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Falta de confiança dos EUA no Brasil trava acordo sobre Amazônia

Valor Econômico - https://valor.globo.com/brasil/noticia
Autor: CHIARETTI, Daniela
06 de abr de 2021

Falta de confiança dos EUA no Brasil trava acordo sobre Amazônia
Os EUA querem a inclusão de indígenas, ONGs e governos locais no plano brasileiro de preservar a Amazônia, mas o governo Bolsonaro não opera assim

Por Daniela Chiaretti

A falta de confiança está criando um impasse nas negociações entre os Estados Unidos e o Brasil pela preservação da Amazônia. Representantes do governo de Joe Biden querem que o governo de Jair Bolsonaro apresente resultados concretos de zerar o desmatamento ilegal até 2030 antes de destinarem recursos financeiros. O governo brasileiro quer o dinheiro na mesa para agir.
Outro ingrediente desta espécie de cabo-de-guerra nos encontros entre representantes dos dois governos é o modelo do acordo. Os EUA, segundo disse a jornalistas brasileiros um integrante do Departamento de Estado, querem um compromisso claro, com metas tangíveis, de como o Brasil vai conter o desmatamento. A intenção é fechar um acordo político na Cúpula de Líderes Climáticos que os EUA farão, de forma virtual, nos dias 22 e 23 de abril.
Neste plano, os EUA reiteram a soberania brasileira nas decisões e sobre o território, mas dão a receita do bolo: querem ver penalidades sendo aplicadas a quem desmata ilegalmente, esperam ver o fortalecimento do Ibama, reconhecem o papel dos Estados e querem a inclusão de povos indígenas, comunidades tradicionais e organizações não governamentais.
"Acontece que este não é o modo de funcionamento do governo Bolsonaro. Não é assim que este governo age. Não inclui ONGs nem indígenas", diz uma fonte. Bolsonaro se elegeu dizendo que iria acabar com a "indústria da multa".
"Houve queda no número de multas e embargos praticados nos últimos dois anos", diz o professor Raoni Rajão, da Universidade Federal de Minas Gerais.
O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que neste ano puxou para si a condução das negociações internacionais, está pedindo US$ 1 bilhão à comunidade internacional para reduzir a devastação florestal em até 40% em 12 meses, segundo disse em entrevista ao jornal "O Estado de S. Paulo".
Um interlocutor, que compara o rigor do cálculo da cifra a "uma conta de padeiro", analisa as conversas bilaterais que vêm ocorrendo entre EUA e Brasil como "um diálogo de surdos".
Em sua campanha eleitoral, o presidente Biden prometeu mobilizar US$ 20 bilhões em recursos públicos e privados aos países amazônicos. Os recursos viriam também de outras nações industrializadas. Ocorre que, mesmo sob administrações democratas, segundo uma fonte consultada pela reportagem, os EUA buscam maior participação de recursos privados do que públicos no financiamento climático - e isso também cria desconforto.
"É legítimo o argumento americano de querer construir confiança antes de colocar recursos na mesa. Ninguém quer dar recursos ao governo Bolsonaro que se referem a reduções de desmatamento ocorridas em gestões anteriores. Querem ver o movimento do atual governo brasileiro", diz a fonte.
Embaixadores europeus têm repetido desde 2020 que querem ver do governo Bolsonaro um plano concreto, com metas e prazos, para eliminar o desmatamento ilegal na Amazônia, discurso agora repetido também pelos EUA. Noruega e Alemanha, doadores do Fundo Amazônia, congelaram seus aportes quando Salles, de maneira unilateral, mudou a composição dos conselhos do mecanismo retirando a participação de representantes da sociedade civil. "Ninguém vai querer dar recursos adiantados a Salles", concorda outro cético.
O quadro de desconfiança dos doadores internacionais na gestão Bolsonaro se baseia também nos péssimos índices dos últimos anos. Entre agosto de 2019 e julho de 2020, a floresta perdeu 11.088 km2 de vegetação, segundo os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Foi um aumento de 9,5% em relação ao período anterior e o maior índice desde 2008.
Outro elemento de estranheza nos diálogos Brasil-EUA é a ameaça distante, mas que paira no ar, de sanções contra o Brasil se o desmatamento não for contido. "Os EUA têm que atuar na cooperação com o Brasil. Se adotarem uma postura mais agressiva, jogam este aliado histórico no colo da China. Isso criará um problema de geopolítica que querem evitar."
Mais um ponto de atrito com potências emergentes é o esforço americano de promover a data de 2050 para emissões globais líquidas zero. A meta segue o que recomendam os cientistas, mas é vista como divisão de responsabilidades injusta pelos países em desenvolvimento. Os EUA são o maior emissor histórico de gases-estufa.
A meta de descarbonizar a economia em 30 anos é uma agenda europeia incorporada pelo governo Biden. A China se comprometeu com emissões líquidas zero em 2060, assim como o Brasil. A Índia ainda não se posicionou. "Os europeus têm uma agenda ambiental mais consistente que os americanos", avalia uma fonte. Esta percepção reforça a desconfiança com os compromissos ambientais americanos. Os EUA, por exemplo, nunca assinaram a Convenção da Biodiversidade. Não concordam com a repartição de benefícios com donos dos recursos naturais.

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