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Expansao urbana e caes ameacam o lobo-guara

OESP, Vida, p.A7
01 de Jan de 2005

Expansão urbana e cães ameaçam o lobo-guará
Atropelamentos e ataques de cachorros vêm pondo em risco a preservação da espécie, em via de extinção, no Distrito Federal
Herton Escobar
A expansão urbana e a invasão de cães domésticos e de rua estão pondo em risco a preservação do lobo-guará na região do Distrito Federal. Mesmo com parte de seu hábitat protegido por unidades de conservação, as pequenas populações são sufocadas pela ocupação humana. Ao mesmo tempo que são empurradas para dentro dos parques, são obrigadas a atravessar estradas e caminhar por áreas urbanas, para fugir do isolamento. Com isso aumenta os número de lobos atropelados e capturados nas cidades, apesar de ser uma espécie em extinção.
As unidades afetadas são o Parque Nacional de Brasília, a Área de Proteção Ambiental Cabeça de Veado e a Estação Ecológica de Águas Emendadas. "O principal problema é a fragmentação de ambientes e o isolamento das áreas naturais, que estão cada vez mais afastadas e isoladas umas das outras", afirma Flávio Henrique Guimarães Rodrigues, professor da Universidade Federal de Minas Gerais e pesquisador da Associação Pró-Carnívoros.
Cada lobo, segundo ele, precisa de um território de 5 mil hectares em média para sobreviver. Em Águas Emendadas, por exemplo, são 10 mil hectares para dez lobos. As áreas urbanas, segundo Rodrigues, dobraram ao redor da estação entre 1987 e 1997. Mais de quatro lobos, em média, são atropelados no entorno da unidade, apesar da colocação de placas para alertar os motoristas. A maioria, segundo ele, é de animais jovens, com cerca de 1 ano, que estão na fase de se dispersar e buscar território próprio.
"É óbvio que os lobos não reconhecem uma cerca como um limite", diz Rodrigues. "Todos saem da estação e circulam pelas chácaras e fazendas vizinhas." Os preservacionistas conseguiram que o limite de velocidade nas rodovias de entorno fosse reduzida de 80 km/h para 60 km/h. Mas não adiantou. "Todo mundo continua passando a 100, 120 km/h."
No parque nacional, de 30 mil hectares, o problema é a invasão de cachorros, que atacam os lobos e lhes transmitem doenças. Segundo a bióloga Ana Cristyna Reis Lacerda, da Coordenação Geral de Fauna do Ibama em Brasília, a espécie costuma ser perseguida por bandos de vira-latas, assim como as antas e os tamanduás. Não se trata de fome. Uma análise da situação mostra que eles matam os animais, mas não se alimentam deles. "É o instinto predador", afirma Ana.
Os cães avançam por toda a borda do parque até cerca de 1 quilômetro das cercas, empurrando os animais selvagens para longe. "Onde tem cachorro você não encontra lobo nem tamanduá", explica Ana. "O que deveria ser uma área protegida de 30 mil hectares, portanto, acaba sendo muito menor."
O lobo-guará é um animal tímido e sua reação diante de uma ameaça costuma ser a fuga - ou para dentro ou para fora do parque. Por isso não é incomum hoje a aparição de exemplares perambulando por fazendas e até áreas urbanas. Em outubro, uma fêmea de 3 anos foi capturada no saguão de um hotel no centro de Brasília.
A solução, segundo os pesquisadores, exige o recolhimento de cães e, principalmente, a criação de corredores ecológicos, para que os lobos possam circular entre as diferentes áreas de preservação. Para isso, até fazendas podem ser usadas, dentro de um planejamento adequado. "É preciso pensar tudo como uma paisagem coletiva, na qual o homem também está inserido", defende Rodrigues.

Espécie não gosta de cidades e tem medo das pessoas
Vida difícil: O lobo-guará está na lista de espécies ameaçadas do Ibama, mas ninguém sabe exatamente quantos lobos há no País. A espécie vive principalmente no cerrado, mas também nos pampas e campos sulinos. É um animal solitário, que só se junta para reprodução e tem de dois a três filhotes por ano. Em cativeiro pode viver mais do que 15 anos, mas não se sabe até que idade chega no ambiente selvagem.
É um animal onívoro, o que significa que come de tudo. Em geral, se alimenta de frutos, aves e pequenos vertebrados. Na falta de comida, porém, já foi flagrado vasculhando latas de lixo nas cidades. No caso de alguém topar com um deles no quintal, o ideal é chamar o Ibama e não se aproximar do animal - para não espantá-lo em direção a uma estrada ou acabar causando pânico.
"Os lobos não gostam de cidades; têm medo do ser humano e não oferecem risco nenhum. Normalmente, vão embora sozinhos", diz o pesquisador Rogério Cunha de Paula, do Centro Nacional de Predadores Naturais do Ibama. A probabilidade de um lobo-guará atacar um pessoa, segundo ele, é mínima. "Seria mais comum um cachorro te atacar na rua."

OESP, 01/01/2005, p. A7

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