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Estoque de represas cai mesmo após chuva forte

FSP, Cotidiano, p. C1
05 de nov de 2014

Estoque de represas cai mesmo após chuva forte
Dos seis maiores reservatórios da Grande SP, cinco perderam volume
Cantareira se manteve estável pela 1ª vez desde 27 de setembro, mas 'efeito esponja' retarda recuperação

Eduardo Geraque Fabrício Lobel de São Paulo

Mesmo com a chuva forte que trouxe transtornos e alagamentos à Grande São Paulo na segunda-feira (3), cinco das seis maiores represas que abastecem a região metropolitana perderam água.
O Cantareira foi exceção --pela primeira vez desde 27 de setembro manteve-se estável.
Mas, devido ao desfalque em outros reservatórios, como Guarapiranga e Alto Tietê, caiu a quantidade de água para abastecimento na Grande São Paulo, conforme medições na manhã de terça (4), um dia após os temporais.
Houve chuva moderada em alguns pontos nesta terça --e a tendência é que ela continue até domingo. Mas a expectativa é que o impacto seja quase invisível nas represas --que estão extremamente baixas e com solo exposto.
O "efeito esponja" é um dos problemas que devem retardar a recuperação do Cantareira, maior reservatório da região metropolitana.
Com as represas esvaziadas, parte do solo argiloso que antes ficava submersa está agora exposta e seca. Na prática, as chuvas precisam encharcá-lo antes que ele consiga armazenar a água.
O regime de chuvas é um fator primordial no ritmo de recuperação do reservatório. Elas precisam ser contínuas.
Segundo especialistas, não há como definir um tempo para que a água seja efetivamente acumulada. "É temerário falar em um prazo. Mas esse é um efeito importante a ser considerado", afirma Pedro Luis Côrtes, professor de gestão ambiental da USP.
Chuvas rápidas, mesmo que fortes, como as de segunda, demoram mais para provocar a saturação do solo.
Outro obstáculo é que a chuva precisa ser intensa nas regiões das represas. Na segunda, choveu 10,5 mm em Santana (zona norte) --quase metade do total de outubro. Em Guarulhos, 35,9 mm. Mas não choveu nada na região do Guarapiranga (zona sul).
No Cantareira, a chuva de 15,7 mm foi suficiente somente para frear a queda constante do nível da represa.

CAPACIDADE
O nível de abastecimento da Grande São Paulo na terça (4) era de 16,5% considerando as seis maiores represas. No dia anterior, 16,6%.
O estado mais crítico é no Cantareira, que tinha ontem 11,9% de sua capacidade, considerando a segunda etapa do volume morto (porção de água que fica abaixo da tubulação de captação). Sem ela, seu nível é de só 1,2%.
Pelo ritmo de queda do Cantareira no mês passado, a primeira etapa do volume morto pode acabar em 10 de novembro. Pelo ritmo dos últimos sete dias, no dia 14.
O nível do Guarapiranga, que opera com 37,9% da capacidade, vem caindo de maneira acelerada. Na terça, a represa sofreu sua maior queda desde que ela passou a socorrer o Cantareira.
A chegada de uma frente fria no leste e sul do Estado deve trazer nesta semana pancadas de chuvas como as de segunda. Outra frente fria na sexta deve causar mais chuvas principalmente no sábado. A partir de segunda, a tendência é que elas diminuam.
A previsão para os próximos três meses é que as chuvas fiquem dentro da média do verão. O Cantareira, com isso, deve chegar à estação seca com seus reservatórios ainda baixos. Segundo especialistas, ele pode levar até cinco anos para se recuperar.

'Aproveitei para lavar o carro', festeja internauta

Foi tamanha a espera que a forte chuva de segunda (3) foi motivo de comemorações nas redes sociais. Alguns afirmaram até ter usado a água em tarefas domésticas.
"Tomei banho de chuva hoje e aproveitei pra lavar o carro e, de gorjeta, consegui encher dois tanques com água do telhado", afirmou um internauta em seu perfil em uma rede social.
"Aproveitei para lavar a varanda", escreveu outra.
Neste mês, a Sabesp iniciou campanha pedindo economia de água, com o ator Juca de Oliveira.
No vídeo de um minuto, ele afirma que "estamos vivendo a pior seca dos últimos 84 anos e, ainda assim, vemos gente jogando água fora". Ele faz um apelo para que a população não lave carro ou regue o jardim.
Em outubro, o índice de adesão ao bônus que dá desconto por economia (quem atingiu a meta ou reduziu o consumo sem chegar a ela) foi o mesmo percentual de setembro: 75%.

Órgão federal cobra dados sobre uso do 2o volume morto

O uso do volume morto do sistema Cantareira voltou a gerar discórdia entre os governos federal e paulista.
A agência federal que regula os recursos hídricos (ANA) divulgou nota nesta terça (4) na qual cobra que o departamento de águas estadual (Daee) envie parecer sobre o ritmo de uso da segunda cota do volume morto --água que fica abaixo do nível de captação das represas.
A ANA concordou com a utilização do manancial no mês passado, mas recomendou que os 106 bilhões de litros disponíveis fossem usados de forma parcelada.
No ofício enviado ao Daee, o presidente da agência federal, Vicente Andreu, manifesta preocupação com "o agravamento da situação [do manancial] nos últimos dias".
Questionado sobre o assunto, o governo estadual afirmou que encaminhou à ANA documento sobre o uso do volume morto. Não quis, porém, informar o conteúdo da proposta de parcelamento.
A Sabesp já cogitou a captação de uma terceira cota do volume morto, num total de 162 bilhões de litros.
O uso do volume morto já causou até insultos. Na semana das eleições, o presidente da ANA, Vicente Andreu, afirmou que se a segunda cota acabasse o governo iria tirar água do "lodo". Foi chamado de "vagabundo" pelo deputado federal José Aníbal (PSDB-SP) numa rede social.
A estiagem também foi tema das campanhas à reeleição da presidente Dilma Rousseff (PT) e do governador Geraldo Alckmin (PSDB).
Nesta terça, a entidade de direito do consumidor Proteste começou a coletar amostras de água para análise. Ela quer saber se foi mantida a qualidade com o uso do segundo volume morto.

CPI
Na Câmara Municipal, autoridades dos órgãos estadual e federal podem se encontrar nesta quarta (5) na CPI criada para acompanhar crise.
A comissão intimou o superintendente do Daee, Alceu Segamarchi Jr., que havia recusado um convite. Também convidou o presidente da ANA e o superintendente da Sabesp, Marcello Xavier Veiga.
Entre os assuntos a serem abordados está uma suposta "orientação superior" que teria impedido alertas à população sobre a necessidade de economizar água. A frase foi dita pela presidente da Sabesp, Dilma Pena, em áudio vazado no mês passado.

FSP, 05/11/2014, Cotidiano, p. C1

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/194150-estoque-de-represas-c…

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/194152-aproveitei-para-lavar…

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/194151-orgao-federal-cobra-d…

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