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Estudo mostra efeito da seca na emissão de CO2

OESP, Vida, p. A10
22 de Mai de 2006

Estudo mostra efeito da seca na emissão de CO2
Em área coberta por painéis plásticos, mortandade de árvores triplicou, fotossíntese diminuiu e lançamento de dióxido de carbono aumentou

Herton Escobar

Reforçada pelas mudanças climáticas, a seca na Amazônia poderia superar o desmatamento como principal fonte de emissão de gás carbônico para a atmosfera, segundo os resultados de um estudo que simulou as condições de estiagem sobre a floresta. Por vários anos, os cientistas cobriram o chão da mata com painéis plásticos, que reduziram em mais de 50% a quantidade de água da chuva disponível para as árvores.
A resposta do ecossistema demorou um pouco, mas apareceu: a mortandade de árvores triplicou, a fotossíntese diminuiu e a quantidade de dióxido de carbono lançada na atmosfera aumentou.
Se os resultados da área do experimento (de 1 hectare) forem extrapolados para toda a Amazônia, isso significaria uma perda de 2 bilhões de toneladas de carbono para a atmosfera nos últimos dez anos - considerando apenas a decomposição de árvores mortas pela falta de água, sem o desmatamento.
"É algo factível no cenário da Amazônia", diz o pesquisador americano Daniel Nepstad, do Centro de Pesquisas de Woods Hole, nos EUA, e do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), em Belém. Ele é o coordenador do projeto Seca Floresta, realizado em parceria com sete instituições brasileiras e estrangeiras.
Iniciado em 1997, o projeto deve ser encerrado no mês que vem. O experimento foi realizado na Floresta Nacional do Tapajós, em Santarém (PA), comparando duas parcelas de mata: uma com redução artificial de precipitação e outra, natural, sem interferência.
A intenção dos pesquisadores era estudar a reação da floresta a situações de seca prolongada, que devem se tornar mais freqüentes com o avanço do desmatamento e do aquecimento global nos próximos anos.
As árvores maiores, para surpresa dos cientistas, foram as primeiras a morrer. "Sempre se achou que elas seriam as mais resistentes, porque têm raízes mais profundas", diz o cientista. "Mas não. O solo ficou sem água até 15 metros de profundidade."
As árvores que não morreram passaram a apresentar folhas menores e mais espessas, com estômatos fechados para reduzir a perda de água para o ambiente. "O dossel fica mais aberto, mas não vemos aumento na queda de folhas", observa Paulo Moutinho, do Ipam, um dos líderes do projeto.
Conseqüentemente, o escudo verde que protege e conserva a umidade da floresta fica fragilizado. Mais radiação solar chega ao interior da mata, tornando a vegetação mais seca, e mais inflamável. "Cada vez que uma árvore morre, o risco de incêndio na floresta aumenta por muitos anos", diz Nepstad.
Numa demonstração de resistência, algumas espécies que não conseguiam obter água suficiente do solo passaram a absorver água pelas folhas - um comportamento inédito. "Alguns estudos já sugeriam que isso poderia ocorrer, mas é algo que nunca havia sido demonstrado", diz Moutinho. Algumas espécies também passaram a "regurgitar" água pela raiz para as camadas mais profundas do solo, para depois reabsorvê-la com nutrientes.
"Não há dúvida de que a floresta é tolerante à seca, mas tudo tem o seu limite", aponta Nepstad. Além do aumento das emissões de carbono pela decomposição de árvores mortas, houve também uma queda significativa (1 tonelada por hectare/ano) na absorção de carbono da atmosfera, por causa da redução de crescimento vegetal. Ou seja, prejuízo para o clima e para a floresta nos dois sentidos.

OESP, 22/05/2006, Vida, p. A10

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