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Exército de borracha

O Globo, História, p. 36
19 de Jun de 2010

Exército de borracha
Pesquisadora resgata história de seringueiros que participaram do esforço de guerra em 1942

Roberta Jansen

Um contingente de brasileiros superior àquele enviado à Itália para lutar ao lado dos Aliados participou tão ativamente da Segunda Guerra Mundial quanto os militares. A saga desse exército de civis paupérrimos é frequentemente negligenciada, mas vem sendo resgatada pela historiadora Maria Veronica Secreto, da Universidade Federal Fluminense (UFF). Formado por milhares de seringueiros enviados às pressas para a Amazônia, o grupo tinha como missão produzir a maior quantidade possível de borracha para o esforço de guerra. Acabou abandonado à própria sorte no meio da floresta.

A borracha era considerada um produto para lá de estratégico na guerra. Para se ter uma ideia do quanto, cada soldado demandava nada menos que 98 quilos de borracha em equipamentos e assessórios. E isso numa época em que a borracha sintética ainda não era disseminada e a maior parte da produção da borracha natural estava concentrada na Ásia e, portanto, nas mãos do Eixo. A produção amazônica, praticamente abandonada desde o início do século XX, tornou-se, subitamente, parte crucial dos acordos firmados pelo governo de Getúlio Vargas com os EUA para a entrada do Brasil no conflito, a partir de 1942.

- A demanda por borracha era enorme - atesta Maria Veronica, do Departamento de História da UFF. - E no mapa da contribuição agrária para o esforço de guerra, coube ao Brasil produzir borracha, entre outras coisas.
Ao menos 35 mil foram recrutados
Não havia, entretanto, gente suficiente nos seringais para produzir o volume esperado em tão pouco tempo, como queriam os EUA. A solução do governo Vargas foi começar a recrutar nordestinos para a missão.

Ao todo, segundo Veronica, entre 1942 e 1945, teriam sido recrutados 34.423 homens para trabalhar nos seringais - ou seja, praticamente dez mil a mais do que os 25 mil pracinhas que lutaram na Itália. E há quem diga que foi muito mais gente.

- O número foi questionado por um deputado cearense, em 1946 - conta Veronica. - Segundo ele, documentos do Ministério do Trabalho indicariam que foram mobilizados 53.399 pessoas, entre trabalhadores e dependentes.

Não é de se espantar que o governo tenha conseguido convencer tanta gente em tão pouco tempo a exercer o duro ofício na selva. Nas paredes do Museu da Borracha, em Rio Branco, no Acre, é fácil entender por que. Cartazes de época revelam que, aos empobrecidos nordestinos, foram feitas promessas de salários razoáveis, casa e comida, além de ajuda às famílias que ficassem para trás.

Apelou-se ainda ao ufanismo, num momento em que o mundo estava dividido em dois. "Mais borracha para a Vitória", com V maiúsculo e tudo, bradavam os cartazes distribuídos nos centros de recrutamento.

A realidade na floresta, no entanto, mostrou-se muito mais dura do que as promessas de uma vida melhor e de colaboração para uma nobre causa.

Na análise de Veronica, o governo Vargas até tentou dar uma condição mais digna aos trabalhadores, criando, na selva, estruturas estatais para a distribuição de alimentos e atendimento médico - para que os seringueiros não ficassem nas mãos dos latifundiários, como acontecia durante o primeiro ciclo da borracha, na virada do século. Além disso, aponta a pesquisadora, muniu os trabalhadores de um contrato, que, por mais rudimentar que fosse, previa remuneração e direitos.

- Em princípio, parece-me que o governo foi bem intencionado - diz Veronica, autora de "Soldados da borracha, trabalhadores entre o sertão e a Amazônia no governo Vargas". - Mas não houve fiscalização do que estava ocorrendo por lá. As estruturas criadas pelo governo, como a superintendência de abastecimento, não conseguiam concorrer com as redes que os donos dos seringais, uma oligarquia muito forte, tinham na Amazônia.

Ou seja, eles voltaram a trabalhar por dívida (quando o seringueiro não recebe salário, mas um saldo no armazém do dono do seringal, num regime apontado pela Organização Internacional do Trabalho como análogo à escravidão).

A maior parte desses trabalhadores nunca voltou para casa. No fim, o governo acabou por desamparar suas famílias, que deixaram de receber auxílio. Um escândalo que acabou provocando a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), em 1946, que tentou, sem sucesso, apurar o destino desse exército de brasileiros que acabou sendo tragado pela selva.

Chico Mendes e a luta dos povos da mata

Foi somente na Constituição de 1988 que os seringueiros recrutados no esforço de guerra ganharam o direito de reivindicar uma pensão do Estado. Ainda assim, cada sobrevivente teria que abrir uma ação individual e provar que trabalhou na Amazônia entre 1942 e 1945, uma tarefa no mínimo complicada, segundo a historiadora Maria Veronica Secreto, da UFF.

A questão das condições insalubres de trabalho dos seringueiros e sua exploração não mudou quase nada ao longo de todo o século XX. A luta e o assassinato de líderes sindicais regionais, como Wilson Sousa Pinheiro, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia, no Acre, e de Chico Mendes, do sindicato de Xapuri, no mesmo estado, na década de 80, revelam como ainda é complicada a situação dos trabalhadores da região.

A morte de Chico Mendes, entretanto, acabou por chamar atenção do mundo para o problema.

Foi o líder sindical quem comandou o primeiro Encontro Nacional de Seringueiros, em 1985, e a criação do Conselho Nacional dos Seringueiros. Foi também sob sua liderança que a luta dos seringueiros pela preservação do seu modo de vida ganhou repercussão nacional e internacional.

Chico Mendes conseguiu unir os chamados povos da floresta - índios, seringueiros e ribeirinhos - sob uma única luta, a da preservação da mata. O sindicalista foi o primeiro a propor a criação de reservas extrativistas.

Ciceroneando membros da ONU em visita a Xapuri, em 1987, Chico Mendes denunciou a devastação da floresta e a expulsão de seringueiros provocadas por projetos financiados por bancos internacionais. Dois meses depois, levou as denúncias ao Senado americano e a uma reunião do Banco Interamericano de Desenvolvimento.

Acabou sendo agraciado, naquele mesmo ano, por um prêmio ambiental da ONU, o Global 500, que acabou lhe conferindo destaque internacional como ambientalista e defensor da floresta.

Mas nem isso impediu o seu assassinato, em dezembro de 1988.

O Globo, 19/06/2010, História, p. 36

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