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Estudo mede impacto da mudança climática

Valor Econômico, Especial, p. F3
24 de Set de 2013

Estudo mede impacto da mudança climática
Problemas como falta de água e salinização do solo são mapeados pela Fundação Oswaldo Cruz

Sérgio Adeodato
Para o Valor, de São Paulo

No sertão cortado pelo rio São Francisco, abrangendo 78 municípios nas proximidades de Juazeiro, na Bahia, doenças, falta de chuva e outras mazelas da vida são vistas como vontade de Deus - e só a Ele se deve recorrer quando a fila no gabinete dos prefeitos está grande demais para pedir favores. Na contramão da cultura tradicional, a região é hoje cenário de um estudo científico típico dos tempos modernos, capaz de gerar dados preciosos para que o futuro da população dependa menos da fé e mais dos preparativos frente às mudanças climáticas. Por entre mandacarus e riachos secos que contrastam com a riqueza da fruticultura irrigada pelo Velho Chico, pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz começaram a desenhar o mapa da vulnerabilidade regional aos impactos do aquecimento global.
A partir de imagens e previsões do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), com precisão de 20 km, são avaliados problemas como escassez de água e salinização do solo, além de dados sobre saneamento, condições de trabalho e número de pessoas por domicílio, por exemplo. "Os indicadores vão direcionar prioridades e políticas públicas para aumentar a capacidade de resposta da população", explica Martha Barata, coordenadora do trabalho. O estudo é um desdobramento da metodologia já aplicada no Estado do Rio de Janeiro, na qual a capital foi apontada como a região mais vulnerável. "Após cinco anos, o plano é aplicar novamente o indicador para avaliar ao longo do tempo os avanços ou retrocessos nos preparativos", diz a cientista, engajada ao esforço de organismos internacionais para avaliar as relações entre o aquecimento global e os riscos para a saúde e para a qualidade de vida da população.
A Organização Mundial da Saúde reconhece que o aquecimento do planeta afeta a qualidade do ar e a provisão de água e alimentos, com danos que deverão causar prejuízos de US$ 2 bilhões a US$ 4 bilhões por ano até 2030. Os países mais pobres são os mais vulneráveis e despreparados. De alergias causadas por polens, que atingem 300 milhões de pessoas no mundo, à diarreia, responsável por 2,2 milhões de mortes por ano, são diversas as doenças que tendem a se espalhar no planeta mais quente. A malária, transmitida por mosquito, mata 1 milhão de pessoas por ano.
Além dos impactos diretos, como ondas de calor que causam desidratação e outros males, a população corre o risco de exposição a doenças associadas a efeitos ambientais indiretos, provocados por inundações, secas, desastres naturais e outros eventos extremos. "O crescimento das cidades, muitas vezes desordenado, potencializa os impactos à saúde", explica Martha, que participou de um panorama sobre o tema publicado pela New York University.
No relatório "The Globalization of Cost-Benefit Analysis in Environmental Policy", Martha afirma que "muitas cidades em todo o mundo têm ações para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, mas só recentemente despertaram para a adaptação, até porque alguns efeitos climáticos se tornaram visivelmente mais extremos". Ela enfatiza: "É preciso integrar o risco climático ao planejamento de todos os serviços públicos municipais".
Os custos dos impactos sobre a saúde podem enfraquecer ainda mais os serviços locais de saúde e assistência social, já saturados. Em estudo publicado pela organização The Geneva Association - Risk & Insurance Economics, a pesquisadora calculou em US$ 205 milhões o custo anual relativo à hospitalização e ausência do trabalho devido a doenças relacionadas à variabilidade do clima no Brasil. Dengue, cólera, malária e leptospirose são alguns exemplos. O valor não considera males como diarreia e doenças respiratórias. Quando se avalia o número de mortes, as perdas somam US$ 600 milhões por ano. "As mudanças climáticas tendem a agravar o quadro e representam um grande desafio para o sistema público de saúde", completa a pesquisadora.
"Bolsa-Família não resolverá o problema", adverte José Marengo, chefe do setor de ciência terrestre do Inpe. "A população nordestina está adaptada à seca, mesmo com todo o histórico de escassez?", pergunta o pesquisador. O primeiro Relatório de Avaliação Nacional, do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC), indica que o clima no Brasil nas próximas décadas deverá ser mais quente - com aumento gradativo e variável da temperatura média em todas as regiões do país entre 1o C e 6oC até 2100, em comparação à registrada no fim do século 20. "Para investir na adaptação a esse cenário, é importante saber quanto estamos vulneráveis hoje", remenda Marengo.
"Faremos estudo de disponibilidade de água no horizonte de 35 anos para autorizar captação nos rios", avisa Bruno Pagnoccheschi, coordenador de gestão estratégica da Agência Nacional de Águas (ANA). Por razão de segurança, o volume outorgado levará em conta um percentual de incerteza no longo prazo. "Hoje as variáveis de demanda pesam mais do que as do clima, mas no futuro será o inverso", prevê o especialista.
Exposição da população a água contaminada é fator de risco à saúde, que aumenta no caso de catástrofes, como deslizamentos de terra e inundações. O relatório "Risco Mundial 2013", recém-divulgado pela ONU e Universidade de Bonn, colocou o Brasil em 123o lugar entre 173 países, na avaliação dos riscos associados a fenômenos naturais e acesso a serviços de saúde. O quadro mostra que a população brasileira está vulnerável aos impactos de desastres naturais, como enchentes e aumento do nível do mar. O país mais ameaçado é Vanuatu, pequeno arquipélago do Pacífico. Tonga e Filipinas aparecem nas colocações seguintes. Entre as nações ricas, Japão é o mais exposto aos riscos, na 15o posição. O Catar é o menos vulnerável.

Valor Econômico, 24/09/2013, Especial, p. F3

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