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Esta dor também é nossa

O Globo, Opinião, p. 3
Autor: Mônica Santos; Mauro Marcos da Silva; Romeu Geraldo; Douglas Krenak; Joice Miranda
30 de Jan de 2019

Esta dor também é nossa
Com a Vale fechada, talvez muitos de vocês sejam responsabilizados pelas dificuldades financeiras que Brumadinho poderá enfrentar

Mônica Santos, Mauro Marcos da Silva, Romeu Geraldo, Douglas Krenak e Joice Miranda

Irmãos e irmãs de Brumadinho,

Hoje partilhamos a dor e o sofrimento de vocês. Há três anos também fomos devastados pela lama que levou consigo a vida que havíamos construído até então. As imagens que hoje circulam como novidade têm para nós o gosto amargo de notícia velha - uma história que conhecemos bem e jamais esqueceremos.

Contudo, não podemos dizer o que vocês estão sentindo neste momento. No limite, a dor é individual, de cada um, indizível, incompartilhável. Gostaríamos de dizer que este sentimento desolador vai passar. Mas não podemos. O sofrimento muda, mas não passa. Para nós, o dia 5 de novembro de 2015 ainda é uma ferida aberta, que voltou a sangrar com a renovação trágica de um desastre tão semelhante àquele a que fomos submetidos.

O que sabemos e podemos atestar é que o tempo leva embora a urgência dos fatos e o interesse pelas consequências do desastre tanto por parte das autoridades e da imprensa quanto da sociedade. Os holofotes vão, e nós ficamos com essa dor que só a gente sabe o tamanho. Entre os nossos, vimos a lama levar muita gente no decorrer do tempo, adoecidos pela tristeza, pelo medo, pelo desespero.

Na retomada impossível da vida, perdemos o que amamos todos os dias, na ausência deixada pelas pessoas, lugares e objetos de nosso apreço. De repente, você acorda em uma casa que não é a sua, vivendo um cotidiano difícil de ser reconhecido. À dor do abraço que não pode mais ser dado, somam-se outros pesares, incalculáveis neste primeiro momento de desamparo: a carteira de trabalho, a foto que iluminava as boas memórias, o pé de fruta, o fim de tarde ao redor da praça, o banho de rio...

Com a Vale fechada, talvez muitos de vocês sejam responsabilizados pelas dificuldades financeiras que Brumadinho poderá enfrentar. Em Mariana, fomos alçados à condição de culpados em poucas semanas. Infelizmente, em um estado economicamente dependente da mineração - que é hoje uma atividade predatória, sem legislações mais duras e fiscalização séria -, o fechamento de uma empresa deste porte gera desemprego e muitas pessoas miram sua insatisfação para o alvo errado.

Nossa esperança é que a empresa e o poder público, ambos responsáveis por estes crimes, tenham aprendido com a tragédia de Mariana e garantam um processo justo de reparação para as vítimas. Gostaríamos de confortá-los com a garantia de que isso acontecerá. Mas nossa experiência mostrou que o compromisso maior é com a geração de riquezas, não com a vida humana ou com o meio ambiente.

Até quando? Quantas vítimas mais se farão necessárias para explicitar a falência desse modelo de mineração? Quantos terão que ser sacrificados para despertar medidas concretas de fiscalização e regulamentação dessas indústrias? Quantos desastres criminosos serão necessários para que os responsáveis sejam punidos?

Justamente por não sabermos essas respostas é que precisamos buscá-las. Por isso, para nós, vítimas que ficam quando as atenções se vão, a luta se faz imperativa e cotidiana. Por nós e por todos.

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As circunstâncias em breve vão torná-los "atingidos" - condição que, infelizmente, se propaga no tempo, atualiza-se a cada dia, em cada violação de direito que faz da tragédia um dano contínuo.

Vocês não estarão sozinhos. Nossos caminhos, hoje cruzados pela lama, poderão contar com aquilo que trazemos de uma trajetória de mais de três anos de luta por direitos. As mineradoras podem não ter aprendido nada com o crime do Rio Doce, mas nós aprendemos.

Contem conosco.

Mônica Santos, Mauro Marcos da Silva, Romeu Geraldo, Douglas Krenak e Joice Miranda são vítimas do rompimento da Barragem de Fundão

O Globo, 30/01/2019, Opinião, p. 3

https://oglobo.globo.com/opiniao/artigo-esta-dor-tambem-nossa-23412563

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