CB, Mundo, p. 31
02 de Ago de 2007
Falta água para as crianças
Estudo das nações unidas aponta que um terço dos menores de 18 anos na região não tem água potável em casa, e mais de 40% vivem sem saneamento. Carência acompanha elevada mortalidade infantil
Da Redação
Mais de um terço das crianças e adolescentes da América Latina e Caribe não tem acesso a água potável, aponta um estudo das Nações Unidas. De acordo com a pesquisa, elaborada pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), apenas um em quatro adultos enfrenta a mesma carência. O documento alerta que o problema de saneamento básico é ainda mais grave: 42,7% dos menores de 18 anos carecem do serviço, porcentagem que cai para 36,7% entre a população adulta. Nicarágua e Bolívia são os países onde a situação é mais crítica.
Os mais afetados pela falta de água e saneamento básico são as crianças de até cinco anos, que somam quase 21 milhões na região. "Milhares de casos de mortalidade infantil e desnutrição poderiam ser evitados a cada ano se esse acesso fosse melhorado", diz o documento. Dos 15 países estudados, os oito que apresentam o pior quadro lideram também a taxa de mortalidade infantil.
"Em geral, as famílias mais pobres, com menos acesso aos serviços de saúde, são as que têm mais filhos. Por isso, crianças até os 5 anos são as mais vulneráveis", explicou ao Correio Martín Hopenhayn, um dos autores do estudo. "Isso cria um círculo vicioso, porque crianças sem acesso a água limpa têm o rendimento escolar prejudicado, contribuindo para a pobreza da próxima geração". Pesquisas comprovam ainda que populações de áreas rurais e minorias indígenas e afrodescendentes sofrem mais privações no acesso a esses serviços.
Brasil exibe desigualdade
O Brasil aparece em 10o lugar entre os 15 países latino-americanos pesquisados pelo Unicef e pela Cepal para estabelecer o ranking do acesso à água potável e ao saneamento básico na América Latina e Caribe. Segundo o estudo, o país é desigual quando o assunto são serviços básicos. No grupo dos 20% mais pobres, quase 40% não têm fornecimento de água limpa em casa.
Já entre os 20% mais ricos, essa taxa não passa de 4,8%. Assim como na maior parte da América Latina, no Brasil a falta de saneamento básico se associa a problemas ainda mais graves para a saúde pública. "A falta de saneamento é responsável por patologias hídricas que continuam altas no país", avalia Fábio Atanásio, coordenador do Unicef no Pará. "É a crônica da calamidade anunciada."
No entanto, várias iniciativas discutidas na América Latina e Caribe podem melhorar esses índices. Uma política implementada na capital da Colômbia, Bogotá, instituiu um sistema de tarifas pela água potável e pelo saneamento que diferencia os bairros pelo perfil socioeconômico - os mais ricos pagam mais, para subsidiar os mais pobres.
Martín Hopenhayn defende a implementação de um sistema de "privatização regulada". Ele explica que, segundo esse princípio, o Estado garantiria a universalização do acesso a esses serviços básicos. Enquanto isso, as empresas privadas seriam responsáveis por assegurar a eficiência do fornecimento.
"A iniciativa privada só apoiaria áreas onde existiria retorno para seu investimento", defende Fábio Atanásio, do Unicef. Para o especialista, no Brasil, a melhor estratégia é apostar na ampliação de recursos federais destinados aos serviços de água e saneamento. "Essas políticas devem focar no um quinto mais excluído da população, já que os mais pobres são sempre os mais vulneráveis."
O número
Por classe 40% dos brasileiros que estão entre os 20% mais pobres carecem de acesso a água potável e saneamento, enquanto entre os 20% mais ricos essa taxa é de apenas 4,8%
CB, 02/08/2007, Mundo, p. 31
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