O Globo, Sociedade, p. 47
04 de Set de 2016
EUA e China contra o aquecimento
Responsáveis por 40% das emissões de carbono, potências ratificam Acordo de Paris
SÉRGIO MATSUURA sergio.matsuura@oglobo.com.br
-RIO E HANGZHOU, CHINA- Num passo considerado essencial para o combate às mudanças climáticas, China e Estados Unidos ratificaram ontem formalmente o acordo assinado em Paris, em dezembro último, num feito histórico que visa à redução das emissões de carbono na atmosfera. Sozinhos, os dois países respondem por aproximadamente 40% das emissões globais de gases do efeito estufa. As duas nações mais poderosas do planeta também se juntaram à União Europeia para apoiar regras de controle das emissões no setor da aviação civil.
A entrada no acordo foi formalizada em uma cerimônia paralela à reunião do G-20, que reúne as maiores economias do mundo em Hangzhou, na China. Os presidentes Barack Obama, dos EUA, e Xi Jinping, da China, entregaram juntos o documento ao secretáriogeral da ONU, Ban Ki-moon. O acordo passa a vigorar quando for ratificado por ao menos 55 nações responsáveis por 55% das emissões globais. - Esta não é uma luta em que qualquer país, independentemente do seu poder, possa enfrentar sozinho - disse Obama, destacando que os EUA estão comprometidos em liderar a luta global contra as mudanças climáticas, esperando tornar o Acordo de Paris um marco que representa a união de todas as nações do mundo para barrar o aquecimento global. - Algum dia nós poderemos ver isso como o momento em que, finalmente, decidimos salvar o nosso planeta.
Por sua vez, o líder chinês classificou o acordo como um marco que assinala "a emergência de um sistema de governo global" para conter as mudanças climáticas.
- Nossa resposta à mudança climática diz respeito ao futuro do nosso povo e ao bem-estar da Humanidade - disse Xi.
A parceria era vista por muitos como improvável, dada a rivalidade entre as duas nações em questões como cibersegurança e as disputas territoriais no Mar do Sul da China. Mas a assinatura do acordo era urgente. Juntos, os dois países anunciaram a "convicção compartilhada de que a mudança climática é uma das maiores ameaças enfrentadas pela Humanidade". A China se comprometeu a parar de aumentar suas emissões até 2030, enquanto os EUA prometem cortar as suas em ao menos 26% nos próximos 15 anos, em relação aos níveis de 2005.
O diretor do Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas, Erik Solheim, ressaltou que as assinaturas das maiores potencias do mundo proporcionam um impulso adicional à união contra o aquecimento global.
- (O acordo) põe o bem-estar do nosso planeta no topo da agenda. As duas maiores economias do mundo também estão mostrando que o nosso futuro econômico é verde e tem baixo teor de carbono.
A adoção de medidas para reduzir as emissões de gases do efeito estufa é urgente. O planeta passa por um momento de aquecimento sem precedentes na História conhecida. Desde o início dos registros, ainda no século XIX, o ano de 2015 foi o mais quente, e o primeiro a superar em 1 grau Celsius a média de temperaturas do período pré-industrial.
EVENTO PARA COLETAR ASSINATURAS
Para impulsionar as adesões, o chefe das Nações Unidas afirmou ontem que irá realizar um evento em Nova York, para o qual convidará líderes de países para ratificarem formalmente o Acordo de Paris. Entretanto, para a comunidade científica, os esforços já anunciados não serão capazes de alcançar a meta acordada - de manter o aquecimento abaixo de 2 graus Celsius.
Na Cúpula do Clima de Paris, em dezembro de 2015, os países participantes apresentaram planos voluntários de redução das emissões de gases-estufa. Uma análise das propostas realizada pela ONU mostrou que, caso tudo seja cumprido conforme o prometido, seria possível limitar o aquecimento em 2,7 graus Celsius, bem acima da meta.
De acordo com a ONG Climate Transparency, para manter o planeta dentro do limite de até 2 graus Celsius de aquecimento, as grandes potências terão que multiplicar por seis os seus objetivos atuais de redução nas emissões. O pesquisador André Lucena, do Programa de Planejamento Energético da Coppe/UFRJ, explica que o limite de aquecimento em 2 graus Celsius é, até certo ponto, político, já que os cenários climáticos são probabilísticos. A única certeza é que, quanto maior for o aquecimento, o futuro do planeta será ainda mais incerto.
- Até 2 graus, nós podemos de certa maneira prever o que pode acontecer, o impacto seria gerenciável - explicou Lucena. - Acima disso, aumenta o grau de incerteza. Podem acontecer gaduas tilhos pontuais, que vão afetar outros processos. O aquecimento pode, por exemplo, liberar o metano preso no gelo, aumentando ainda mais a concentração de gases-estufa na atmosfera.
PACTO PARA A AVIAÇÃO CIVIL
Num reforço inesperado de combate às mudanças climáticas, China, EUA e União Europeia se comprometeram ontem a apoiar um acordo para a redução das emissões de gases-estufa pelas companhias aéreas, que deve ser finalizado este mês, na reunião da Organização Internacional de Aviação Civil, ligada à ONU, e entrar em vigor em 2021.
O setor ficou de fora do acordo climático de Paris por discordâncias sobre a responsabilidade das emissões em viagens internacionais. A nova proposta limitará as emissões de carbono nos voos internacionais nos níveis de 2020. A adesão será voluntária até 2026, e obrigatória no ano seguinte. As companhias aéreas dos países signatários deverão encontrar formas de limitar as emissões ou compensá-las, pela compra de créditos de carbono.
Com agências internacionais
O Globo, 04/09/2016, Sociedade, p. 47
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