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Etanol explosivo

CB, Opinião, p. 13
Autor: PIMENTEL, Marcelo
26 de Mar de 2007

Etanol explosivo

Marcelo Pimentel
Advogado em Brasília, foi ministro do Trabalho e presidente do TST mpimenteladv@globo.com

Deve haver muita gente satisfeita porque, dentro da mesmice política, afinal não se chegou a uma crise, aquela que todo mundo sabia que não aconteceria: Lula organizou a lista de ministros. Mudou alguma coisa? Nada. Há perspectivas de mudanças? Nada. Salvo a exceção da regra. Só se escolheu um por mérito técnico. Depois do chega-pra-lá para escolha do presidente da Câmara, da eleição no PMDB, do affaire Jobim, do dá cá aquela palha que eu lhe dou um doce, a chatice política concluiu seu ciclo, isto é, Lula contentou os pedintes e presenteou os eleitos.

A politiquice nacional é isso mesmo. Grandes problemas aí estão e continuam. Lula disse outro dia que não partidarizaria a educação e a saúde, dando as razões: uma é a morte; a outra, o analfabetismo. Mas não se deu conta de que o analfabetismo é a véspera da criminalidade. Agiu corretamente mantendo o jovem ministro da Educação e colocando um sanitarista para dirigir e consertar uma das vergonhas nacionais: a saúde. Mas, na área da educação, os privilegiados com as cotas mostraram-se insuficientes para preencher as vagas que lhes foram destinadas. Sobraram mais de 2 mil. Algo está errado no planejamento. Não adianta oferecer a escola se não se oferece o pão, o transporte, etc.

O resto é o resto. Nada modifica o panorama, porque não se vê iniciativa arrojada. O país carece de um plano de metas tipo JK, sem o que a juventude que vai caminhando para o tráfico embarcará no banditismo sangrento, como ocorre no Rio. Os dados mostram números escandalosos da presença deles na criminalidade em razão da falta de emprego. O milagre do crescimento não ocorre e não se vê perspectivas de que venha a ocorrer com a política restritiva de crédito e juros.

Há necessidade de superaquecimento econômico para que o país saia da estagnação atual, sendo vexatório que não alcancemos um índice mais expressivo no PIB anual. O país está carecendo de arrojo, como disse um dos professores de Harvard. Daí a inconveniência de liquidar dívidas, por exemplo, com o FMI, por importarem em créditos baratos e de longo prazo. Deveríamos realmente voltar a buscá-los, no limite máximo, para desenvolver projetos mais geradores de empregos, sem o que a promessa de 10 milhões deles terá sido mero expediente eleitoral. O FMI não nos faz nenhum favor emprestando-nos, porque dele somos sócios, e não há incômodo na fiscalização, desde que o uso do dinheiro se efetive dentro das regras pertinentes.

Não sairemos do chão - do nível do Haiti - se não colocarmos à disposição dos empreendedores recursos suficientes à criação de empresas sadias, modernas e viáveis, e não permitir a morte da produção de calçados, têxteis, etc., indústrias das quais nos orgulhávamos no passado recente. O tempo que se perde na busca do desenvolvimento é tempo que não retorna para um país cuja população carente cresce em ritmo acelerado.

O Congresso se reúne dia e noite e não produz de maneira eficaz. A oposição é de absoluta indigência mental. Nada oferece, a não ser a mesquinha campanha de não sugerir coisa útil, não só no que se refere ao reaparelhamento econômico, mas, também, no tocante à melhoria da atividade legislativa. Não empreende a modificação do Código Penal - algo absolutamente indispensável -,da política partidária, tributária, etc. Fica o Executivo a legislar mediante medidas provisórias, de regra inconstitucionais, e que nada resolvem, porque não oferecem o arrojo necessário, eis que maculadas pelo vício da injuridicidade.

De progresso, apenas ouve-se falar, de vez em quando, que a Petrobras encontrou alguma nova província petrolífera. Mas curioso é que continuamos insistindo na auto-suficiência, mas, realmente, patinhando em produção no limiar do consumo interno. O país não pode continuar vivendo de promessas, porque o concreto é inexistente. Assim, corrompem-se as esperanças de melhoria, tanto no que se refere à criação de empregos, quanto no desate de desenvolvimento mais consentâneo com as necessidades de um país imenso, em termos de terras e de potencial econômico.

Essa história do etanol é um blefe. Não podemos nos transformar em árida região de canaviais. A cana-de-açúcar está substituindo a produção de alimento, como em Mato Grosso. Ali, pecuaristas estão abandonando a criação bovina em favor da produção do álcool. Já se comprovam danos ambientais na ânsia de produzir mais. Árvores estão sendo abatidas nas florestas para dar espaço ao plantio de cana. A devastação avança por hectares de áreas preservadas ou antes ocupadas pela produção de grãos.

O simples anúncio sobre aumento da produção de álcool está carreando para São Paulo levas de imigrantes nordestinos. Daqui a pouco estaremos com novos problemas sociais nas cidades do interior. E a produção, obtida com o sacrifício de trabalhadores ou risco ambiental, eliminará o álcool brasileiro do consumo internacional. Atender aos interesses dos Estados Unidos em detrimento de produção agrícola mais rendosa, como trigo, soja, etc., é burrice inominável. O etanol acabará explodindo o futuro do país.

CB, 26/03/2007, Opinião, p. 13

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