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A ética no consumo

O Globo, Revista O Globo, p. 20-25
26 de mar de 2006

A ética no consumo
Quem são os brasileiros que transformam em militância política pela ética a tendência de consumir produtos que protejam a natureza

Por Marcia Cezimbra

O TERAPEUTA E MESTRE DE capoeira Jorge Itapuã Beiramar, de 28 anos, é um militante da cidadania 24 horas por dia. Logo de manhã, em vez de tomar um leite ou comer um biscoito com requeijão, toma um suco verde, feito à base de folhas e brotos. Isto porque, além de valorizar o alimento saudável, Jorge se recusa a consumir qualquer produto da marca Nestlé, que, no ano passado, ganhou o "prêmio" de Irresponsabilidade Corporativa no fórum alternativo Olho Público, em Davos. Depois desta "superalimentação", Jorge dá aulas de capoeira até o meio-dia, quando almoça, por exemplo, um tabule de trigo germinado, que ele mesmo botou para germinar dois dias antes. Isto porque ele não come carne, para protestar contra a devastação da natureza provocada pela agropecuária extensiva.
Jorge é exemplo do novo militante político que se multiplica no Brasil e no mundo. É gente que não freqüenta a rede de pizzarias Capricciosa e, nem que pudesse, compraria roupas na Daslu, em protesto contra o envolvimento de seus donos respectivamente em escândalos de tráfico de drogas e sonegação. São consumidores que não usam cosméticos que sacrificam animais em testes. E preferem carros que poluem menos, eletrodomésticos que não emitem gases ameaçadores para a camada de ozônio. Seus móveis são de madeira com origem bem conhecida e não resultam de desmatamentos clandestinos.
Para estes militantes, consumir qualquer produto é um ato político. Eles estão obrigando as empresas a pensarem em responsabilidade social na hora de traçar estratégias de crescimento. Para o vice-presidente do Sustain Ability, Geoff Lye, que esteve no Brasil para discutir o consumo engajado, o boicote à Nike, por exemplo, acusada de explorar o trabalho infantil na Ásia, foi uma prova de que a sociedade globalizada exige responsabilidade e quer comércio mais justo. Tampouco a Nestlé ganhou este prêmio de irresponsabilidade em vão. Criada em 1867, a multinacional é acusada há décadas de fazer um marketing considerado perigoso para a saúde das crianças pela Organização Mundial de Saúde, já que incentiva o uso do leite em pó, interferindo nas campanhas de aleitamento materno. No Brasil, a empresa é investigada pelo impacto de sua fábrica de água Pure Life nas reservas hidrominerais de São Lourenço. As denúncias levaram muitos a evitar a marca.
Brasileiro: consciente, mas sem dinheiro
O movimento pela ética no consumo é internacional. Na Grã-Bretanha, pesquisa do Instituto Mori mostra que 52% dos britânicos já boicotaram alguma marca ou grande corporação. No Brasil, segundo dados do Instituto Akatu, estima-se entre 16% ou 17% da população o número de consumidores conscientes. O impressionante no caso brasileiro, porém, é que temos cerca de 6% da população com o mais alto nível de consciência; desse número, 52% são pessoas das classes C e D, e 37% delas têm só a educação fundamental. É gente que começa a ter a exigência de ética no consumo porque aprendeu que economizar água e energia é garantia de qualidade de vida. Mas, como diz Napoleão Miranda, professor da UFF que participou de quatro grandes pesquisas sobre consumo sustentável, publicadas pelo Instituto Superior de Estudos da Religião (Iser), os brasileiros são conscientes na hora de consumir, mas a falta de dinheiro impede que boas intenções cheguem à prática:
- A pesquisa do Iser mostrou que muitos querem comer sem agrotóxicos. Mas a maioria gasta 40% da renda com alimentação e não pode triplicar seus gastos com arroz e vegetais orgânicos, muito mais caros.

O BIÓLOGO RICARDO NEHRER, de 47 anos, é um pioneiro do consumo engajado. Foi vanguarda, há décadas, na luta contra os sabões que não eram biodegradáveis e contra as cervejarias que não tratavam seus resíduos. Hoje, pode-se dizer que Ricardo fez a sua parte. A maioria dos detergentes têm o selo "biodegradável" e as cervejarias da Ambev tratam água e resíduos:
- Naquela época, eu ainda morava com os meus pais e os convenci a boicotar todos aqueles sabões. Hoje lutamos contra embalagens que levam milênios para se dissolver na natureza.Ricardo é vegetariano por ser contra a devastação de florestas causada pela agropecuária, fora a matança de animais.
- Essa culpa não levo para o travesseiro - diz ele, que boicota o trânsito caótico do Rio pedalando de casa, em Ipanema, até a agência de propaganda ambiental onde trabalha, em Botafogo. - As pessoas levam uma hora para atravessar Botafogo. Eu levo sete minutos. E ganho resistência para pular 60 horas nos carnavais da Bahia.
Para quem deseja se transformar num consumidor engajado, Ricardo ensina que o primeiro passo é investigar na embalagem a procedência do produto. Depois, verificar através dos serviços de atendimento ao consumidor como é o processo de produção. A leitura cuidadosa do rótulo pode ajudar. Os produtos orgânicos, por exemplo, têm o selo da Abio. O mesmo acontece com a madeira de origem garantida (tem o selo do Ibama) e com as que usam material reciclado. Além disso, muitas empresas expõem no rótulo suas ações de responsabilidade social.
A designer gráfica e de produtos Marcia Brandão, de 47 anos, é mais radical que Ricardo. Autora dos projetos do Museu da Ciência e do Planetário da Gávea e da atual revitalização das salas de dinossauros do Museu Nacional, Marcia gosta de viver no mato, em Niterói. É vegetariana desde os 21 anos, por questões ambientalistas:
- Adoro saber que nenhum animal vai morrer por minha causa e que não vou contribuir para o desmatamento de florestas. Também não como soja porque muitas plantações devastam as florestas. Há soja transgênica no mercado e a carne de soja, para mim, é veneno, rebotalho da indústria de óleo de soja.
Radicalismos à parte, Marcia diz conviver muito bem com os amigos carnívoros:
- Alimentação é questão de foro íntimo. Sento numa boa em mesas de carnes e não fico dando idéia vegetariana. Até porque não é pela alimentação que a gente muda o mundo. Basta dizer que Hitler era vegetariano e veja o que ele fez...
A exigência de responsabilidade social é a nova tendência do consumidor engajado, apontada pelo vice-presidente do Sustain Ability, Geoff Lye, que participou ano passado no Brasil do Congresso Ibero-Americano para o Desenvolvimento Sustentável. Para Lye, atitudes como a dos laboratórios que tentaram impedir a fabricação de medicamentos genéricos contra a Aids em países do Terceiro Mundo vão enfrentar a nova ética dos consumidores, para os quais as empresas não devem se preocupar só com seus interesses comerciais imediatos.
Responsabilidade de empresas brasileiras
Esta nova militância é bem diferente daquela dos anos 60, que usava boicotes de marcas para atingir objetivos políticos. Agora, o que se quer é agir diretamente sobre a empresa, obrigando-a a oferecer aos seus consumidores produtos que respeitem o meio ambiente e promovam o bem-estar das comunidades. Esta nova ética do consumo fez 50 empresas brasileiras criarem o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS). Segundo o presidente da entidade, Fernando Almeida, as empresas associadas trabalham com o conceito de ecoeficiência, que é de produzir mais e melhor com menos.
Ele cita como exemplos dessas empresas a Dupont, que faz seus tecidos a partir do milho, sem impacto ambiental; a japonesa Toyota, que luta contra o aquecimento global fabricando carros movidos a eletricidade e a gasolina; a empresa 3M de adesivos, que luta para tratar resíduos e fazer reciclagens; a Cia Siderúrgica de Tubarão, que trata a sua água; a fábrica de cimento Holcim, que usa seus fornos para queimar resíduos tóxicos de outras indústrias, como pneus velhos; a Natura, que usa matéria prima da Amazônia integrando suas populações sem devastar a natureza.
Já a empresária Maysa Afonso, da empresa Encarto Personale, adotou os papéis reciclados, politicamente corretos, mais baratos, bonitos, artesanais, quase personalizados:- Amo papéis e os reciclados são melhores que muitos importados. Você escolhe cores, texturas e até perfumes. São lindos, obras de arte!

O DESIGNER PEU VAZ DE MELLO, de 24 anos, faz questão de trabalhar com empresas politicamente corretas, entre elas a Amazon Life, que produz couro ecológico, ajuda populações da Amazônia e preserva o meio ambiente.
- É ótimo trabalhar para empresas do bem - diz Peu, que já deixou de beber "durante um tempo" coca-cola, por ser um símbolo do imperialismo americano durante a guerra do Iraque.
A empresária Alda Maio, de 56 anos, da Etra, também aderiu ao engajamento. Ela aboliu todo o consumo de produtos de couro animal depois que viu na TV como retiravam a pele dos bichos. Ficou horrorizada. Já a empresária Carla Guglielmetti, da Sollas, baniu cosméticos testados em animais. Agora só usa produtos naturais da AyurVida, vendidos na loja Bemzen. A antiga marca Granado também é pioneira em sabonetes de óleos vegetais, agora com o selo 100% vegetal. O veterinário Carlos Alberto Müller, coordenador do Centro de Experimentação Animal da Fiocruz, diz que ele, apesar de trabalhar com experiências em animais, faria o mesmo que Alda e Carla:
- Na produção de vacinas, por exemplo, quando não há métodos alternativos, é inevitável fazer teste com animais. Neste caso, há comissões de ética para impedir o sofrimento do animal. Mas testes para cosméticos são desnecessários. Os seres humanos têm que entender que o animal é um ser vivo. Tem coluna vertebral, sente dor, tristeza e alegria - diz o pesquisador.
A escritora Sonia Hirsch, veterana em publicações sobre alimentação saudável, é uma consumidora engajada, mas sua prioridade é a saúde. Ela prefere vegetais orgânicos, grãos integrais e deplora o consumo de soja, comprovando todos os seus perigos no seu site www.correcotia.com.
- A soja é um perigo. E transgênica, então, nem se fala. Há trabalhos que até associam o boom de problemas na tireóide ao consumo de soja.
A luta por produtos certificados
O número de empresas que buscam a certificação também aumenta, principalmente a área de florestas certificadas. Segundo dados do Forest Stewardship Council International Center (FSC-IC), no Brasil, o número de florestas certificadas passou de 35 para 64, e a área dessas florestas certificadas cresceu 70,25% em dois anos. Essa campanha pela certificação terá novo impulso com a II Feira Brasil Certificado, de 18 a 20 de abril, em São Paulo.
Muitas empresas aderiram à luta do FSC Brasil e o Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) e certificaram seus produtos, entre elas a Faber Castell, o Banco Real, a Leo Madeiras e a Natura - esta recebeu na semana passada o Prêmio Faz Diferença, do GLOBO, por seus programas de responsabilidade social e ambiental. O consumo engajado chegou também à decoração. No Casashopping, crescem as lojas que vendem produtos "do bem", como revestimentos de bambu (Orlean); móveis com madeira de reflorestamento na Fernando Jaeger; jogo americano de gravetos e galhos que caem das árvores (Illiá).
A questão dos transgênicos é outra luta. A obrigatoriedade de rótulos em produtos transgênicos está sendo discutida neste fim de semana em Curitiba, na 8 ª Conferência das Partes da Convenção de Diversidade Biológica (COP8). O Iser fez uma pesquisa com cem formadores de opinião sobre transgênicos e o Instituto Vox Populi ouvirá dois mil brasileiros sobre o tema. A proposta é que em breve os alimentos transgênicos tenham selos de identificação. O selo será uma vitória dos consumidores engajados.

O Globo, 26/03/2006, Revista O Globo, p. 20-25

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