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Ethos quer um novo mercado

O Globo, Razão Social, p. 6-8
07 de Jul de 2009

Ethos quer um novo mercado
Na Conferência da entidade, mensagem foi de mudança de atitude para facilitar reconhecimento de empresas sustentáveis

Razão Social Debate
Amelia Gonzalez e Cristiane de Cássia
amelia@oglobo.com.breccassia@oglobo.com.br

Mirian Vilela, representando a Carta da Terra, esteve na abertura da 11ª Conferência mundial do Instituto Ethos, no meio do mês passado. Não foi à toa. Em sua declaração, o vicepresidente do Instituto, Paulo Itacarambi, mostrou que o foco da organização mudou: se durante dez anos estiveram concentrados em mobilizar e sensibilizar as corporações para adotarem uma gestão ética e responsável, a partir de agora o trabalho será tentar criar um novo mercado socialmente responsável.
Para isso, nada melhor do que ter em mãos o texto que foi construído por mais de seis anos, resultado de uma consulta internacional entre os países, e que se transformou numa declaração de princípios éticos fundamentais para a construção, no século XXI, de uma sociedade global justa, sustentável e pacífica.
Isto é a Carta da Terra, lançada em 2000 na Holanda e utilizada como ferramenta, hoje, por mais de cem países.
O eixo central é o respeito à comunidade da vida, com uma visão compartilhada e, sobretudo, ética.
Assim, o Ethos está virando uma página.
Deixa para trás o formato pedagógico, a persuasão quase sem cobrança, e passa a ter uma atuação mais incisiva. A crise econômica mundial e o debate sobre crescimento econômico correndo solto sem nenhuma conexão com o desenvolvimento sustentável, fizeram os membros da diretoria do Ethos pararem para repensar o modelo. Corporações demitindo à larga, sem preocupação nenhuma com o lado social do tripé sustentável; outras usando e abusando do desmatamento para garantir mais e mais lucro sem se preocupar com o lado ambiental do tripé sustentável. Outras ainda, que se aproveitam menos dos valores morais do que dos valores monetários que a imagem de sustentabilidade lhes confere, esquecendo-se assim de prestar atenção ao lado econômico do tripé sustentável.

Uma pesquisa nacional para medir a responsabilidade social das corporações, realizada no ano passado, como de costume, pelo Instituto Ethos, Instituto Akatu e Ibope, mostrou que, das 56 práticas consideradas básicas pelo Ethos, 20% das empresas implantaram uma média de 35. Cinquenta por cento das empresas implantaram uma média de 22, e 70% implantaram apenas 13.

As práticas mais implantadas são relativas à proteção das relações de consumo e aos direitos nas relações de trabalho. As práticas de menor adesão se referem a regras para financiamento de campanha política e controle de emissão de gases de efeito estufa.

Não se espera mais só a ação voluntária das empresas. O Ethos avalia que o mercado ainda não desenvolveu mecanismos de premiação ou penalização dos produtos e comportamento das corporações. Agora, é hora de arranjar também meios contundentes para que não só a sociedade como o mercado consigam identificar aquelas que trilham o caminho sustentável, daquelas que persistem na extração selvagem sob todos os aspectos.

Foi este o tom da Conferência, que reuniu mais de mil pessoas durante três dias num hotel em São Paulo em volta do tema sustentabilidade. Bernardo Toro, sociólogo e educador colombiano, presença garantida em todas as reuniões anuais do Ethos, este ano trouxe uma mensagem mais incisiva do que de costume. Alguns fatores estão pondo em risco a nossa sobrevivência na Terra, lembrou Toro, e ou aprendemos a cuidar dos bens públicos, ou morreremos. Simples assim.

196 milhões de pessoas vivem hoje num país que não é o seu de nascimento, e o aquecimento global só vai fazer aumentar esse movimento migratório. Se não aprendemos a ter cultura de hospitalidade, a vida de todos nós vai ser muito ruim.

O aumento da riqueza, para Toro, tem aumentado a desigualdade, por isso são necessárias as transações ganhaganha, em que se aumenta a riqueza e se diminui a desigualdade.

A educação só vai melhorar quando o filho do empresário passar a estudar na mesma escola pública que o filho do seu empregado.

Alguém tem dúvida? O tema da conferência, "Rumo a uma Nova Economia Global a transformação das pessoas, das empresas e da sociedade", foi lembrado em cada uma das muitas oficinas e plenárias.

Mas este pode ser o último encontro de proporções tão grandes realizado pelo Instituto. A partir do ano que vem, segundo o presidente Ricardo Young, é possível que a articulação seja feita a nível regional: Talvez a Conferência seja reduzida, mais adensada, com especialistas e formadores de opinião, reunindo no máximo 200 a 300 pessoas para pensar e produzir conhecimento sobre o tema da sustentabilidade. E cinco ou seis conferências regionais seriam realizadas pelo Brasil inteiro.

O primeiro debate da Conferência foi entre profissionais de imprensa e empresários.

A discussão foi intensa, transparente na medida do possível.

Daniela De Fiori, representante do WalMart, empresa que tinha acabado de cortar relações com frigoríficos que constam do relatório "A farra do boi", do Greenpeace, foi clara nas respostas.

Augusto Rodrigues, diretor de comunicação empresarial da CPFL, falou sobre a importância da relação com a mídia: Gostamos quando os problemas são levantados pela imprensa e as empresas mudam. Mas às vezes os jornais focam muito as ações isoladas e não questões mais complexas.

Em outra mesa, o debate sobre corrupção das empresas esquentou os ânimos. Chico Whitaker, um dos criadores do Fórum Social Mundial, lembrou que a cultura da corrupção está arraigada no ser humano. No sistema competitivo em que vivemos, sobra corrupção para atingir metas e objetivos, acredita ele. Já o ministro Jorge Hage Sobrinho, da Controladoria Geral da União, disse que o governo está fazendo o possível para acabar com este problema: Até hoje foram demitidos, por corrupção, dois mil funcionários públicos durante esta administração. Foram demitidos, por exemplo, três diretores e vários assessores dos Correios na época das denúncias - disse ele.

No fim da Conferência, um ato público exigia do Governo que não liberasse terras da Amazônia para que fossem vendidas. E algumas propostas foram levantadas para se criar uma agenda de compromissos.

Aconteceu na conferência
RSE na Mídia: Enquanto jornalistas cobravam transparência das empresas, os empresários exigiam cobertura jornalística aprofundada sobre a responsabilidade social empresarial (RSE). Assim foi o debate que antecedeu a abertura da Conferência. O diretor de assuntos institucionais da Alcoa, Nemércio Nogueira, admitiu, por exemplo, que as empresas ainda estão aprendendo a lidar com a imprensa e aceitar críticas no movimento de sustentabilidade.
Os jornalistas aproveitaram para questionar a vice-presidente de Sustentabilidade do Wal-Mart, Daniela De Fiori, sobre o fato de a empresa só ter suspendido contratos com fornecedores de carne acusados de desmatamento após denúncia do Greenpeace.
Ela admitiu que os esforços para combater o problema foram insuficientes: - Podemos influenciar nossa cadeia produtiva, mas é preciso esforço da sociedade civil e do governo em certos aspectos - alegou Daniela.
Contra o desmatamento: Como o desmatamento vem mexendo com as grandes empresas através de suas cadeias produtivas, o problema foi bastante discutido durante a Conferência, que terminou com um ato público contra a Medida Provisória 458, a MP da Grilagem.
O presidente do Conselho de Administração da Sadia-Perdigão, Luiz Fernando Furlan, destacou que a penalização do sistema produtivo depende mais do consumidor brasileiro do que dos outros. Afinal, segundo ele, 64% da madeira e 95% da carne que vêm da Amazônia ficam no mercado nacional.
Mudanças climáticas: O desmatamento leva o Brasil à quinta posição entre os países que mais emitem gases do efeito estufa. Para envolver empresas brasileiras no esforço de reduzir emissões, foi lançado durante o encontro a "Caring for Climate" no Brasil. Das 355 empresas que participam dessa iniciativa do Pacto Global da ONU, apenas oito são brasileiras.
- As consequências das mudanças climáticas são claras e as empresas podem se preparar agora para as exigências que virão de governos e mercados ou esperar para ver. Esse movimento, hoje liderado pelo meio ambiente, deve ser integrado. A empresa não pode ter água limpa e a comunidade em volta não ter saneamento básico.
O Brasil tem tudo para liderar esse movimento de sustentabilidade integrada - acredita o diretor da "Caring for Climate", Soren Peterson.
Geração de energia: A relação entre mudanças climáticas e geração de energia foi bem debatida.
O uso de energias renováveis é visto como ponto positivo para o Brasil. Segundo o presidente da Empresa de Pesquisa Energética, Maurício Tolmasquim, 46% da matriz energética brasileira é renovável, enquanto a média mundial é 13%. Mas o diretor executivo do Greenpeace Brasil, Marcelo Furtado, alertou para o crescimento do uso do carvão como fonte de energia e destacou que chegará a vez de o Brasil ser cobrado por suas emissões. O diretor da Coppe/UFRJ, Luiz Pinguelli Rosa, se preocupa com as condições de trabalho nos canaviais, que mancham a imagem do etanol brasileiro.
- Não é possível uma solução ecologicamente boa que não seja socialmente boa - criticou Pinguelli.
Trabalho decente: Apesar dos problemas, as empresas brasileiras têm apoiado planos de erradicação do trabalho infantil e escravo.
Ainda é muito difícil, no entanto, tratar de problemas do dia-a-dia, como jornadas mais flexíveis e licençapaternidade.
É o que diz Janine Berg, especialista da Organização Internacional do Trabalho (OIT) no Brasil.
A instituição tenta construir um Plano Nacional do Trabalho Decente, definindo metas de emprego e de redução de trabalho informal, por exemplo.
Grupos brasileiros já assinaram acordo na Conferência Internacional do Trabalho para iniciar o plano.
Combate à corrupção: Foi lançado durante a Conferência o manual "A Responsabilidade Social das Empresas no Combate à Corrupção", que reúne boas práticas de empresas brasileiras com relação a temas como suborno, facilitação, caixa dois e sonegação. O documento resulta de trabalho conjunto entre a ControladoriaGeral da União (CGU), o Instituto Ethos e o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime.
Uma carta também foi assinada por 560 empresas num pacto contra a corrupção, onde elas se comprometem, por exemplo, a vedar qualquer forma de suborno. Só não há ainda formas de monitorar as empresas que por acaso descumprirem o pacto. O manual está disponível nos sites cgu.gov.br, ethos.org.br e empresalimpa.org.br.
Números: A Conferência teve 798 inscritos; 67 palestrantes, dos quais 23 eram mulheres. Durante o evento, o Instituto Ethos lançou seu primeiro relatório de sustentabilidade, com base nos indicadores do Global Reporting Initiative (GRI). Para ter acesso, basta ir ao site www.ethos.org.br.
Empregos verdes: Palestrante na plenária sobre Biomassa da Conexão São Paulo Amazônia, a representante do Ministério do Meio Ambiente, Samira Crespo, alertou para o fato de que o setor da economia verde em direção ao carbono zero está em pleno crescimento e pode ser uma excelente oportunidade de emprego.
A OIT e o Pnuma lançarão em novembro o relatório sobre o greenhouse no mundo, e a partir daí a demanda neste setor vai crescer.
Sobre corrupção: No debate sobre a corrupção, o membro da Comissão Brasileira de Justiça e Paz, Chico Whitaker, foi polêmico, a afirmar que a corrupção, na verdade, é um problema cultural: - Se a empresa não tirar vantagem sempre, ela acaba sendo encarada pelo imaginário como uma empresa boba. As empresas não perdem, ganham, e isso torna difícil combater a corrupção. Nosso problema é muito de crise civilizatória, e aí a maior questão é: como enfrentar isso se as empresas ganham e se a sociedade, no fundo, acha que só bobo não é corrupto? Qual é o ataque? Através dos valores que regem a vida da sociedade, só assim. Isso é mudança cultural, demanda muito tempo, não será de uma hora para outra disse ele.

O Globo, 07/07/2009, Razão Social, p. 6-8

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