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Fadiga da castanheira e atrofia da fauna amazônica

OESP, Vida, p. A24
Autor: CORRÊA, Marcos Sá
24 de ago de 2006

Fadiga da castanheira e atrofia da fauna amazônica

Marcos Sá Correa*

Tudo o que ninguém quer saber sobre "o uso sustentável da Amazônia" cabe numa aula do professor Carlos Peres. Ele é paraense. Seu pai foi o maior exportador de castanha-do-Pará, quando a Bertholletia excelsa brasileira supria o mercado mundial.

O filho vive entre a cadeira de Ecologia Tropical na Universidade de East Anglia e as pesquisas na selva, passando temporadas em cabanas de palha. Não faz muito tempo, a revista Time o incluiu numa lista de destaques do milênio, como ambientalista. Seu segredo é "sujar a bota no mato", como costuma ensinar aos alunos interessados em seguir-lhe os passos.

Ultimamente, ele avalia a saúde das árvores nativas na vasta mancha verde que, vista de cima, é a reserva Caiapó. Tem credenciais de sobra para contar a tragédia da castanheira como uma história exemplar do extrativismo na Amazônia.

Trata-se de uma árvore que chega a 50 metros de altura. Legalmente, não se pode cortá-la. Ela produz a única castanha consumida internacionalmente que não se plantava nem colhia. Por mais de um século, esperava-se que as sementes caíssem lá do alto, fechadas em ouriços que podem pesar dois quilos e têm uma casca dura como madeira. Quem plantava a castanha-do-Pará era a cutia, capaz de abri-la com seus dentes de espátula. Os castanheiros se limitavam a catar as sementes no chão. E, claro, comer a cutia, como mandam os costumes locais. Na Amazônia, 150 mil toneladas de proteína animal são tiradas por ano da floresta como caça de subsistência.

A árvore é um gigante de infância problemática. Precisa, em média, de 100 mil sementes para gerar um broto viável. Só cresce em clareiras. Como arbusto, costuma ser pastada pelas antas. Pode ser longeva, mas frutifica cada vez menos, à medida que envelhece. E é por essas e outras que a Bertholletia excelsa da Amazônia boliviana domina atualmente o mercado internacional de um produto que os brasileiros chamam de "castanha-do-Pará" e o mundo ainda conhece como "Brazil's".

Nesses cento e poucos anos de exploração tradicional, seja por falta de sementes para as cutias enterrarem, ou mesmo por falta de cutias, as castanheiras do lado de cá envelheceram.

Peres seguiu os passos da Bertholletia excelsa de um lado a outro, por 23 áreas de exploração "sustentável". Constatou que, nelas, quanto mais antiga for a relação dos castanheiros com sua fonte de sustento, mais velhas serão as árvores. Há lugares pesquisados por sua equipe, como a reserva extrativista do Cajari, onde todas as árvores são adultas. Sinal de que, lá atrás, elas pararam de se reproduzir. E que, em outras palavras, a floresta está caducando.

Ele não fez barulho com essa descoberta. E, claro, mesmo que fizesse, os ouvidos de Brasília não escutam essas coisas. Assim como não se interessam pelo que ele tem a dizer sobre a atrofia da fauna na floresta amazônica, onde as populações ribeirinhas começam a ter dificuldade para botar na mesa carne de bicho grande.

Até entre os índios os hábitos estão mudando. Em outros tempos, quando a caça rareava, as aldeias indígenas se mudavam para onde houvesse animais de grande porte, abandonando territórios que a fauna poderia repovoar aos poucos. Mas hoje elas têm coisas difíceis de levar na mudança, como antenas parabólicas. Sedentarizadas, passaram a empreender longas expedições cinegéticas. Entre os caiapós, que fazem questão de queixada e anta em sua dieta, uma caçada pode varar 200 km.

Estatísticas mostram que os animais encolheram ou sumiram. Reservas extrativistas e territórios que aparecem em imagens de satélite como mata fechada, vistos de perto escondem sob as copas animais cujo peso médio, segundo Peres, já não passa de um quilo. Elas não foram desmatadas. Estão sendo só defaunadas. Mas, defaunada, a floresta não vai longe.

*Jornalista e editor do site O Eco (www.oeco.com.br)

OESP, 24/08/2006, Vida, p. A24

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