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Estudo mostra que cultura de camarão não destrói mangues

GM, Meio Ambiente, p. A9
06 de set de 2004

Estudo mostra que cultura de camarão não destrói mangues

Nos últimos 26 anos, áreas aumentaram em 40% na região Nordeste. A despeito do crescimento de atividades econômicas como a carcinicultura - cultura de crustáceos, como o camarão - as regiões de manguezais no Nordeste estão crescendo. Pesquisa realizada pela Fundação Sociedade Internacional para Ecossistema de Manguezal do Brasil (ISME-BR), em parceria com o Instituto de Ciências do Mar (Labomar), da Universidade Federal do Ceará (UFCE), revela que a área de manguezais no Nordeste registrou crescimento de 40%, no período que vai de 1978 até o primeiro semestre de 2004.
O levantamento comparou os resultados do trabalho do professor Renato Herz, do Instituto de Oceanografia da Universidade de São Paulo (USP), realizado em 1978, com a situação encontrada no primeiro semestre deste ano. A pesquisa utilizou a mesma metodologia aplicada por Herz, utilizando tecnologias como sensoriamento remoto (via satélite), sistema de informações geográficas e vetorização, para calcular as áreas de mangue.
O professor Luiz Parente, do Labomar, explica que o estudo comparou a cobertura de mangue em 1978, com a atual situação em 2004, nos estados do Ceará, Piauí, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco, onde também está concentrada 75,4% da área ocupada pela atividade de carcinicultura no Brasil. Todos os estados pesquisados registraram aumento na área de mangue.
Entre os estados incluídos na pesquisa, o Ceará tem a maior extensão de manguezais da região, totalizando 17 mil hectares. Esse número é bem maior que a área ocupada pela criação de camarão, que chega a 3.376 hectares, segundo Censo 2003 da Associação Brasileira de Criadores de Camarão (ABCC). "A pesquisa identificou a existência de 20 estuários no Estado", observa Parente, ressaltando que nos últimos 26 anos o mangue cearense registrou crescimento de 32%, com uma expansão de 4,2 mil hectares. O Estado conta hoje com 185 empreendimentos de carcinicultura, que foram responsáveis pela produção de 26 mil toneladas de camarão em 2003.
Avanço das dunas
Parente destaca que nas áreas onde houve redução do mangue, a migração natural das dunas foi o principal fator de desaparecimento do ecossistema. Segundo a pesquisa, algumas regiões chegam a registrar um avanço de 10 a 15 metros de areia das dunas por ano. Por outro lado, foi percebido o crescimento da vegetação de manguezal ao longo dos canais de captação usados pela atividade de carcinicultura.
Na avaliação do presidente da ABCC, Itamar Rocha, o resultado da pesquisa demonstra que, para cada hectare de viveiro instalado nos seis estados pesquisados, o mangue cresceu 1,55 hectares. A zona costeira do Piauí a Pernambuco tem 11,1 mil hectares de viveiros de camarão e o incremento na cobertura de mangue foi de 17,4 mil hectares, totalizando 61 mil hectares de manguezal na área monitorada. "Essa relação sugere que pode existir uma complementação positiva entre o cultivo de camarão e o ecossistema onde ele está instalado", reforça.
RedMangler generaliza
Rocha diz que as informações apontadas pela pesquisa desmentem colocações como as da organização não-governamental RedManglar Internacional, feitas durante a segunda assembléia da rede em Fortaleza. A organização acusa a carcinicultura como a principal responsável pela devastação dos manguezais no mundo. "A RedManglar generaliza o cenário mundial, usando o caso do Equador como pano de fundo. Eles precisam sair do campo das idéias e partir para os argumentos. A pesquisa da ISME-BR e do Labomar traz a realidade brasileira", ressalta Rocha. O Nordeste concentra 60% da cobertura nacional de mangues, seguida pelo Norte (34%), Sul (3%) e Sudeste (3%).

GM, 06-07/09/2004, Meio Ambiente, p. A9

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