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EUA atrapalham todas as discussões sobre clima em Bali

OESP, Vida, p. A31
14 de Dez de 2007

EUA atrapalham todas as discussões sobre clima em Bali
União Européia anunciou que boicotará reunião proposta por Bush se conferência fracassar

Cristina Amorim, BALI

"Não estou preso a gentilezas diplomáticas, então vou contar uma verdade inconveniente: meu país, os Estados Unidos, é o principal responsável por obstruir os avanços aqui, em Bali." Com essa frase, que levantou palmas entusiasmadas de centenas de pessoas na 13ª Conferência do Clima (COP-13), o ex-vice-presidente americano e vencedor do Nobel da Paz, Al Gore, resumiu ontem o sentimento de indignação dos participantes da reunião.

Gore participou de um concorrido evento paralelo, ao mesmo tempo que reuniões tensas entre ministros aconteciam no mesmo prédio. A delegação americana colocou uma série de barreiras em praticamente todos os grandes assuntos debatidos nos últimos dias da conferência da Organização das Nações Unidas (ONU) que decide o futuro climático do planeta.

Da atualização do Protocolo de Kyoto à redução de desmatamento de florestas tropicais - assunto distante das nações do Norte -, passando por transferência de tecnologia e fundo de adaptação para países pobres, obstruções eram apresentadas pelos Estados Unidos sempre que possível, mesmo quando acordos já haviam sido costurados pelos outros países das Nações Unidas.

Se a posição obstrutiva histórica americana não mudou, a urgência, sim. Todos os países - com exceção de um - concordam que um "mapa do caminho" precisa ser desenhado agora, para ser finalizado em 2009 e permitir o funcionamento de um novo regime contra o aquecimento global em 2013.

Porém, a situação chegou a um ponto de insustentabilidade tal que ameaça até o relativo sucesso que se desenhava para esta conferência. A presidência da COP-13, da Indonésia, precisou recrutar negociadores seniores (até mesmo já afastados da diplomacia) para tentar destravar a oposição americana.

Ministros virariam a noite para tentar obter algum avanço. À 1 hora (15 horas em Brasília), a delegação americana apresentou uma proposta de metas nacionais de corte de emissão, que ainda seria discutida pelos integrantes da Convenção do Clima da ONU. Ela recebeu apoio do Canadá e do Japão, que já sinalizaram na COP-13 intenções de abandonar o Protocolo de Kyoto.

PEDRA NO CAMINHO

Um dos pontos mais sensíveis para os americanos são as metas de corte de emissão defendidas pelos europeus e por cientistas: 25% a 40%, em relação a 1990, até 2020. A proposta chegou a ser incorporada nas versões preliminares do "mapa do caminho".

Gore - que antes de vencedor de Nobel é do Partido Democrata - sugeriu fortemente aos participantes que deixem esse tema momentaneamente de lado, pelo menos até a conferência do ano que vem. Afinal, diz ele, quem substituir Bush daqui a um ano terá uma posição mais ativa. "Em dois anos, os Estados Unidos estarão em um lugar em que não estão agora", afirmou.

Enquanto isso, a chefe da delegação americana, Paula Dobriansky, ignorava o apelo por ações rápidas para controlar as mudanças climáticas e dizia, ontem, que "quanto a objetivos em médio prazo, não é preciso resolver isso em Bali".

A delegação americana chegou à conferência discreta, apregoando "flexibilidade" nas negociações. Mas o objetivo real se tornou claro à medida que os textos finais eram construídos: nada de metas de corte de emissão, zero de contribuições financeiras imediatas e nenhum compromisso.

A União Européia (UE), tardiamente, respondeu à provocação e se posicionou só ontem. Falou para Dobriansky, para a imprensa internacional e para quem mais quisesse ouvir que recusará o convite do presidente George W. Bush de unir os 16 maiores emissores de gases-estufa do mundo em janeiro, no Havaí, para conversas multilaterais.

"Sem avanços em Bali, sem um mapa do caminho, a reunião (em janeiro) fica sem sentido", disse o comissário europeu para o ambiente, Stavros Dimas. "Não estamos chantageando ninguém, mas fomos bastante claros", disse o ministro do Meio Ambiente de Portugal (país que ocupa atualmente a presidência da UE), Humberto Rosa.

O Brasil, também convidado por Bush, está repensando se irá ou não, disse o embaixador de Mudanças do Clima, Sergio Serra.

Últimos 10 anos: os mais quentes
Jamil Chade
O período entre 1998 e 2007 já pode ser considerado como a década mais quente desde que os cientistas começaram a medir a temperatura do planeta, em 1850. Nesse mesmo período, o Ártico perdeu camada de gelo equivalente a todo o território da Alemanha. Os dados são da ONU que, ontem, divulgou o levantamento para demonstrar, mais uma vez, que o aquecimento do planeta já está ocorrendo.

Segundo os cientistas, 2007 ficará entre o quinto e o sétimo ano mais quente da história. Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), o ano mais quente já registrado foi 1998, seguido por 2005, 2001, 2003, 2004 e 2006. Janeiro deste ano foi o janeiro mais quente desde que os registros foram iniciados.

Um dos efeitos do aquecimento está sendo o número cada vez maior de eventos extremos, como as secas que atingiram os EUA em 2007. A África viveu suas piores inundações em três décadas e o nível dos oceanos subiu 20 centímetros desde 1870.

OESP, 14/12/2007, Vida, p. A31

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