O Globo, Opinião, p. 7
Autor: MARCATTO, Celso
19 de Fev de 2007
Expansão da soja ameaça cerrado e Amazônia
Celso Marcatto
As posições assumidas pelo Brasil, em Davos, na Suíça, durante o Fórum Econômico Mundial, apenas confirmaram o que muitos já sabiam: o governo está disposto a negociar a redução das tarifas de importação de produtos industrializados em troca da redução dos subsídios agrícolas e da abertura dos mercados dos países do primeiro mundo para os produtos agrícolas brasileiros.
A novidade das declarações é a de que, pela primeira vez, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, admitiu que determinados setores da indústria brasileira serão afetados pelos resultados das negociações de Doha e que será necessário construir mecanismos que permitam a adaptação desses setores à nova realidade.
A abertura dos mercados nacionais para produtos industrializados importados vai fatalmente provocar a elevação das importações, o aumento da concorrência, o fechamento de indústrias e o desemprego, colocando em risco importantes setores da indústria brasileira. De acordo com a Federação das Indústrias de São Paulo, os setores que provavelmente serão mais afetados pela redução das tarifas de importação são os de eletroeletrônicos, bens de capital, químico, automotivo e têxtil.
Nesse sentido, as negociações em curso representam um duplo desafio para o Brasil. Por um lado, o país terá que se adaptar para enfrentar a concorrência externa de produtos industrializados. Por outro, terá que lidar com os problemas decorrentes da elevação da produção nacional de grãos, fortemente incentivada pela oportunidade aberta pelos mercados externos.
O principal produto de exportação do agronegócio brasileiro é a soja, que ocupa hoje mais de 47% da área plantada com grãos no país. Em 2005, a soja representou 22% das exportações do agronegócio, seguido das carnes, 18%, e do açúcar e álcool, 11%. Em relação às carnes, é importante salientar que a produção de suínos, aves e bovinos está fortemente calcada na utilização da soja como fonte de proteína, ou seja, exportação de carnes é também exportação de soja.
Até poucas décadas, a soja era plantada basicamente por pequenos produtores do Sul. Hoje, a expansão da soja está fortemente concentrada em grandes fazendas nas áreas de cerrado e avançam rapidamente para a Região Amazônica. A Amazônia Legal, composta por áreas de cerrado e áreas de floresta, já é responsável por um quinto da produção nacional desse grão. A área plantada com soja na Amazônia Legal cresce a taxas de mais de 300% ao ano e, por dispor de "áreas livres", deve seguir crescendo nas mesmas taxas nos próximos anos.
Os impactos ambientais da expansão da soja já são bastante conhecidos: destruição das florestas e do cerrado, destruição de nascentes e áreas de recarga, contaminação da água e dos solos por agrotóxicos e fertilizantes, redução da biodiversidade animal e vegetal.
Estudos recentes conduzidos pela Fase e apoiados pela ActionAid, porém, indicam que o modelo de produção baseado na monocultura da soja para exportação tem promovido a expulsão de comunidades inteiras de agricultores familiares nas áreas do cerrado e da Amazônia, ampliando a fome e a miséria das populações tradicionais dessas regiões.
No modelo de produção atual, a soja traz ganhos para um pequeno grupo de grandes produtores, não mais do que quatro grandes empresas multinacionais e duas grandes empresas nacionais que comercializam e industrializam a soja, e pobreza e miséria para milhares de brasileiros.
Além das negociações em curso, outras duas iniciativas do governo federal indicam um forte incentivo a esse modelo de produção. O Programa de Produção de Biodiesel pode vir a ter a soja como principal matéria-prima. Da mesma forma, o recém anunciado Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) destina um volume significativo de recursos para a recuperação e ampliação de rodovias, hidrovias e portos, com o objetivo de facilitar o transporte da produção de grão (de soja).
As ações do governo brasileiro voltados para a ampliação do mercado para a soja nacional, via acordo na Organização Mundial do Comércio, pela produção de biodiesel ou por programas como o PAC, podem contribuir para elevar o PIB e equilibrar momentaneamente a balança comercial do país ao custo da expulsão das comunidades tradicionais, da destruição de dois importantes biomas, o cerrado e a Amazônia, e do comprometimento do nosso futuro.
Celso Marcatto, é coordenador de Segurança Alimentar da organização não-governamental ActionAid Brasil
O Globo, 19/02/2007, Opinião, p. 7
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