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Êxodo no Oceano

O Globo, Sociedade, p. 18
05 de Jun de 2015

Êxodo no Oceano
Peixes tropicais procuram as águas frias do Ártico para fugir do aquecimento global

Renato Grandelle

O imenso mar deserto em regiões como a costa brasileira compromete a existência da indústria da pesca, vital para o setor econômico e para a dieta da população. Um estudo publicado esta semana na revista "Science" mostra que o aquecimento global, provocado pela ação humana, está impulsionando a migração de espécies marinhas dos oceanos tropicais para o Ártico. Pesquisadores entrevistados pelo GLOBO avaliam que o Dia Mundial do Meio Ambiente, comemorado hoje, deve servir como reflexão sobre os efeitos do excesso de calor nos oceanos, que atrapalham a produção de oxigênio necessário para a vida.
- Quanto mais quente é a água, menor é a quantidade de oxigênio disponível. Isso explica porque a pesca nos trópicos é menos produtiva do que em regiões frias - explica Cláudio Gonçalves Tiago, pesquisador do Centro de Biologia Marinha da USP. - O estudo mostra como o bacalhau, uma espécie de caranguejo e duas de peixes, todas importantes economicamente para uma série de países, estão precisando ir para outras regiões, ou viver em áreas mais profundas, para conseguir manter o metabolismo.
Autor principal do estudo, Hans-Otto Pörtner avalia que as espécies tropicais recém-chegadas no Ártico podem abalar o equilíbrio do ecossistema. As espécies mais vulneráveis, inclusive, sofreriam com a ameaça de extinção.
- A água no Ártico é extremamente fria, mas também muito rica em oxigênio - observa. - Com a evolução, os animais que vivem ali se adaptaram a estas condições e terão menos chance de sobreviver quando esta região for mais atingida pelo aquecimento global. As espécies que migram de regiões quentes, e que precisam de menos oxigênio, vão atingir fortemente as nativas - explica.

'BACALHAU ESTÁ VIRANDO REFUGIADO CLIMÁTICO'
Especialista em vida marinha do Instituto Oswaldo Cruz, Salvatore Siciliano admite que as consequências da nova distribuição das espécies marinhas no planeta ainda são misteriosas.
- É uma loteria. Não sabemos se os polos conseguirão receber estas espécies - alerta. - O bacalhau está virando um refugiado climático. Se não procurar outro ambiente, corre o risco de desaparecer - diz.
Coautor do último relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, divulgado no ano passado, Pörtner ressalta que muitas espécies marinhas só terão chance de sobreviver se migrarem para regiões onde o aumento da temperatura global não ultrapasse a marca de 1,5 grau Celsius - sendo que a meta discutida pela comunidade internacional, e por muitos considerada utópica, já prevê o crescimento de 2 graus Celsius.
Diante de um cenário que poderia parecer desanimador, pessoas como o biólogo marinho Marcelo Szpilman não abrem mão de preservar o litoral brasileiro. Apaixonado por tubarões, Szpilman promete transformá-los na principal atração do Aquário Marinho do Rio. No front da defesa das espécies, a oceanógrafa Neca Marcovaldi salvou 20 milhões de tartarugas, e o fotógrafo Daniel Botelho registra operações de guerra contra os pescadores de baleias. No campo da pesquisa, o navegador João Lara Mesquita visita e registra o estado dos parques marinhos do país.

A fauna marinha da Zona Sul
Documentário feito a 15 anos testemunha diminuição das espécies

Quem assiste de longe ao despejo de fezes e esgoto pelo canal do Jardim de Alah imagina que o mar de Ipanema não está para peixe. Apesar do cenário deplorável, cinco mergulhadores resolveram chegar mais perto e viram que ainda existe vida abaixo do rastro de fedor.
Durante 15 anos, um pescador de polvo, um garimpeiro, um surfista, um barraqueiro da praia e um porteiro mergulharam em Copacabana, Ipanema e Arpoador, acompanhados pela câmera do biólogo marinho Ricardo Gomes. Os passeios resultaram no documentário "Mar urbano", que será exibido hoje, às 13h30m, no canal Futura.
O quinteto capitaneado por Gomes flagrou a frenética vida oculta no fundo do mar daquele trecho da Zona Sul do Rio. Polvos acasalando, a briga de cardumes de anchovas, o ir e vir de sardinhas miúdas, águas-vivas, tainhas e tartarugas. No entanto, a diminuição da quantidade de espécies com o passar dos anos chamou a atenção do documentarista.
- Chegamos ao ápice, um momento em que precisamos decidir se as próximas gerações conseguirão presenciar a vida no mar. Desde o início da produção do filme, reparamos que há cada vez menos dias de água limpa - alerta Gomes, que também se preocupa com os efeitos do aquecimento global sobre o oceano. - Por exemplo, nos últimos dois verões a água esquentou tanto que matou metade dos corais da Baía de Angra dos Reis.
Ironicamente, parte da vida marinha adotou o início do cano de esgoto do Jardim de Alah como habitat.
- Por ser uma estrutura de concreto no meio da areia, o início do tubo vira um recife artificial, o que proporciona o surgimento de uma fauna marinha ao redor dele - conta o documentarista. - Mas é claro que o melhor seria construir uma estação de tratamento que não levasse esgoto in natura para a praia, como tem ocorrido há 30 anos. Só assim evitaríamos o colapso ambiental.

O Globo, 05/06/2015, Sociedade, p. 18

http://oglobo.globo.com/sociedade/sustentabilidade/peixes-tropicais-pro…

http://oglobo.globo.com/sociedade/defensores-do-oceano-16354597

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