OESP, Agrícola, p. G2
Autor: MELO, Fernando Homem de
26 de Nov de 2003
A expansão da soja
Fernando Homem de Melo
A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) divulgou recentemente os números do primeiro levantamento da produção de grãos para a safra 2003/2004 no Brasil. É, ainda, o que se chama de "intenção de plantio" e muitas hipóteses são feitas. Entretanto, mesmo tomando-se a devida cautela, esses primeiros números são, de modo geral, auspiciosos. Nossa safra total de grãos deverá chegar ao intervalo de 124,4 milhões a 127,7 milhões de toneladas, com um crescimento sobre este ano no intervalo de 1,5% a 4,2%. No lado negativo, fica a previsão para a produção de milho, com uma redução que poderá chegar a 7,9% em relação à produção da safra 2002/2003.
No lado positivo, mais uma vez, o destaque fica para a nossa produção de soja, que deverá ficar no intervalo entre 56,1 milhões e 58 milhões de toneladas, com um crescimento previsto no intervalo entre 7,8% e 11,5%. A produção brasileira de soja vai crescendo a um ritmo anual que cada vez a aproxima mais da produção norte-americana. Não é surpresa, portanto, que os Estados Unidos sempre apresentem dificuldades quanto à discussão de sua política de protecionismo agrícola. Apenas como evidência desse elevado ritmo de crescimento, no triênio 1961/1963 o Brasil produziu apenas 313 mil toneladas dessa oleaginosa. Isso, adicionalmente, desmente o pessimismo da Cepal, naquela época, sobre a possibilidade de crescimento da produção e das exportações de produtos agropecuários da América Latina.
Hoje a soja é cultivada em praticamente todo o Brasil. Na safra 2003/2004 apenas a Bahia apresenta uma perspectiva de decréscimo de área (pequena), provavelmente causada pela doença "ferrugem", que atingiu suas plantações neste ano, e por causa das ótimas previsões econômicas para o algodão. Mato Grosso será o primeiro produtor de soja em 2004, seguido pelo Paraná e Rio Grande do Sul. Aliás, isso retrata muito bem as mudanças estruturais em nossa produção dessa oleaginosa, muito bem descritas no artigo "Condicionantes da Modernização da Soja no Brasil", de Ivan Sérgio Freire de Sousa (Revista de Economia e Sociologia Rural, abril-junho de 1990).
O Brasil foi muito competente em aproveitar as condições do mercado de soja.
Em primeiro lugar, o fato de ser um produtor pequeno no mercado internacional. Vale, nesse caso, a famosa frase em economia internacional, "a importância de não ser importante", no sentido de aumentar as nossas exportações a preços constantes e não declinantes, como previa a Cepal. Em segundo lugar, a demanda internacional tem crescido a taxas elevadas, pelo fato de a soja ser um grão utilizado na alimentação animal. Nas últimas décadas a demanda mundial de carnes cresceu a taxas elevadas, principalmente nos países de média renda.
Em terceiro lugar, fica a menção ao extraordinário esforço de pesquisa tecnológica feito pelas instituições, públicas e privadas, desde as federais, as estaduais e as universidades. Símbolos desse esforço são as variedades precursoras no Rio Grande do Sul, representadas pela variedade santa rosa nos anos 60 e 70. Posteriormente, a revolução tecnológica comandada pela Embrapa, desenvolvendo as variedades de cerrado/tropicais, que propiciaram o espalhamento de uma cultura de clima temperado pelo Brasil todo. As Regiões Centro-Oeste, Nordeste e Norte terão 52,6% da área com soja em 2003/2004, comprovando esse alastramento.
Fernando Homem de Melo é professor-titular do Departamento de Economia da FEA-USP e pesquisador da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe)
OESP, 26/11/2003, Agrícola, p. G2
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