CB, Economia, p. 25
17 de Dez de 2006
Exportações vão mudar
Vendas do país ao exterior, baseadas no agronegócio, devem ser prejudicadas pelo efeito estufa. Governo não está preparado
Ricardo Allan
Da equipe do Correio
O impacto na produção rural causado pelo aquecimento global vai demandar uma forte adaptação da pauta de exportações brasileiras, ainda muito dependente de commodities agrícolas. Neste ano, o agronegócio será responsável por 36% das vendas externas do país. Dos US$ 135 bilhões em divisas oriundas do comércio exterior em 2006, US$ 48,6 bilhões virão das atividades do setor. Apesar da importância do assunto, o governo não se preparou para enfrentar a ameaça que paira sobre as contas internacionais dentro de alguns anos. O descaso oficial com o tema é alarmante.
"Não tratamos de futurologia. Só estamos preocupados com o agora", disse ao Correio um importante membro da equipe econômica, que deveria estar enterrado até as amígdalas no planejamento de longo prazo do comércio exterior. Procurado, o ministério responsável pela área, o do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, preferiu não se pronunciar.
Sua assessoria de imprensa reconheceu que ninguém está trabalhando com as eventuais mudanças no perfil das exportações por causa do clima. Da mesma forma, o Ministério da Agricultura, responsável pela manutenção do abastecimento interno, preferiu não opinar.
Economistas ligados ao tema ambiental, entretanto, já despertaram para a necessidade de alteração do padrão de exportações. "Independentemente do clima, o Brasil precisa apostar mais na exportação de produtos tecnológicos e de mais alto valor agregado. O aquecimento global e seus efeitos na produção agrícola só reforçam ainda mais a relevância dessa migração. É preciso acordar o mais cedo possível", avalia Sérgio Besserman Vianna, professor de economia da PUC-RJ e conselheiro do WWF-Brasil, seção brasileira de uma das mais influentes organizações conservacionistas do mundo.
Energia
Vianna alerta para o fato de que o governo também precisa abrir o olho para a necessidade de mudanças na matriz energética brasileira. Além do aumento da ocorrência de secas, o aquecimento global aumenta a evaporação nos reservatórios e nos cursos dos rios. Tudo isso afeta a principal fonte de produção de energia no país, a hidrelétrica - as usinas hidrelétricas são responsáveis por cerca de 80% de toda a produção.
"O potencial hídrico já está caindo. Precisamos apostar mais na energia limpa que vem da biomassa, como o álcool, e quem sabe na matriz nuclear", defende.
Para o economista, os custos de adaptação a um clima mais hostil serão incalculáveis. Os cientistas acreditam que o semi-árido brasileiro vai ficar ainda mais seco, o que deve provocar o aumento de gastos com ajuda humanitária e com o deslocamento de populações para áreas menos inóspitas.
A elevação do nível do mar, que na costa brasileira pode chegar a até um metro em algumas décadas, também vai provocar a migração de habitantes do litoral para o interior, o que mudará a geografia econômica do país. Os investimentos com saneamento também terão que crescer para dar conta da piora das condições sanitárias.
O aspecto mais cruel dos desequilíbrios econômicos causados pelo aquecimento global é o agravamento da injustiça social, ressalta Jean Pierre Ometto, do Programa Internacional de Geosfera e Biosfera. "As pessoas que mais vão sofrer com os efeitos das mudanças climáticas serão as que menos contribuíram para elas. Os mais afetados serão as pessoas pobres dos países pobres, que têm um padrão de emissão de gases muito pequeno", diz.
Prejuízo de US$ 7 trilhões
O Relatório Stern, estudo feito sobre as conseqüências econômicas mundiais do aquecimento global, fez barulho. Mas não provocou nenhuma mudança nas políticas públicas dos países que mais poluem a atmosfera. Elaborado pelo economista Nicholas Stern, chefe do Serviço Econômico da Grã-Bretanha, e divulgado em outubro, o documento estima os prejuízos causados pelo efeito estufa em até 20% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial até o ano de 2050. Isso equivale a US$ 7 trilhões. Em compensação, as adaptações necessárias para evitar a catástrofe custariam apenas 1% do PIB mundial.
"Essas perdas econômicas causadas por fatores climáticos têm a proporção da crise de 1929 ou de uma guerra mundial. Embora o trabalho seja longo, é infinitamente mais barato mudar o padrão energético, vigiar as queimadas nas florestas e cortar a emissão de gases poluentes", afirma o economista Sérgio Besserman Vianna, conselheiro do WWF-Brasil.
Na divulgação do estudo, Stern tentou sensibilizar o governo dos Estados Unidos, responsável por 36% das emissões globais, e da China, cujas emissões cresceram 40% nos últimos sete anos. Mas ambos os governos continuam insensíveis. Este ano será o sexto mais quente da história desde que as medições começaram a ser feitas, em 1850.
Os 10 anos mais quentes foram no período de 1994 até hoje, com os picos acontecendo em 1998 (o número 1 no ranking) e 2005 (o número 2). Os efeitos mais visíveis foram ondas de calor na Europa, com 30 mil mortos na França em 2003, por exemplo. Além disso, os cientistas atribuem à alta na temperatura a maior ocorrência de eventos climáticos extremos, como furacões e tempestades tropicais. O ano passado foi o campeão desses episódios, com custos de recuperação atingindo inéditos US$ 160 bilhões.
Mortes
Segundo estimativas preliminares do Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (INPE), na melhor das hipóteses, a temperatura no litoral brasileiro deve subir de 2o a 3o neste século, enquanto a do norte da Amazônia aumentará 6o. No pior cenário, se nada for feito pelos governantes mundiais para diminuir o efeito estufa, as principais capitais brasileiras sentirão uma elevação de 4o e os amazonenses, de 8o. "É preciso deixar claro que essas medidas são médias anuais. Ou seja, num dia quente de verão, vai morrer um bocado de gente no país", prevê Vianna, de forma sombria. (RA)
CB, 17/12/2006, Economia, p. 25
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