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Europa entre metas e crise

O Globo, Amanhã, p. 26-28
20 de Nov de 2012

Europa entre metas e crise
Promessas não são atingidas e recessão vira aliada para reduzir emissões. Compromissos anunciados pelos europeus ainda estão longe dos indicadores prometidos

DEBORAH BERLINCK
Correspondente da Europa
deborah.berlinck@oglobo.com.br

Comparado com muitas outras potências no mundo, ricas ou emergentes, os europeus são os que mais erguem a bandeira verde. E também os que mais prometem.
Considere isso: se comprometeram a cortar as emissões de gases do efeito estufa em 20% abaixo dos níveis de 1990, em 2020. É mais do que exigem os acordos internacionais do clima. Anunciaram a intenção de esticar este corte para 30%, caso os outros países assumissem a sua parte no esforço global de redução das emissões. E ainda assumiram o compromisso de adaptar as leis vigentes para tornar o continente 20% mais eficiente energeticamente e, por fim, prometeram reduzir o lixo em 65% nos próximos oito anos.
Mas hoje, em que pé estão estas promessas? No bom caminho, mas longe de estarem garantidas. Na última semana mais uma baixa nas promessas. A União Europeia voltou atrás e adiou, por um ano, a regulamentação que obriga todas as companhias aéreas a pagar por emissões de carbono de voos que entrarem no espaço aéreo do bloco - um conjunto de 27 países. Em 2008 e 2009, as emissões de gases do efeito estufa na UE despencara 7,3%, ou seja, em 365 toneladas. Boa notícia para o Planeta, sobretudo se for considerado que a UE produz cerca de 22% das emissões globais de gases e gera dois bilhões de toneladas de lixo anuais.
Mas não foram as políticas ambientais nem as promessas, mas sim a recessão econômica, provocada pela pior crise da História do pós-guerra - a consultoria Ernst & Young estima que o desemprego na zona do euro vai continuar subindo até 2014 e a crise na Grécia dá sinais de agravamento - que se encarregou da maior parte do esforço. Apesar dos reveses, a Agência Europeia do Meio Ambiente confirma que o continente vai cortar, nos próximos oito anos, 20% de suas emissões de 1990, cumprindo a promessa que fez na fracassada cúpula do meio ambiente, que ocorreu em Copenhague, em 2009.
Em maio, ao divulgar as estatísticas das emissões, Jacqueline McGlade, a diretora-executiva da agência, garantiu:
- As emissões aumentaram em 2010. Mas o aumento poderia ter sido maior, não fosse a expansão da energia renovável na UE.
De fato, em 2010, o uso de energia renovável na UE cresceu 12,7%. Só que, no mesmo ano, os europeus aumentaram em 7,4% seu consumo de gás, um dos três combustíveis fósseis mais poluentes no mundo. Juntos, a Alemanha, a Polônia e o Reino Unido foram responsáveis por mais da metade do aumento de emissões de gases do efeito estufa em 2010 na Europa. Depois de passarem os anos 50 e 60 investindo em energia nuclear, essa fonte energética caiu em desgraça. Hoje, a França é o único país da UE que se orgulha de ter investido pesado no nuclear: 78% da eletricidade do país vem desta fonte.
A Alemanha, por sua vez, se encontra numa encruzilhada. O país optou por se desfazer de suas centrais nucleares após o desastre de Fukushima, no Japão, em 2011. A chanceler Angela Merkel anunciou o plano de fechar as 17 usinas nucleares do país. E acrescentou mais uma promessa: 80% de energia alemã deverá ser gerada por fontes renováveis, em 2050. Antes do acidente de Fukushima, menos de um quarto da eletricidade alemã vinha de energia nuclear.
A guinada de Merkel pode ter um custo político. Os quatro maiores operadores energéticos do país divulgaram estudo mostrando que é o consumidor quem vai pagar boa parte da conta pela mudança. O custo da energia vai aumentar em 50%. Na Europa, os alemães já pagam mais que os outros por eletricidade: 0,25 de euros por kilowatt/hora, enquanto os franceses pagam 0,14 de euros e os poloneses, 0,15 de euros.
A mudança também não está sendo fácil no país que originou a revolução industrial: o Reino Unido. Lá, por conta da tradição do liberalismo econômico, o debate é ainda mais feroz. Ingleses queixam-se de que estão pagando uma conta cada vez mais alta pela energia. De outubro do ano passado até agora, os britânicos passaram a pagar 13% mais caro por sua energia. Ambientalistas culpam as produtoras de combustíveis fósseis por lucros altos e por insistirem num modelo poluidor.
Já outros atribuem a alta aos custos de investimentos em energia renovável. O que acaba sempre na questão polêmica: proteger o meio ambiente custa mais caro?
Richard Lloyd, presidente da organização de consumidores "Which?", está pedindo explicações ao governo para a recente rodada de aumentos dos preços da energia.
O Reino Unido estabeleceu como objetivo obter 15% de sua energia através de fonte renovável em 2020. Só que em Gales houve protestos porque poderia ferir o visual do país. O governo estuda agora um projeto de 6 bilhões de libras esterlinas (cerca de R$ 19,4 bilhões) para importar energia eólica da Irlanda.
A França está rompendo com a modelo nuclear e diversificando sua matriz. O projeto do socialista François Hollande prevê redução da energia nuclear dos atuais 78% para 50% em 2025. Em 2016, fechará a central nuclear de Fessenheim. Biodiversidade é outro campo: será criada uma agência nacional da biodiversidade e um conselho nacional para o mar e o litoral. Outra ideia é incentivar a agricultura biológica e manter a moratória contra transgênicos. E, por fim, adotar políticas para prevenção de riscos sanitários, como poluição.
Diretrizes ambientais proliferam na UE, sob a batuta das autoridades de Bruxelas. Difícil mesmo é cumprir as regras, sobretudo em período de crise e orçamentos apertados.
Relatório da UE mostrou que vários países do Sul e do Leste Europeu não estão atingindo as metas de reciclagem de lixo, com a Bulgária, Chipre e Grécia. Os países que obtiveram as melhores notas foram Áustria, Bélgica, Dinamarca, Alemanha, Holanda e Suécia. Bruxelas diz que o cumprimento total das regras de lixo no continente faria países pouparem 72 bilhões de euros na disposição de seus lixos, e criaria mais de 400 mil empregos em 2020.

O Globo, 20/11/2012, Amanhã, p. 26-28

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