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Estão vendendo o país

JB, País, p. A7
Autor: LESSA, Carlos
02 de Fev de 2007

Estão vendendo o país

Entrevista Carlos Lessa

Mariana Carneiro

Carlos Lessa é, antes de qualquer coisa, um nacionalista. Em todos os debates públicos em que se envolveu, sempre defendeu os interesses estratégicos do país. A ocupação da Amazônia por estrangeiros, denunciada pelo Jornal do Brasil em reportagens publicadas desde domingo, despertou a fúria do economista que, por sua vez, alerta que, entregar a ONGs ou a missionários o controle da Amazônia é abrir mão do desenvolvimento. "A Amazônia é nossa, para o nosso futuro e de nossos filhos e netos", vociferou.
Lessa enfatiza ainda a importância de se ocupar a Amazônia, como forma de criar oportunidades para o país. Os vizinhos latinos podem ser aliados nessa verdadeira guerra silenciosa pelos recursos naturais da região. Veja a entrevista a seguir.

Como a Amazônia se insere nos planos de desenvolvimento do País?

A Amazônia é a maior província mineral na América e tem um enorme potencial hidrelétrico e como celeiro de grãos. As usinas do Rio Madeira são capazes de gerar a mesma energia que Itaipu. E ao mesmo tempo, construir uma rede hidroviária e abrir uma área de 300 milhões de hectares de terras para o plantio, não só no Brasil, mas também na Bolívia e Peru. A bioenergia é a fronteira do futuro. Alimentos são a do presente, o que mostra a grande estratégia de se ocupar a Amazônia.

Mas isso não significa risco à preservação da floresta?

Até hoje, foram comprometidos apenas 3% da área da Amazônia no País. O discurso da preservação é hipócrita, pois se é para preservar de fato é preciso reduzir dramaticamente o consumo de combustível nos países ricos. Só os americanos consomem 20 vezes mais energia do que o resto do mundo. A questão climática é a principal em debate hoje em relação ao meio ambiente.

O Brasil tem sido criticado no exterior por não conseguir conter a devastação da Amazônia. Qual sua avaliação sobre tornar a região área de preservação mundial?

Somos favoráveis a internacionalizar a Amazônia, desde que também o façam com Paris e Nova York. A Amazônia é nossa, para o nosso futuro e de nossos filhos e netos. Os Estados Unidos consomem um terço de todo o petróleo do mundo e estão alimentando a catástrofe climática. Que assimetria de tratamento é essa? A questão ecológica e de ocupação das terras na Amazônia é nacional e não deve ser discutida em fóruns internacionais. Os Estados Unidos desmataram todo o seu meio-oeste e agora querem interferir no nosso passivo ambiental. A Amazônia deve ser gerida sob nossos critérios e deve ser um instrumento para o desenvolvimento do país. É a grande fronteira que ainda precisamos ocupar. Temos que fazer o máximo para aproveitar os recursos naturais que a ela dispõe.

Na sua avaliação, a atuação do Estado brasileiro na região é boa?

O Brasil sequer acompanha a comissão da Unesco para debater a Amazônia. Não se sabe o que acontece nas áreas indígenas. O país tem sido displicente em relação à atuação de estrangeiros na região. Gasta-se pouco na Amazônia. Deveríamos incentivar que as universidades da região desenvolvam pesquisas próprias. O Instituto de Estudos Superiores da Amazônia deveria ser reforçado. A Embrapa precisa ter um foco na região. O Brasil não foi capaz de desenvolver um eucalipto de fibra longa? Há um enorme potencial na Amazônia, coisas fantásticas a serem descobertas. Não defendo que se bote mata abaixo para fazer pasto, mas explorar racionalmente é fundamental - e com perspectiva nacional. Deixar isso nas mãos de missionários e ONG é um absurdo.

Qual sua avaliação sobre o projeto do governo de gestão da floresta?

Estão vendendo o País. É uma solução perigosa e confirma algo que está acontecendo há muito tempo. Além do que, os projetos estrangeiros de ocupação, como Jari e Fordilândia, nunca deram certo. Os que tiveram êxito foram tocados por brasileiros, como o da Vale do Rio Doce em Carajás.

Todo projeto de desenvolvimento da região é tratado como um tabu. Teme-se que seja um incentivo à devastação.

Não é um tabu. Os estrangeiros é que alimentam esse discurso de que não se pode mexer na Amazônia. Mas eles já estão aqui e sabendo de tudo sobre o que acontece por lá. Precisamos desenvolver um projeto de ocupação efetiva e com apoio dos nossos vizinhos latino-americanos. Afinal, é onde esta a fronteira Norte do Mercosul. Ao que parece, existe uma campanha, uma espécie de quinta coluna, favorável à internacionalização da Amazônia. Isso não é novo, mas é preocupante em um mundo em que a escassez de recursos naturais cresce de forma drástica.

Carlos Lessa é economista. Foi professor do Instituto Rio Branco, dos Cursos Intensivos de Treinamento dos Problemas de Desenvolvimento Econômico da Cepal e do Instituto Latino-Americano e do Caribe de Planificação Econômica e Social. Em 2002, foi eleito reitor da UFRJ, onde é professor desde 1978. Deixou o cargo para assumir a presidência do BNDES, em 2003, depois da posse de Luiz Inácio Lula da Silva, onde ficou até 2004.

JB, 02/02/2007, País, p. A7

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