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Estrago irreparável

CB, Mundo, p. 22
17 de Nov de 2007

Estrago irreparável
Relatório do IPCC alerta que fenômeno pode se tornar irreversível e elogia avanços do Protocolo de Kyoto. Documento prevê aumento de 1,1oC a 6,4oC na temperatura média do planeta até 2100

Rodrigo Craveiro
Da equipe do Correio

Cada vez mais intenso, o aquecimento global pode provocar "impactos e mudanças climáticas abruptas e irreversíveis". O alerta perturbador é a tônica do relatório síntese do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Cerca de 600 delegados - entre cientistas e representantes de governos - se reuniram durante toda a madrugada de ontem, em Valência (Espanha), e só conseguiram chegar a um consenso por volta das 7h30 (4h30 em Brasília). Como era de se esperar, os Estados Unidos apresentaram várias objeções e tentaram suavizar o teor do relatório. O resultado da 27ª Conferência Plenária do IPCC foi a elaboração de um documento provisório de 20 páginas, que resume milhares de páginas de projeções, detalha os compromissos de 140 países para mitigar o aquecimento e elogia os "notáveis avanços" do Protocolo de Kyoto - o acordo estabeleceu metas de emissões de gases do efeito estufa para países industrializados.
O tom do informe do IPCC preserva a contundência dos três últimos relatórios, ao reforçar a influência das atividades humanas no fenômeno. Os cientistas afirmam que a temperatura da Terra deve subir de 1,1 a 6,4 graus Celsius até 2100, provocando o derretimento das geleiras e elevando o nível dos mares em até 58cm. O relatório reforça a projeção de que um aumento de 2 graus Celsius colocará em risco de extinção um terço das espécies vegetais e animais, com impacto direto sobre a humanidade: 1 bilhão de pessoas estarão vulneráveis à fome, à sede e às doenças. E recomenda a estabilização da emissão de gases do efeito estufa até 2030 e a redução até 2050.
As conclusões serão apresentadas oficialmente hoje pelo secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon. A expectativa é de que o texto sirva de base para discussões políticas durante a Conferência de Mudanças Climáticas da Organização das Nações Unidas, que ocorrerá de 3 a 14 de dezembro em Bali (Indonésia) e será o marco do início de um pacto pós-Kyoto. O sumário direcionado aos formuladores de políticas traz uma incômoda advertência à parcela minoritária de ambientalistas céticos: "O aquecimento do sistema climático é inequívoco".
Segundo o meteorologista norte-americano Michael Mann, autor do capítulo "Variabilidade climática e mudanças observadas" do terceiro relatório do IPCC, a interferência humana no clima é indiscutível. "A ciência começa a sentir o impacto do aquecimento global sobre as populações e o ecossistema", afirmou ao Correio. "Espero que os líderes dos países desenvolvidos e em desenvolvimento se convençam de que não podemos esperar muito tempo para implementar políticas de redução da queima de combustíveis fósseis, se quisermos evitar impactos potencialmente perigosos nas próximas décadas", acrescentou.
A também cientista norte-americana Elizabeth Malone, co-autora do capítulo "Mudança climática 2007: Impactos, adaptação e vulnerabilidade" do quarto relatório, acredita que, até a conferência em Bali, os governos dêem mais atenção para a adaptação ao fenômeno. "Espero mais acordos de cooperação em pesquisa, além do desenvolvimento de tecnologias que emitirão níveis mais baixos de gases do efeito estufa", disse. De acordo com a cientista, Bali será uma oportunidade para uma mudança de foco do Protocolo de Kyoto, "que se mostrou infrutífero".
Em entrevista ao Correio, o holandês Hans Verolme - diretor do Programa de Mudanças Climáticas da organização não-governamental WWF - disse estar "bastante satisfeito" com a síntese apresentada pelo IPCC. "O documento reforça que o aquecimento global já está ocorrendo, com sérias implicações na vida, na economia e na natureza. Mas há a notícia positiva de que podemos fazer algo a respeito e é preciso agir rapidamente", admitiu. Ele não tem dúvidas de que o texto será uma "forte mensagem" aos governos para as negociações em Bali.
Amazônia
Ambientalistas e meteorologistas são unânimes em lamentar a ausência de citações sobre impactos das mudanças climáticas na floresta amazônica nos documentos políticos. O parecer técnico do IPCC tinha chancelado a informação de que o bioma poderia se transformar em savana, mas a falta de provas consistentes eliminou esse alerta do relatório. "É uma pena que não haja conclusões sobre a Amazônia. A floresta é extremamente importante para a saúde do planeta, além de desempenhar um papel de destaque no seqüestro de gases do efeito estufa", comentou Malone. De acordo com ela, a suspensão do desmatamento e a adoção de sustentabilidade na região reduziria o aquecimento global e distribuiria as riquezas de forma mais equânime a longo prazo.

CB, 17/11/2007, Mundo, p. 22

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