O Globo, O Mundo, p. 40
30 de Out de 2008
Esquenta o clima
Novo presidente dos EUA terá que enfrentar o aquecimento global
Roberta Jansen
O próximo presidente dos EUA terá a espinhosa missão de lidar - pela primeira vez de forma concreta - com um assunto estrategicamente deixado de lado pelo governo americano desde que começou a ser debatido com seriedade no cenário político internacional: o aquecimento do planeta e as medidas a serem adotadas para reduzir seus efeitos. O desafio é conciliar a economia baseada na queima de combustível fóssil com o futuro ambiental do planeta.
Mais difícil ainda, em meio a uma crise financeira mundial.
Bill Clinton assinou o Protocolo de Kioto no fim do seu governo, mas deixou o pepino de ratificar o acordo internacional de redução de emissões de gases-estufa para seu sucessor, George W. Bush. A nação mais poluidora do mundo se recusou a ratificar o tratado.
Mas as pressões para uma tomada de posição aumentaram nos últimos anos - com pilhas de estudos apontando, cada vez mais de forma inequívoca, os efeitos nocivos da postura de inação. A Europa tomou a liderança no debate e assumiu compromissos ambiciosos de redução.
Dificilmente, o próximo presidente conseguirá se eximir, sobretudo porque a questão climática hoje perpassa itens cruciais da agenda governamental para os próximos anos, como o preço do petróleo, a segurança energética e a energia nuclear.
Obama tem meta ambiciosa
Mas as posições dos dois candidatos à Presidência são divergentes. Se Barack Obama vencer, prevalecerá a visão de ratificar acordos internacionais e estabelecer metas mais ambiciosas de redução de emissões de CO2. Embora engajado no debate climático como senador (ele elaborou a legislação climática para o governo Bush nunca aprovada), o John McCain presidente rezaria pela cartilha republicana, dando mais ênfase ao desenvolvimento de novas tecnologias capazes de fazer frente ao problema.
Obama quer reduzir as emissões de gases estufa aos níveis de 1990 até 2020 e até 80% abaixo disso em 2050. O candidato democrata defende o estabelecimento de um limite bem rígido de emissões totais de gases-estufa e ainda o uso de créditos de carbono - em que o direito de emitir poderia ser negociado, num esquema parecido com o europeu, mas com certos limites e devidamente auditado.
McCain é um pouco mais modesto. Como Obama, ele quer reduzir as emissões aos níveis de 1990 até 2020. Mas, até 2050, a meta é ficar 60% abaixo desses níveis. Ele também defende um sistema de créditos negociáveis. Vale lembrar que a última recomendação do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU é de redução de 80% das emissões até 2015.
O candidato republicano acha que os EUA só devem ratificar acordos internacionais quando China e Índia também os assinarem. Sem isso, afirma, o país não deve se sentir na obrigação de agir. Obama pensa diferente, e defende a idéia de que os EUA devem retomar as negociações internacionais, independentemente de China e Índia. Para o candidato democrata, o desafio mais imediato é conseguir um consenso no Congresso para estipular um limite nacional de emissões e fazer com que o país se engaje como líder nas negociações pós-Kioto.
Numa outra frente de ação, Obama pretende investir US$ 150 bilhões ao longo de dez anos no desenvolvimento de energias renováveis. A estratégia de McCain é diferente: ele quer fomentar um mercado de novas tecnologias a partir dos créditos de carbono. E pretende também dar incentivos fiscais para a produção e o consumo limpos.
Solução nuclear é defendida
A ampliação significativa do uso da energia nuclear está presente no programa de ambos os candidatos. Como disse Obama em entrevista à revista "Nature", "seria muito difícil reduzir drasticamente as emissões de gases-estufa sem o uso da energia nuclear."
McCain é bem mais direto na defesa da energia nuclear. Para ele, parte significativa da energia americana deverá ser gerada assim. Ele já anunciou que, se for eleito, pretende investir na construção de nada menos que 45 novas usinas nucleares até 2030, podendo chegar a 100.
Temperatura no Alasca já aumentou 4 graus
Na contramão dos estudos, Sarah Palin questiona causas do aquecimento
Juliet Eilperin
Do Washington Post
Ninguém, inclusive Sarah Palin, questiona que o clima do Alasca está mudando mais rapidamente do que o de outros estados. Mas seu ceticismo sobre as causas e sobre o que deve ser feito para cuidar de suas conseqüências se opõem radicalmente à visão de seu companheiro de chapa, John McCain.
Apesar de ter criado um subgabinete para lidar com as mudanças climáticas, o órgão ficou encarregado de descobrir formas de adaptação ao aquecimento global, em vez de como combatê-lo. Sarah questiona publicamente cientistas sobre a tese, praticamente consensual, de que o homem é o maior responsável pelo aquecimento do planeta. Ela também critica o governo por incluir ursos polares na lista de animais ameaçados de extinção por causa do derretimento das geleiras.
Durante a campanha, McCain admitiu que o homem está comandando o aquecimento global e disse que seus esforços para capturar gases causadores do efeito estufa são uma prova de sua habilidade para lidar com os democratas.
Mas ao escolher Sarah e elegê-la responsável pelas questões energéticas, caso eleito, McCain terá uma parceira resistente a esse princípio de sua candidatura.
- Ela se posicionou de forma correta sobre algumas questões nos últimos dois anos, mas não fez absolutamente nada - disse Rick Steiner, professor de conservação marinha da Universidade do Alasca.
O estado é o que mais está sentindo os efeitos. O Alasca ficou 4 graus mais quente nos últimos 50 anos - bem acima do aquecimento mundial e dos EUA. Sarah não minimiza as conseqüências. Mas quando ambientalistas pediram à governadora que verbalizasse a responsabilidade do homem em relação ao aquecimento global, ela se esquivou. Em vez disso, determinou que o estado precisa desenvolver uma estratégia para "guiar esforços para avaliar e tratar causas conhecidas ou suspeitas" da mudança climática.
O Globo, 30/10/2008, O Mundo, p. 40
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