O Globo, Economia, p. 32
11 de Nov de 2007
Etanol: Brasil corre o risco de perder liderança
Estados Unidos avançam nas pesquisas científicas para produzir álcool a partir de diferentes tipos de resíduos
Liana Melo
Enviada especial
O Brasil virou um aliado fundamental no esforço concentrado dos Estados Unidos para reduzir sua dependência do petróleo. Do alto de uma produção de 18 bilhões de litros de etanol, o Brasil está nadando de braçadas, já que é o único país onde a produção não depende de subsídios governamentais para sobreviver e mais, ser competitiva. Só que essa liderança mundial está correndo sérios riscos.
O país pode perder a corrida tecnológica caso não acelere imediatamente as pesquisas em etanol de celulose ou de segunda geração, que inclui diferentes tipos de biomassa, como bagaço de cana-de-açúcar, palha de milho, resíduos de madeira, trigo, capim, sorgo. O protagonismo brasileiro no etanol está sendo ameaçado justamente por aquele que, hoje, depende do Brasil: os Estados Unidos.
EUA vão investir US$ 1,5 bi em pesquisa
Em 2008, o governo americano está planejando investir US$ 1,5 bilhão em pesquisas energéticas, e o etanol de celulose vai receber US$ 200 milhões.
A parceria governamental com o setor privado e a academia começou em 2006 e já está bastante azeitada. Já no Brasil, a corrida tecnológica está mais lenta e menos organizada.
O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) ainda está concluindo o primeiro edital para induzir pesquisas com etanol de celulose. O orçamento é de R$ 22 milhões e a previsão é que os projetos sejam julgados e selecionados até o dia 14 de dezembro, segundo José Oswaldo Siqueira, diretor de Programas Temáticos e Setoriais do órgão.
Ainda que o Brasil tenha acumulado três décadas de experiência e conte com vantagens - a produtividade do etanol brasileiro (74 toneladas por hectare) é superior à média mundial (69 toneladas por hectare) -ganha a corrida do etanol de segunda geração quem primeiro descobrir descobrir a melhor rota tecnológica para transformar resíduo em álcool. Nem o BNDES anunciou ainda linhas de crédito para pesquisa e desenvolvimento na área.
- Se continuarmos de braços cruzados vamos perder a corrida tecnológica. Com ações isoladas e pouca massa crítica, não vamos chegar a lugar nenhum - pontua Luiz Augusto Cortez, vice-coordenador do Grupo Energia Projeto Etanol, do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), do qual fazem parte cerca de 20 instituições brasileiras.
Nos Estados Unidos, seis plantas-piloto já saíram do papel. O orçamento é de US$ 385 milhões, e a previsão é produzir 863,7 milhões de litros de etanol de celulose. Os projetos estão espalhados pelos estados de Kansas, Flórida, Califórnia, Iowa, Idaho e Georgia.
No Brasil, o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento (Cenpes) é o primeiro projeto oficial. A Petrobras investiu R$ 3 milhões para produzir 280 litros de etanol diários, feitos a partir de bagaço de cana. A produção industrial deve começar em 2010.
Os Estados Unidos já identificaram 1,17 bilhão de toneladas de biomassa para etanol de celulose. Até agora nenhum processo é economicamente competitivo. Todo esse esforço científico está sendo liderado pelo Laboratório Nacional de Energia Renovável (NREL, sigla em inglês), no Colorado.
- Temos metas arrojadas a cumprir, e o principal objetivo é reduzir o custo do etanol de milho, que hoje é de US$ 0,52 por litro para US$ 0,34 por litro até 2012 - disse Helena Chum, do NREL, vinculado ao Departamento de Energia dos EUA.
Nascida em São Paulo e morando nos Estados Unidos há 30 anos, Helena Chum foi peça-chave nas articulações bilaterais entre o Brasil e os Estados Unidos, que culminaram com o acordo assinado entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e George W. Bush, no começo do ano.
O NREL vem desenvolvendo várias pesquisas aplicadas e a mais adiantada delas, por enquanto, é com a DuPont, que consumiu investimentos de US$ 38 milhões. Outra parceira vem sendo desenvolvida com a espanhola Abengoa, para usar microorganismos no processo de produção do etanol celulósico.
- As petroleiras não gostam muito de etanol, mas estão preocupadas em incorporar conhecimentos na área de biocombustível admitiu Alan Weimer, que coordenada o Centro de Biorrefinaria e Biocombustíveis (C2B2), da Universidade do Colorado.
Grupo de empresas já tem 40 projetos em análise
Chevron, Dow Chemical, Shell, General Motors, ADM e Novozyme são algumas das 27 empresas que fazem parte do conselho diretor do C2B2, criado há 18 meses. Cada uma delas desembolsou US$ 300 mil anuais e aplicou 10% num fundo de pesquisa compartilhada, que dá direito a ficarem isentas de pagamento de royalties em caso de patente reconhecida. Dos 65 projetos apresentados, 40 deles estão sendo analisados.
Mas não são apenas as grandes companhias que estão se associando às universidades americanas. Na Georgia, a Range Flues é um exemplo típico dessa parceria com empresas recém-criadas. Usando restos de madeira, ela tem a meta de produzir 76 milhões de litros de etanol. Seu dono é o conhecido investidor em fontes de energia renovável, Vinod Khosla, um dos fundadores da Sun Microsystems.
Outros centros de pesquisa dos Estados Unidos também estão se mobilizando, e a concorrência para saber quem vai chegar primeiro nessa corrida tecnológica está acirrada. Os principais adversários da Universidade do Colorado são as universidades de Berkeley, Iowa e Georgetown.
Subsídio dos EUA pode triplicar para US$ 24 bi
Em 2008, país vai ter 73 novas usinas de etanol e deve dobrar produção do combustível
Não é só na pesquisa do etanol de segunda geração que os Estados Unidos estão correndo contra o tempo. Em 2008, 73 novas usinas do combustível vão entrar em operação, o que vai permitir ao maior consumidor de petróleo do mundo dobrar a produção de 24,7 bilhões de litros de etanol para 49,4 bilhões de litros. Já o Brasil está prevendo 100 novas usinas de cana, mas a produção aqui vai subir de 18 bilhões de litros para 26 bilhões de litros de etanol.
A pressa americana é proporcional ao tamanho do problema. O país se impôs metas arrojadas: reduzir em 20% o consumo do petróleo, nos próximos dez anos. Só que os americanos ainda não descobriram como fazer etanol de segunda geração de forma competitiva e têm limites para ampliar a produção de etanol a partir de milho.
Etanol de milho é turbinado por ajuda governamental
Para garantir a segurança energética, os Estados Unidos não descartam a possibilidade de triplicar os subsídios ao etanol, que hoje são de US$ 8,4 bilhões. Isso significa, segundo cálculos do Laboratório Nacional de Energia Renovável (NREL, sigla em inglês), que esse gastos podem pular para US$ 24 bilhões ou até US$ 28 bilhões. O etanol de segunda geração deverá ter US$ 5 bilhões em subsídios.
- Os subsídios não são uma boa política, são perversos e ainda suscitam a discussão sobre segurança alimentar - admite Mark Smith, diretor da Câmara de Comércio dos Estados Unidos.
Não bastasse fazer eco às críticas da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) contra os subsídios americanos, Smith ainda adverte para os efeitos colaterais que o aumento da produção de etanol já vem causando nos Estados Unidos.
Os preços do milho começaram a subir em meados de 2006, impulsionados pela percepção de que, com a multiplicação das usinas de etanol, o produto precisaria ter sua área de plantio ampliada. Esse avanço nos preços do milho também fez as cotações da soja dispararem, já que as duas culturas disputam o mesmo espaço no Meio-Oeste do país.
- Esse é um tema bem controverso por aqui, já que a alta do preço do milho no campo provocou um aumento dos alimentos nos supermercados, especialmente carne, ovos e leite, indústrias que usam o milho como matéria-prima - concluiu Smith.
(Liana Melo)
O Globo, 11/11/2007, Economia, p. 32
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.