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Fabrica contamina agua na zona sul

OESP, Metropole, p.C5
22 de Ago de 2005

Fábrica contamina água na zona sul
Poços artesianos tiveram de ser lacrados por conterem produtos cancerígenos; denúncia foi apresentada ao Ministério Público
Natália Zonta
O terreno da antiga fábrica da Gillette, na Avenida Eusébio Stevaux, região de Santo Amaro, zona sul, foi identificado pela Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) e pela Vigilância Sanitária Municipal como foco de contaminação da água de sete poços artesianos da região. A água contém resíduos industriais que, no longo prazo, podem causar lesões no fígado e câncer. A denúncia já foi encaminhada ao Ministério Público Estadual (MPE).
Seis indústrias eram abastecidas pelos poços, atualmente interditados. Em cinco, a água estava sendo usada diretamente pelos funcionários - cada empresa tem, no mínimo, 300 empregados, segundo estimativa da Vigilância Sanitária.
O aqüífero atingido foi o cristalino, que abrange a região mais alta da cidade, como Cantareira e o extremo da zona sul, além dos municípios de São Bernardo, São Caetano e Osasco. De acordo com a subgerente da Coordenadoria da Saúde do Trabalhador da Vigilância Sanitária, Magda Andreotti, ainda não é possível saber o tamanho da área afetada pelos agentes químicos.
"Pedimos a ampliação das investigações para um raio de 500 metros a partir do foco de contaminação", explicou Magda. "Ainda não detectamos casos de trabalhadores com sintomas de intoxicação."
As indústrias tiveram de esvaziar seus reservatórios de água e o abastecimento agora está sendo feito pela Sabesp. A Vigilância não divulgou o nome das empresas que receberam a água contaminada com 11 substâncias. Sabe-se que uma é do setor alimentício e usava a água do poço para as máquinas e a limpeza da fábrica.
Segundo a Vigilância, a Gillette teria de descontaminar a água e o solo da região. "Para que as condições da água voltem ao normal, seriam necessários de 50 a 100 anos de tratamento", afirmou Magda. Procurada, a Assessoria de Imprensa da Gillette não quis se manifestar sobre a acusação.
Ainda não se sabe quando começou a contaminação do aqüífero na região, mas há indícios fortes a partir de 2003. "Neste ano, um poço no shopping SP Market, perto da Gillette, teve de ser interditado por mostrar a presença dos mesmos agentes encontrados recentemente", afirmou Magda. "Mas só agora, em mais uma fiscalização sobre solo contaminado, a Cetesb constatou que havia um foco espalhando os poluentes."
ANÁLISES
Cinco das seis indústrias que tiveram seus poços interditados estavam em dia com as análises de qualidade da água exigidas pelo Departamento de Águas e Energia Elétrica (Daee), que outorga a perfuração do solo.
Desde março de 2004, pessoas e indústrias que fazem o pedido para perfurar um poço precisam levar atestado da qualidade da água exigido pela portaria 518, publicada pelo Ministério da Saúde. O Daee exige que a cada cinco anos os exames nos poços sejam repetidos. Por terem menos de cinco anos, nenhum passou por reavaliação. As empresas tiveram as outorgas revogadas.
"Não se pode confiar em uma análise feita por terceiros", contesta a promotora pública do Meio Ambiente Patrícia Aude. "Essa é uma briga antiga que eu tenho com o município." Hoje, Patrícia deve distribuir a denúncia aos promotores da área e decidir quem vai assumir o caso.
Depois de detectada a contaminação de grandes proporções, segundo definição da Vigilância Sanitária, o município pretende credenciar laboratórios aptos a fazer análises ambientais. "Estamos sobre um barril de pólvora. Não sabemos para onde podem ir os componentes", explicou a subgerente Magda.
A Vigilância Sanitária informou que os vizinhos da região atingida que utilizam o sistema da Sabesp não precisam se preocupar com a contaminação. Já casas e prédios abastecidos por poços artesianos devem notificar a Prefeitura.
ILEGAIS
A oportunidade de livrar-se do problema da falta de água, diminuir os gastos e ter fornecimento ininterrupto leva moradores a perfurarem de forma ilegal o solo para construir poços artesianos.
"Ficamos surpresos quando, em março, durante uma blitz na Cracolândia, na região central, tivemos de fechar hotéis e notificar residências por terem poços ilegais", contou Magda. "Muitos não tinham nem sequer capacidade para captar a água do solo." A Cetesb estima que existam cerca de 10 mil poços artesianos na cidade - somente metade está cadastrada.
Geralmente, a perfuração é realizada na garagem, no jardim ou em qualquer área livre. A obra leva de três a dez dias para ficar pronta e o custo varia entre R$ 15 mil e R$ 50 mil, dependendo das especificações do terreno e do tamanho do poço. A autorização para perfuração do solo pode ser obtida em poucos dias, mas a outorga para uso da água é mais demorada e pode levar mais de um mês.

OESP, 22/08/2005, p. C5

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