos, até 2013. "Não há mais tempo para mudar esse cenário. A decisão de um projeto demora em média um ano para sair do papel. Se os investimentos forem retomados agora, o reflexo apenas será sentido em 2013, mas ainda será um cenário de escassez", afirma vice-presidente da fabricante de equipamentos Dedini, José Olivério.
Na avaliação dele, diante da expectativa de crescimento da frota de carros flex, o setor deveria estar numa onda mais agressiva de investimentos, como ocorreu entre 2000 e 2008. Nesse período, o volume de cana-de-açúcar moída teve um crescimento médio de 10,4% ao ano. De lá pra cá, essa taxa caiu para 3,3%. O avanço da cana foi decorrente de um otimismo generalizado no setor, que resultou na construção de 112 usinas entre 2005 e 2010. Neste ano, devem entrar em operação apenas 5 unidades, ainda reflexo de decisões passadas.
Além dos investidores tradicionais, vários estrangeiros desembarcaram no País para estrear na produção de açúcar e álcool. Até então, havia excesso de liquidez no mercado e muita gente se endividou no curto prazo para fazer os investimentos, afirma o diretor-presidente da Companhia Brasileira de Açúcar e Álcool, José Pessoa de Queiroz Bisneto. "A crise enxugou o excesso de liquidez e provocou uma chuva de falências no setor."
Volatilidade. Além disso, a enorme volatilidade de preços no mercado acabou corroendo a remuneração do setor. Durante a safra, as empresas que precisavam de dinheiro jogavam muito etanol no mercado, derrubando o preço. Na entressafra, a redução da oferta fazia o preço alcançar picos elevados. "Desse jeito a remuneração foi sendo corroída. Mas como havia excesso de liquidez no mercado, ninguém percebia isso. Quando veio a crise, o problema ficou exposto."
Queiroz calcula que cerca de 50 usinas ainda estejam em recuperação judicial, desde o início da crise. "Hoje, não vemos nenhuma sinalização de retomada dos investimentos. Há uma inibição geral no setor", diz ele, que acredita que as usinas atuais possam aguentar parte da demanda dos carros flex se investirem na expansão da área plantada e dos parques industriais.
O sócio da IBM Business Consulting, Martiniano Lopes, também vê potencial a ser explorado nas usinas existentes. Ele afirma que muitas unidades construídas recentemente ainda não estão a pleno vapor e podem dar uma boa contribuição para o mercado nos próximos anos, se decidirem expandir suas atividades. "Muitas estão operando apenas com uma moenda. Elas podem instalar uma segunda moenda e aumentar a produção."
O ex-presidente da Unica, Eduardo Pereira de Carvalho, diretor da consultoria Expressão, não tem a mesma convicção. Na avaliação dele, o setor precisa "brutalmente de investimentos" em novas unidades. "Mas não estou vendo isso ocorrer. A única coisa que vejo é fusão e aquisição. Se quisermos atender o mercado, teremos de construir novas usinas", destaca.
Outro problema que pode representar um entrave para o setor é que o grande produtor de cana do País está no limite. São Paulo tem restrições para elevar a área plantada, diz Lopes. Ele, que acredita na expansão das usinas existentes para atender à demanda, reconhece que o cobertor é curto. Ou seja, não adianta aumentar muito a capacidade industrial do Estado, já que não haverá cana para todos. Isso tem de ocorrer no Centro-Oeste.

Governo quer criar medidas para incentivar novos projetos

Renée Pereira

A paralisia de investimentos do setor de açúcar e álcool e as previsões de demanda forte para os próximos anos têm preocupado o governo federal. Além de deslocar a regulamentação para a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o governo quer criar alternativas para incentivar novos projetos. Mas a solução parece longe de ser encontrada.
Segundo o secretário de produção e agroenergia do Ministério da Agricultura, Manoel Bertone, desde o ano passado tem se discutido como tratar o mercado de biocombustíveis, já que se refere a um assunto que envolve soberania nacional e segurança energética. Em alguns momentos, destaca ele, há necessidade de interferência no setor para garantir o abastecimento do País.
Ao mesmo tempo, o secretário reconhece que esse tipo de intervenção acaba desestimulando o investidor. "Precisamos diminuir a insegurança em termos ambientais, em relação a decisões governamentais e mudar o sistema tributário para atrair capital." Essas também são reivindicações da iniciativa privada, para quem a paralisia dos investimentos se deve especialmente ao cenário incerto do mercado.
"O problema não é falta de recursos. Dinheiro a Petrobrás, o BNDES e fundos privados têm", avalia Bertone. O presidente da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica), Marcos Jank, corrobora a opinião do secretário. Na opinião dele, o setor precisa de mais estabilidade e menos volatilidade de preços. Jank conta que já iniciou conversas com a ANP para tentar resolver essa questão. Uma das opções, diz ele, é fazer pré-contratos de álcool anidro (misturado na gasolina) com distribuidoras. "Para cada litro de gasolina comprado, ela teria de provar que tem o anidro correspondente."

OESP, 23/05/2011, Economia, p. B1-B3

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