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'Eu fui chamado Rio Doce e conto: virei defunto'

O Globo, Sociedade, p. 30
30 de Jun de 2015

'Eu fui chamado Rio Doce e conto: virei defunto'
Em livro lançado nesta quinta-feira, Carlos Nejar resgata memória do ecossistema morto pela lama do desastre de Mariana

PAULA FERREIRA
paula.ferreira@infoglobo.com.br

O Rio Doce é um herói e foi morto em uma guerra de poder. A reflexão é do poeta Carlos Nejar, integrante da Academia Brasileira de Letras, que decidiu dedicar seus versos às águas sem vida que cortam Minas Gerais e o Espírito Santo. No livro "A vida de um Rio Morto - Monumento ao Rio Doce", que será lançado hoje às 19h, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon, o escritor resgata a memória do ecossistema dizimado pela lama tóxica que escoou da barragem da Samarco na cidade de Mariana (MG), e critica o contexto político-social brasileiro, segundo ele, repleto de corrupção que faz com que todo o país esteja imerso no "barro". O autor revela que decidiu construir com palavras um "monumento" em memória do rio, para impedir que o desastre ambiental caia no esquecimento.
- Meu monumento não é de pedra, é de palavra. Eu não aceito a morte de um rio por causa da indústria, por causa da cobiça dos homens. Como não aceito que o Brasil esteja invadido de barro por causa da cobiça dos políticos. É um monumento-denúncia. Falam tanto de meio ambiente e estão esquecendo a maior tragédia ambiental do país - afirma Nejar, defendendo ainda que é necessário rever prioridades: - O futuro da Humanidade vai ser a água. A água vai valer mais que ouro, mais que petróleo. Nossa sobrevivência está na água, somos água. Se matamos os rios, matamos o homem.
Durante três meses, Nejar escreveu o poema épico que ocupa mais de 150 páginas e que, diz ele, surgiu de uma inquietação causada pelas 19 vidas perdidas na tragédia, o martírio da fauna local e a destruição do sustento da população do entorno do rio.
- O ambiente foi devastado pela Samarco. Até o mar ficou cheio de lama. O povo ficou sem água, os animais foram mortos, os pescadores sem motivo nenhum para viver e o turismo, destruído.
Morador de Vitória (ES), Nejar acompanhou de perto a degradação promovida pelo rompimento da barragem em Mariana, o que serviu de base para a escrita do livro. Nesse sentido, as vozes silenciadas das pessoas atingidas pelo desastre também o incentivaram a tratar do tema.
- Conheço a região do Espírito Santo e gosto dela. Foi uma terra que me acolheu, embora eu seja gaúcho. Precisamos estar conscientes do que está acontecendo nesse rio. Esse livro é uma maneira não só de protestar, mas de deixar respirar o pensamento coletivo. O poeta é uma antena coletiva. Há muitos que calaram, precisamos dar voz a tudo isso - argumenta.
'O PODER É ABUSIVO'
Os versos "Eu fui chamado Rio Doce/ E conto: virei defunto" abrem o poema que, mais adiante, "conversa" com a obra de outros escritores, como João Cabral de Melo Neto, e menciona outros rios, como o Capibaribe, em Pernambuco. Ao longo do texto, o autor também aproveita para fazer uma crítica ao contexto político e social do país. A seu ver, o Rio Doce é uma metáfora do Brasil: um lugar repleto de riquezas, invadido e morto pela sujeira originada dos interesses econômicos alheios e pela corrupção.
No trecho em que aborda o "governo da República", Nejar fala a respeito das deficiências dos serviços públicos, dando a dimensão da "lama" que atinge não só o Rio Doce, mas todo território nacional:
"Pois a cultura é canhota/ E, nem assim mesmo, escreve." diz o texto, criticando ainda outras áreas:
"A educação perneta,/ A saúde anda de costas,/ Pois o imposto não volta,/ E mais é exigido. Crosta"
- O poder é abusivo, não tem olhos, não tem percepção. O poder não tem sensibilidade, quer sempre mais. O povo está sendo esmagado, mas nós vamos continuar falando disso - protesta o poeta que, no livro, ainda denuncia a mineradora Samarco: "Matas o que te sustenta,/ Matas o que te enriquece."
Apesar do cenário triste que perpassa a obra, Nejar traz em si um alento:
- Tenho esperança que o rio volte a viver. O homem pode refazer o que estragou.

O Globo, 30/06/2016, Sociedade, p. 30

http://oglobo.globo.com/sociedade/sustentabilidade/poeta-carlos-nejar-r…

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