VOLTAR

EUA caminham para trás ao sair do Acordo de Paris

O Globo, Opinião, p. 16
03 de Jun de 2017

EUA caminham para trás ao sair do Acordo de Paris
Decisão se baseia em informações falaciosas, como a de que a economia americana será afetada pelo pacto para conter o aquecimento global

Oanúncio da saída dos EUA do acordo do clima de Paris, feito por Donald Trump na quinta-feira, após um desnecessário suspense, não foi exatamente uma surpresa, dada a conhecida miopia do presidente americano em relação ao meio ambiente, e que se evidencia sobretudo em sua descrença no fenômeno do aquecimento global por força da ação humana. Mesmo assim, suas palavras tiveram o efeito de assombrar o mundo, devido às implicações ambientais e econômicas da decisão, sobretudo para as gerações futuras.
O argumento do presidente americano foi arquitetado pelo titular da Agência de Proteção Ambiental (EPA, em inglês), Scott Pruitt - o controverso assessor ambiental, que mantém estreitos laços com setores econômicos emissores de grandes volumes de gases do efeito estufa - e se baseia numa falácia: o Acordo de Paris impõe um alto preço à economia americana. Numa solene retórica nacionalista, Trump disse que sua decisão salvará empregos no país e que ele "foi eleito para representar os trabalhadores de Pittsburgh, não de Paris".
Falando como se estivesse num palanque, ele omitiu que o histórico pacto fechado em dezembro de 2015 por 195 países - e que teve em seu antecessor, Barack Obama, um dos principais defensores - não é compulsório e tampouco impõe metas de cortes aos países signatários; apenas estabelece o propósito coletivo de conter o aumento da temperatura a 2 graus Celsius até 2100. Pelo acerto em Paris, cada nação determinará o tamanho do corte das emissões de acordo com suas condições. Os EUA, maiores emissores do mundo, comprometeram-se a reduzir entre 26% e 28% dos gases do efeito estufa até 2025 em relação aos níveis de 2005.
A evidência do argumento falacioso se reforça nas críticas de cientistas e representantes corporativos americanos de variados segmentos, e na desobediência de importantes estados, como Califórnia, Nova York, Oregon e Washington, que decidiram manter as metas de corte. Críticos alertam que a decisão de Trump vai isolar ainda mais os EUA, piorar uma já deteriorada relação com aliados europeus e levará o país a renunciar à liderança global no setor de energia limpa - papel que será assumido pela China. Além disso, a medida poderá incentivar nações reticentes, como a Índia, a reverem o compromisso com o Acordo de Paris.
A decisão de abandonar o Acordo de Paris dividiu até mesmo a Casa Branca, contrariando assessores próximos ao presidente, como sua filha, Ivanka Trump; o genro Jared Kushner; e o secretário de Estado, Rex Tillerson, ex-diretor executivo da Exxon, empresa que deu uma guinada para a energia limpa. Mostrou ainda que o presidente continua a ser perigosamente influenciado pelos defensores radicais da doutrina "EUA em primeiro lugar", como Pruitt e o conselheiro Steve Bannon. Doutrina esta que poderia se chamar: "EUA isolados".

O Globo, 03/06/2017, Opinião, p. 16

https://oglobo.globo.com/opiniao/eua-caminham-para-tras-ao-sair-do-acor…

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.