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Fala do presidente da Fundação Palmares chamando movimento negro de 'escória maldita' gera onda de indignação

O Globo - https://oglobo.globo.com/cultura/fala-do-presidente-da-fundacao-palmares-chamando-moviment
Autor: Marco Grillo *
04 de jun de 2020

Representantes do movimento negro, parlamentares e Defensoria Pública da União reagem às ofensas ditas pelo presidente da Fundação Palmares e apelam ao Ministério Público Federal, à Polícia Civil e ao STJ contra atitude racista
BRASÍLIA - A fala do presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, chamando o movimento negro de "escória maldita", conforme áudio revelado anteontem, provocou indignação entre parlamentares e entidades que representam a população afro-brasileira. Camargo fez a declaração numa reunião com dois assessores, no dia 30 de abril. A gravação foi obtida pelo jornal "O Estado de S.Paulo".

No fim da noite, a Defensoria Pública da União entrou com pedido de urgência no Superior Tribunal de Justiça (STJ) para suspender a nomemação do presidente da Fundação Palmares. Horas antes, 60 entidades do movimento negro, encabeçadas pela ONG Educafro (Educação e Cidadania de Afrodescendentes e Carentes), enviaram uma representação ao Ministério Público Federal (MPF) acusando Camargo de ter cometido crime de racismo ao afirmar que praticantes e organizações ligadas a religiões de matriz africana não vão receber benefícios e recursos enquanto ele estiver à frente da gestão. E pedem seu afastamento do cargo e responsabilização pelos prejuízos causados à instituição. Chamada de "macumbeira", "filha da puta" e "miserável" por Camargo, a líder religiosa Adna Santos, conhecida como Mãe Baiana de Oyá, se disse "chocada com a agressão" e o denunciou por injúria racial e discriminação racial e religiosa na Decrin, delegacia especializada nesse tipo de crime no Distrito Federal.

Ontem também, um grupo de deputados protocolou na Câmara pedido para que o MPF instaure inquérito para investigar o caso. Entre eles estão deputados negros como Áurea Carolina (PSOL-MG), Benedita da Silva (PT-RJ), Talíria Petrone (PSOL-RJ), Bira do Pindaré (PSB-MA), Damião Feliciano (PDT-PB), David Miranda (PSOL-RJ) e Orlando Silva (PCdoB-SP). Hoje pela manhã, a Rede promete pedir o afastamento urgente de Camargo por meio de um mandado de segurança coletivo no STJ. E o PSOL já protocolou um requerimento para que o presidente da Palmares preste esclarecimentos no plenário da Câmara.

No áudio revelado, Camargo reclama de vazamento de informações e promete retaliações: "Tem gente vazando informações aqui para a mídia, vazando para uma mãe de santo, uma filha da puta macumbeira, uma tal de Mãe Baiana, que ficava aqui infernizando a vida de todo mundo (...) Não vai ter nada para terreiro na Palmares enquanto eu estiver aqui dentro. Nada. Zero. Macumbeiro não vai ter nem um centavo." Ele também chamou os integrantes do movimento negro de "vagabundos".

Para a Educafro, Camargo manifestou "discriminação odiosa" e violou a lei, que prevê reclusão de um a três anos para quem "praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional". O presidente da entidade, Frei David, lembrou que Camargo insiste em fazer "provocações" ao movimento negro:

- Justamente quando o mundo inteiro está exigindo respeito à diversidade e reconhecimento da tortura histórica que várias sociedades fizeram contra o povo negro, esse senhor reitera essa fala de provocação.

Para o advogado Renato Ferreira, mestre em políticas públicas e pesquisador das relações raciais, Camargo foi nomeado por questões ideológicas e usa os ataques ao movimento negro para tirar o foco dos próprios problemas da gestão:

- Como não tem política pública e parece que não quer aprender, fica criando esses factoides para desviar o foco. Neste momento, milhares de famílias quilombolas estão desassistidas e desamparadas por causa da Covid-19. A lei fala que a missão da Fundação Cultural Palmares é apoiar essas comunidades, mas qual a proposta dele neste momento em que todo mundo sabe que essas pessoas são mais atingidas, em função da vulnerabilidade social? Ele está em silêncio (sobre este tema), e a população quilombola está morrendo.

A carta escrita por representantes do movimento negro ao MPF lista outras condutas problemáticas de Camargo, como abrir "mão da competência para opinar no âmbito dos processos de licenciamento ambiental que atingem territórios quilombolas", "usar a página da instituição para dar publicidade a textos cujo teor questiona a existência do racismo contra a população negra" e "ofender a história de Zumbi dos Palmares, além de afastar o protagonismo do povo negro na luta pela sua liberdade".

* Colaborou Gabriel Morais, do Rio

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