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Estiagem reduz transporte por hidrovias e traz prejuízos à indústria

OESP, Economia, p. B11
27 de Mai de 2014

Estiagem reduz transporte por hidrovias e traz prejuízos à indústria
Na Tietê-Paraná, como parte da água foi direcionada para a geração de energia, empresas que usam a hidrovia passaram a escoar boa parte das mercadorias por ferrovias e rodovias

Mônica Scaramuzzo - O Estado de S.Paulo

A Eldorado, exportadora de celulose, interrompeu há um mês o escoamento de sua produção pela Hidrovia Tietê-Paraná para chegar até Santos (SP). "Não foi uma opção. O calado estava muito baixo e não tínhamos como usar a hidrovia", diz José Carlos Grubisich, presidente do grupo. A empresa utiliza o trecho de Três Lagoas (MS), onde está a fábrica, até Pederneiras (SP) por hidrovia, depois faz transbordo via ferrovia.
A celulose é apenas uma pequena parte das commodities que são transportadas por hidrovia. Os grãos ocupam a maioria das barcaças. São cerca de 6 milhões de toneladas de capacidade de produtos por ano. Mas, desde fevereiro, o escoamento pela Tietê-Paraná está comprometido pela estiagem. Com a seca, a navegação pela hidrovia está restrita. As águas locais estão sendo direcionadas para a geração de energia. Os comboios reduziram de 21 para 7 unidades e a capacidade de transporte dessas unidades caiu de 6 mil toneladas habituais para algo entre 2 mil e 3 mil toneladas. "Não há condições para navegação", afirmaram fontes ao Estado. O calado está em 1,40 metro. O padrão, com os comboios, é de 2,70 metros.
A Caramuru Alimentos, maior processadora nacional de grãos, já notificou a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), a Agência Nacional de Águas (ANA), o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e a Cesp por se sentir prejudicada por ter de desviar boa parte dos grãos para outros modais - ferrovia e rodovia - para garantir o transporte de seus produtos, afirmou César Borges, vice-presidente da empresa. O grupo está preparando uma cobrança judicial contra a Cesp por causa dos prejuízos, que estão sendo levantados.
A expectativa da companhia era escoar 1 milhão de toneladas de grãos este ano a partir de São Simão (GO) até Pederneiras (SP). Até abril, foram escoadas 130 mil toneladas, das 300 mil programadas para o período. Procurada, a Cesp informou que as usinas que integram o sistema têm sua operação determinada pelo ONS. Essa operação leva em consideração todos os fatores considerados multiuso relacionados às usinas.
Custos. As discussões sobre o uso múltiplo das águas, desviadas para as usinas hidrelétricas para gerar energia, vão ganhar novos contornos nesta semana. "Pedimos ajuda para o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), interceder por nós em Brasília", afirma Luiz Fernando Horta Siqueira, presidente do Sindicato dos Armadores de Navegação Fluvial do Estado de São Paulo (Sindasp). "O prejuízo provocado pela paralisação do sistema às empresas que operam a hidrovia é estimado em mais de R$ 100 milhões até o momento, sem contar o descrédito que causa ao modal hidroviário com os embarcadores."
Uma das maiores empresas que operam as embarcações, a DNP Indústria e Navegação, que também esteve na mesma reunião com Perillo, já fez as notificações aos órgãos do governo federal.
"Cada comboio que não desce coloca nas estradas cerca de 200 caminhões. Os custos com frete chegam a ser de quatro a seis vezes mais caros. A tonelada embarcada por hidrovia gira entre R$ 40 a R$ 60, dependendo da carga. Por caminhão, varia de R$ 140 a R$ 200", diz Nelson Michielin, presidente da companhia.
Indústria. Não é apenas o transporte de mercadorias que fica prejudicado pelo baixo nível dos rios - processos industriais também são afetados. A Rhodia paralisou uma de suas unidades em Paulínia (SP) por 14 dias. A interrupção ocorreu entre os dias 6 e 20 de fevereiro na unidade que produz materiais para a cadeia do náilon.
O complexo da Rhodia em Paulínia opera 20 fábricas. A unidade afetada tem um processo produtivo específico em que capta água do Rio Atibaia para usar em sistemas de resfriamento de caldeiras, explicou um porta-voz da empresa.
Em razão da baixíssima vazão do Atibaia, a Rhodia foi obrigada a parar essa unidade - os 122 empregados foram deslocados para outras atividades. A empresa teve de importar produtos para não comprometer contratos.
"Essa situação toda coloca o setor em estado de alerta. Só para ter uma ideia, um apagão de dois a três minutos significa três dias de fábrica parada", afirma Fernando Figueiredo, da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim).
Para Carlos Cavalcanti, diretor da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), a iminência de racionamento de água é mais presente na cidade de São Paulo. "Boa parte do abastecimento na cidade é pelo sistema Cantareira. O que dizer para as indústrias de alimentos e bebidas que vão utilizar volume morto? Qual a qualidade dessa água?"
Segundo ele, indústrias cimenteiras, de cerâmica e metalurgia serão altamente afetadas pelo racionamento. "O que mais assusta é que você não sabe quando isso vai ocorrer, se antes ou depois das eleições."
No caso das cimenteiras, segundo José Otávio Carneiro de Carvalho, do Sindicato Nacional da Indústria de Cimento, a falta de água vai afetar diretamente a construção civil.

Grandes indústrias já paralisam produção e vendem energia

Mônica Scaramuzzo - O Estado de S.Paulo

O risco de apagão em 2001 colocou em alerta diversas empresas do setor industrial. Companhias "eletrointensivas" estão vendendo energia no mercado livre - entre elas estariam Usiminas, Votorantim Energia e Alcoa, apurou o Estado. Isso ocorreria porque os preços estão altos e, em alguns casos, até compensam a parada de produção, diz o professor Ildo Sauer, do Instituto de Energia e Ambiente (IEE), da Universidade de São Paulo (USP).

Em comunicado, a Votorantim Energia informou que a divisão de energia é responsável pela gestão de energia para as empresas do grupo e para terceiros. Sempre que houver excedente, essa energia é oferecida ao sistema interligado, incluindo os períodos de paradas técnicas para manutenção.

A Usiminas informa que não houve redução de produção. No primeiro trimestre, a produção foi de 1,65 milhão de toneladas, mesmo volume do quarto trimestre. A empresa informou que a venda de energia excedente neste ano no mercado foi uma oportunidade.

Já a Alcoa diz que as paradas de produção são reflexo do cenário desafiador de seu mercado. A empresa não confirma a venda de energia.

Segundo Rinaldo Mancim, diretor de assuntos ambientais do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), a situação atual do setor é preocupante e a perspectiva de falta de energia é o problema central. "Os projetos de mineração consomem muita água, mas o reuso dos recursos naturais pelas indústrias é de mais de 80%. Vemos energia como um fator crítico. Muitos dos projetos de mineração, como do quadrilátero ferrífero de Minas Gerais, os novos da Bahia e Norte do País não estão ameaçados", afirma.

O 'porto fantasma' da Tietê-Paraná
Construído há 15 anos, terminal de cargas de Conchas nunca movimentou uma única tonelada

José Maria Tomazela - O Estado de S.Paulo

SOROCABA - O Porto de Conchas, na região de Sorocaba, o terminal de cargas da hidrovia Tietê-Paraná mais próximo da Grande São Paulo, completa 15 anos este mês sem ter movimentado uma única tonelada.

Construído em 1999 pela Companhia Nacional de Armazéns Gerais Alfandegados (Cnaga) com apoio do governo estadual, o terminal tem estrutura para receber 500 toneladas de produtos a granel por hora, mas, até agora, nenhuma barcaça encostou em sua plataforma de atracação. Os sitiantes do bairro Baguari, na zona rural do município, referem-se ao entreposto do Rio Tietê como o "porto fantasma".

Instalado com apoio do governo estadual, o terminal deveria receber comboios com cargas de grãos do Centro-Oeste com destino ao Porto de Santos. As barcaças retornariam com fertilizantes e calcário.

Nas primeiras tentativas, os comboios não conseguiram vencer as curvas do Rio Tietê na altura do distrito de Juquiratiba. A Companhia Energética de São Paulo (Ciesp), na época responsável pela hidrovia, assumiu o compromisso de realizar obras simples de retificação de curvas, mas nada foi feito. As cargas que seguiriam até Conchas passaram a escoar pelo terminal de Anhembi, 80 quilômetros acima.

O abandono do Porto de Conchas é um dos argumentos usados por ambientalistas em oposição ao projeto de ampliação da hidrovia no Rio Piracicaba. O projeto do Departamento Hidroviário (DH), órgão do governo estadual que assumiu a gestão da hidrovia, inclui a construção de uma barragem e de um porto na região de Santa Maria da Serra a um custo de R$ 600 milhões. Para tornar navegável um trecho de 45 quilômetros, o nível do rio seria elevado em pelo menos um metro, encobrindo as várzeas do Tanquã, conhecidas como "Pantanal paulista" em razão da biodiversidade.

O projeto está em fase de licenciamento, mas o Ministério Público (MP) de São Paulo pediu estudos complementares que justifiquem o investimento. Para o promotor Ivan Carneiro Castanheiro, do Grupo de Atuação Especial de Defesa do Meio Ambiente (Gaema) do MP em Piracicaba, seria mais econômico para o erário investir nas obras que permitam a navegação até Conchas, já que esse trecho faz parte de outro projeto do governo de estender a hidrovia até a região de Salto. A prefeitura de Conchas também cobra do Estado obras que permitam a operação do porto. O município cedeu uma área de 214 mil m² à Cnaga para o empreendimento e colaborou com a construção de uma rodovia asfaltada para acesso ao porto, com 22 quilômetros, mas não teve o retorno esperado.

Licitação. O diretor do Departamento Hidroviário, Casemiro Tércio Carvalho, informou que o Porto de Conchas não opera por falta de demanda, pois é possível passar nesse trecho do Rio Tietê com uma barcaça. "Os comboios maiores precisam ser desmembrados, o que torna a operação pouco atrativa." Segundo ele, a retificação do canal navegável até Conchas é objeto de licenciamento ambiental. "Ao mesmo tempo, estamos cuidando da licitação e em julho faremos a pré-qualificação das empresas interessadas." De acordo com Carvalho, as obras devem começar este ano e, em 2015, já será possível levar a Conchas comboios com duas barcaças.

Com a execução do projeto que prevê a extensão da hidrovia até Salto, o trecho passará a ser rota de navegação para comboios com quatro barcaças. Esse projeto, que prevê a construção de outras barragens, ainda depende de licença ambiental. Os investimentos na hidrovia, segundo ele, fazem parte de um convênio assinado em 2011 com o governo federal. Parte dos recursos, de R$ 1,5 bilhão, já foi investida em obras em outros pontos do rio.

OESP, 27/05/2014, Economia, p. B11

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