VOLTAR

Etanol brasileiro é um exemplo para o mundo

CB, Mundo, p. 20
Autor: STEINER, Achim
06 de Mar de 2007

Etanol brasileiro é um exemplo para o mundo

Entrevista - Achim Steiner

Rodrigo Craveiro
Da equipe do Correio

O brasileiro naturalizado alemão Achim Steiner, diretor executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), cumpriu ontem uma movimentada agenda em Brasília. Pela manhã, reuniu-se com a ministra Marina Silva e almoçou com o chanceler Celso Amorim. À tarde, em audiência no Planalto, Steiner obteve do presidente Luiz Inácio Lula da Silva o compromisso do Brasil de ampliar os esforços para integrar desenvolvimento econômico e sustentabilidade ambiental. O chefe do Pnuma apoiou uma cúpula sobre governança ambiental no Brasil - a reunião entre ministros do Meio Ambiente e chanceleres deve ocorrer no meio do ano. Em entrevista exclusiva ao Correio, o representante da ONU disse que a produção de etanol torna o Brasil líder no setor. O combustível compõe 17% da matriz energética do país e evita a emissão de 90t de carbono na atmosfera. Para expandir a produção de 14 bilhões de litros para 30 bilhões de litros, o Brasil tem de estender o cultivo da cana por mais 3 milhões dos 51 milhões de hectares da chamada "área de repouso" - regiões protegidas e antes desmatadas.

O que o senhor pensa sobre essa onda de investimentos em biocombustíveis?

Considero uma evolução interessante, pois a tecnologia de 20 anos atrás era considerada insustentável. Estamos nos tornando economicamente competitivos. Isso está acontecendo no Brasil, com a redução de hidrocarbonetos. As muitas iniciativas internacionais, não apenas no campo das mudanças climáticas, e o crescimento muito rápido do mercado de biocombustíveis são potencialmente boas notícias. Isso se nos certificarmos de que o desenvolvimento pode ocorrer com sustentabilidade.

O Brasil produz etanol em grande quantidade. Essa é a melhor solução para mitigar os efeitos do aquecimento global?

Nunca haverá apenas uma solução. Acredito que a questão econômica do etanol torna o Brasil na posição de fornecer menos emissões de poluentes por parte de combustíveis. A questão é definir como a tecnologia de produção de etanol envolverá a introdução da segunda geração de biocombustíveis - que usarão enzimas e serão mais eficientes - no Brasil. O país tem o interessante desafio de manter a liderança na produção de etanol. Vocês podem ter uma grande produção de etanol e ajudar o mundo a entender como gerenciar a sustentabilidade e, ao mesmo tempo, permanecerem no topo do desenvolvimento em relação à produção de etanol.

Então, o Brasil pode ser uma fonte de inspiração para outros países?

O Brasil já é uma fonte de inspiração. O fato de o Brasil ter 70% da população dependente de energia renovável e 10% de etanol e biocombustíveis capacitou-o a dar um exemplo sobre como administrar as necessidades energéticas de um modo mais limpo do que muitos países poderiam fazê-lo.

O senhor é favorável à redução das taxas sobre o etanol fabricado a partir da cana-de-açúcar, para que países desenvolvidos usem mais esse produto?

Temos de assegurar que a produção e o consumo de etanol ocorram com base em critérios de sustentabilidade, o que ajudará esses países. Em relação à importação de etanol, os presidentes Bush e Lula discutirão como planejar o comércio de produção desse biocombustível, de forma que ele seja mais equivalente - por exemplo - ao mercado do petróleo. E essa é uma iniciativa que tem de ser considerada.

Os Estados Unidos são os maiores poluidores do planeta. Qual é o simbolismo do interesse de Bush em discutir sobre o etanol com Lula?

O presidente Bush certamente explicará as razões para que os Estados Unidos considerem essa estratégia tão importante. Sob o ponto de vista das Nações Unidas, o fato de países trabalharem juntos na tecnologia e no mercado de etanol é algo bem-vindo. Isso torna a tecnologia de etanol mais acessível.

Como conciliar progresso econômico e desenvolvimento sustentável?

A maneira mais fácil é integrar os custos ambientais e os assuntos de desenvolvimento. O Brasil abriga uma economia hidrelétrica que tem sido muito bem-sucedida em gerar eletricidade, em termos de receita econômica. Quando o custo ambiental está integrado, você pode tornar o desenvolvimento mais sustentável. Outro setor é o ambiente regulatório. Quero dizer, o governo pode reger o mercado. A economia brasileira do etanol é prova de que uma estratégia a longo prazo do governo pode alcançar o objetivo de uma produção sustentável. Temos vários exemplos ao redor do mundo.

O Pnuma quer plantar 1 bilhão de árvores neste ano. A consciência ecológica é prioritária diante das mudanças climáticas?

O primeiro objetivo do Pnuma é fazer as pessoas acreditarem que elas podem fazer a diferença. Plantar uma árvore não alterará as mudanças climáticas. Meio bilhão de pessoas plantando meio bilhão de árvores, protegendo o ecossistema e compreendendo a ecologia mudarão o mundo.

O desmatamento na Amazônia segue a índices alarmantes, provocado por fazendeiros. Falta essa consciência ao Brasil?

Em relação aos fazendeiros e grileiros, tenho certeza de que eles não entendem o real valor das árvores e do ecossistema, pois se focam na macroprodução comercial. O problema do desmatamento na Amazônia é parte de um processo econômico de competição. A solução seria internalizar o custo da perda de florestas à economia. Acho que o Brasil está muito rapidamente obtendo progressos em avaliar a boa conservação do ecossistema fornecido pela Amazônia face a uma análise econômica. O Brasil pode manter as árvores e expandir a Floresta Amazônica, o que representará um bem-estar à economia do país.

Mas o governo está engajado em deter o desmatamento?

A capacidade do Brasil tem se provado extraordinária. Nos últimos dois anos, o governo brasileiro tem tomado uma série de decisões que se reverteram em exemplos para o mundo. O Brasil reduziu o ritmo de desmatamento em mais de 60%. Isso é extraordinário. A ministra Marina Silva tem demonstrando que o combate ao desflorestamento é reflexo de uma política de desenvolvimento que envolve vários ministérios na adaptação às mudanças climáticas. Essas são lições que levarei comigo para o Quênia.

O senhor tem alguma crítica ao Brasil?

De modo algum. Não vim para julgar o Brasil, mas para descobrir o potencial do país em desenvolver um papel mais importante no cenário internacional de negociações e acordos ambientais. As Nações Unidas estão olhando o potencial de liderança do Brasil no setor.

CB, 06/03/2007, Mundo, p. 20

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.