OESP, Metrópole, p. C6-C7
19 de Ago de 2012
Força Aérea leva à fronteira experts em dependência química
Experiência pioneira pretende dificultar a formação de mão de obra para o tráfico na região e alertar para os riscos das drogas
CLARISSA THOMÉ, ENVIADA ESPECIAL, CHUÍ (RS)
Quando o pequeno Leo Vitor foi adotado, aos 5 meses, o prognóstico médico era dos piores: o menino provavelmente não andaria nem falaria, sequela de um traumatismo craniano. Tinha sido espancado pelo pai, viciado em drogas. Ainda havia a suspeita de HIV. Nada disso se confirmou.
Na quarta-feira, ele atravessou correndo um campo de motocross no Chuí, extremo sul do País, no Rio Grande do Sul, ao lado dos novos pais, ao avistar um helicóptero Blackhawk da Força Aérea Brasileira (FAB) que participa da Operação Ágata 5, de combate aos crimes de fronteira. A bordo, especialistas em dependência química. Pela primeira vez, uma equipe de prevenção integra a operação militar.
"A gente conhece de perto o efeito que isso (a droga) faz com as pessoas. A mãe oferecia o bebê na rua como quem vende fruta. O corpinho coberto por hematomas. Minha preocupação agora é com minha filha de 13 anos. A escola não fala de prevenção. A droga é um problema muito sério, e não é porque estamos na fronteira. É um problema mundial", diz Gretty Bermudes, de 34 anos, satisfeita com a palestra promovida pela FAB. Ao lado dos filhos e do marido, Cássio Stoquete, de 33, ela brincava com aviões de isopor distribuídos pelos militares, antes da apresentação dos especialistas.
Três especialistas do Rio foram convidados para integrar a operação. Participaram da ação o psiquiatra Jorge Jaber, presidente da Associação Brasileira de Alcoolismo e Drogas (Abrad), um dos formuladores da portaria municipal que determina a internação compulsória de crianças e adolescentes que usam crack no Rio, a enfermeira pediátrica Sylvia Cibreiros, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), que desenvolve linha de pesquisa sobre saúde e criança, e a pedagoga e especialista em dependência química Ângela Hollanda, que transmite tecnologia de tratamento comunitário.
Em um período curto de quatro dias, Jaber e sua equipe entraram e saíram de oito aeronaves, entre aviões bandeirantes e helicópteros, para falar a diferentes públicos - de autoridades e profissionais da saúde do Chuí a gestores de abrigos e internos de orfanatos em Porto Alegre.
Prevenção. "O que estamos tentando fazer é aliar a prevenção ao trabalho de repressão. O que a gente quer é dificultar a formação de mão de obra na fronteira. O usuário de droga da fronteira tende a se transformar em mão de obra especializada - conhece o terreno, sabe os caminhos", afirma o major brigadeiro José Geraldo Malta, comandante da FAB na Ágata 5.
Jaber explica que a intenção não é aprofundar o debate sobre as drogas. E evita temas polêmicos, como a discussão sobre a legalização ou não. "A intenção não é levar cura, mas semear ações que impeçam principalmente os jovens de adquirir doença mental. Porque a dependência química é uma doença", afirma Jaber.
'Eu quero que minha história sirva de exemplo'
Alice usou droga pela 1ª vez aos 11 anos. Hoje aos 16, vive com o filho de 2 em um orfanato e faz curso de chef de cozinha
PORTO ALEGRE
Alice, de 16 anos, cresceu em Passo das Pedras, numa região que ganhou o apelido de Pedrinha. A mãe, o pai e os irmãos se drogavam. Ela também seguiu esse caminho. Aos 11 anos, fumou maconha. "Depois foi tudo: pedra, farinha, cheirinho da loló." Passou a morar na rua. Engravidou aos 14 do namorado de 22. Comemorou. "Eu sempre quis ser mãe."
Nem grávida saiu da rua. Nem grávida deixou as drogas. Entrou em desespero quando, aos dois meses de gestação, o pai de seu filho foi assassinado por dívida com traficantes. Ela viu o companheiro morrer.
Usou crack até o nascimento do filho, prematuro de 7 meses. Em uma noite, dormia em uma casa abandonada quando a polícia chegou. "Eles batiam nas costas. Eu falava que estava grávida. A barriga doía, mas eles não paravam. Achei que o bebê fosse morrer", conta.
Alice percebeu que o filho não vingaria se permanecesse nas ruas. Procurou o conselho tutelar, pediu para ser internada. Henrique nasceu logo depois. "Sem nenhum defeito", faz questão de dizer.
Recomeço. Os dois moram no Lar Esperança, orfanato e também centro de atendimento social, em que crianças do violento bairro Mário Quintana têm atividades, no contraturno escolar.
Alice já viu um homem ser assassinado no terreno do orfanato, quando fugia de traficantes. De vez em quando, enfrenta toques de recolher, quando há enfrentamentos de gangues rivais.
Hoje, ela hoje faz curso de chef de cozinha. Ganha R$ 500 por mês e tem R$ 1 mil na poupança, para montar sua casa. O maior medo: perder o filho para a adoção. "Quero que minha história sirva de exemplo. Eu falo muito para as meninas daqui não fazerem coisa errada." / C.T.
Até música pop é usada para atrair os jovens
Proposta é levar aos locais mais distantes cursos de formação de conselheiros em dependência
CHUÍ (RS)
Para atingir também adolescentes, os homens da Força Aérea Brasileira (FAB) e a equipe de profissionais especializada em dependência química adotam estratégias diferenciadas. Se para as crianças falaram sobre a importância de não colocar "coisas sujas" no organismo, para os jovens o tom era mais motivacional. A equipe chegou a cantar trecho de O Sol, de Jota Quest: "E se quiser saber pra onde eu vou/ pra onde tenha sol/ é pra lá que eu vou".
A mensagem principal, porém, é sobre a formação dos centros de tratamento comunitário, onde famílias e usuários de droga encontram apoio. "A gente não tem repostas prontas. Elaboramos com as famílias a melhor maneira de lidar com cada caso, explica Ângela, coordenadora pedagógica do centro de tratamento que funciona na Câmara Comunitária da Barra.
Ângela era diretora de escola quando o filho de 15 anos passou a usar maconha e, mais tarde, cocaína. "Você se pergunta onde errou, como deixou aquilo acontecer. Depois, decide que vai consertar o que falhou. É preciso a família também se tratar para entender que não foi erro de ninguém, que é uma doença."
No centro, o psiquiatra Jorge Jaber, do Rio, montou curso de formação de conselheiro em dependência química para o público leigo, com um ano de duração. "É preciso formar mão de obra para lidar com esse problema. Temos experiências positivas com a recuperação de dependentes químicos em grupos comunitários, acompanhados por leigos, que são supervisionados por equipes de psiquiatras. Pode ser a solução para municípios pequenos, sem estrutura, ou para os grandes municípios, com atendimento superlotado", afirma.
A proposta é levar esses cursos de formação para os locais mais distantes, seja por aulas em videoconferência, seja por curso a distância, que ainda será formatado. A partir das palestras que deu, Jaber já foi procurado por gestores de abrigos de Porto Alegre e pela Secretaria de Saúde de Foz do Iguaçu.
Contra o crime. A Operação Ágata combate os chamados crimes de fronteira - contrabando, tráfico de drogas, transporte de carros roubados para o exterior. Na quinta edição, Forças Armadas, Polícia Federal e outros 20 órgãos do governo atuam em um trecho de 3 mil quilômetros, entre Chuí (RS) e Açorizal (MS).
Dez mil militares participam da ação. Iniciada em 6 de agosto, apreendeu na primeira semana 12 mil quilos de explosivos, R$ 40 mil em notas falsas, 6 mil quilos de drogas, entre outros materiais ilícitos, segundo relatório liberado em 13 de agosto. Os trabalhos terminam amanhã.
"Não é a operação com maior número de apreensão, mas é a que mais desestrutura o crime, por causa da presença ostensiva das Forças Armadas", diz o major Bruno Pedra. / C.T.
'Criança tem de ser protegida', diz médico
CANOAS (RS)
O psiquiatra Jorge Jaber, de 60 anos, tinha 15 quando um amigo morreu de overdose. Dedicou os últimos 31 anos de sua vida ao tratamento de dependência química, depois de fazer pós-graduação na Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Nesse período, atendeu 30 mil pacientes, internou 9 mil deles. Defensor da internação compulsória e formulador do embasamento teórico que levou à publicação da portaria que determina a internação involuntária de crianças no Rio de Janeiro, Jaber é contra punição do usuário de droga. "Não se pune doente. Trata-se."
O crack tornou mais difícil o tratamento dos dependentes químicos?
Temos uma dificuldade técnica em relação ao crack, que tem uma "virulência", digamos assim, muito maior. Mas hoje é mais fácil falar em tratamento, porque as pessoas já reconhecem que é uma doença e que essa doença precisa de cuidado médico, não de castigo. É uma epidemia. No ano passado, eu tinha 35 pacientes internados em abril. Agora, tenho 81. E não há vagas. Fui acionado judicialmente porque não tinha como internar um paciente e ele está cobrando danos morais.
O senhor falou que não se deve castigar. Defende a descriminalização da droga?
Sou a favor da descriminalização do usuário, mas totalmente contra a liberação. Existem modelos muito específicos de liberação da droga e nenhum deles se aplica ao Brasil, um país de tamanho continental e que não tem como dar conta, na assistência médica, do número de pacientes que pode surgir. A pergunta que eu faço é: se liberar, como a gente faz com as crianças? Porque hoje não se consegue evitar a venda de álcool e tabaco para as crianças. A gente tem de discutir é se a venda de álcool e tabaco deve permanecer liberada no País.
A internação compulsória é um tema polêmico e a sua eficácia, contestada. O que o senhor tem a dizer sobre isso?
Eu publiquei um trabalho em uma revista científica internacional no qual demonstrei ter atingido 66% de eficácia no tratamento com pessoas internadas involuntariamente. São dois terços dos pacientes. Ninguém pergunta para quem sofreu um infarto agudo do miocárdio se quer ser internado ou não. No adulto, até cabe a discussão se ele deve ser ou não internado para tratamento de uma dependência química. É questão de opinião. Mas com criança não tem essa discussão. Ela tem de ser protegida. E é disso que trata a portaria que vale no Rio de Janeiro. / C.T.
OESP, 19/08/2012, Metrópole, p. C6-C7
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