VOLTAR

Espírito manifesto

Folha de Boa Vista - http://www.folhabv.com.br/fbv/noticia.php?id=81383
Autor: Jessé Souza *
05 de Mar de 2010

Vez por outra, encontro alguém criticando a obra de Mário de Andrade, "Macunaíma, o herói sem caráter". Há também os que atacam o autor por ter inspirado a criação de seu personagem em Makunaima (lê-se Makunáima), personagem principal da mitologia indígena de Roraima.

Ninguém quer se identificar com o "herói sem caráter". Todos querem se achar acima de qualquer comparação com o personagem que, na narrativa, tentou se dar bem enganando a todos, mas acabou morto na grande metrópole.

Mas, lá no fundo, o que Mário de Andrade escreveu representa a alma de muitos brasileiros que, usando a desculpa do jeitinho brasileiro, querem se dar bem de qualquer maneira, até mesmo na fila do banco ou na hora de passar o troco.

Porém, ninguém quer assumir suas semelhanças com Macunaíma (com o "i" acentuado bem forte). Porque, mesmo sem saber, a ideia é não se dar mal, tal qual o personagem do romance, mas se dar bem como o político influente que rouba e não vai para cadeia por ser influente, com tudo a seu favor.

Dia desses, num banco de espera, um senhor que me vê quase todos os dias, chegou como se íntimo fosse. Pela experiência de duas décadas de jornalismo, já preparei meu espírito para o pior. E assim foi.

O cara queria "um favor". Queria que eu intermediasse, com uma autoridade que eu conheço, o pagamento de um precatório. Necessitava furar a fila de espera e achava que, pelo meu trânsito com aquela autoridade, eu seria a pessoa certa para o jeitinho brasileiro.

Olhando bem nos olhos daquele cidadão, não hesitei em dizer um sonoro "não", sem arrodeios, tão sonoro quanto a letra "i" de Macunaíma. Ele não foi o primeiro a pedir favores semelhantes, sem ao menos conhecer-me, e com certeza não será o último. Porque está manifestado em muitas pessoas o espírito do herói sem caráter romanceado.

É por isso que políticos corruptos e incompetentes se dão bem nas eleições. Porque eles são favorecidos por eleitores que, se estivessem no lugar deles, também fariam suas falcatruas. Já vi gente que se julga culta defendendo a tese do "rouba, mas faz" ou "rouba, mas deixa tudo aqui".

O espírito do "herói sem caráter" circula por todos os cantos, no empresário que burla o fisco, no cobrador que rouba no preço, no vendedor que engana o consumidor, no cidadão que encontra um celular e se apropria dele, na pessoa que não titubeia em levar vantagem em cima do primeiro "otário".

É muito difícil pensar em grandes transformações na política e na sociedade de uma forma geral, se o espírito de Macunaíma não for combatido, ou seja, se o cidadão continuar esculachando o político ladrão, mas age como espertalhão ou como ave de rapina na primeira oportunidade que encontra para meter a mão.

* Jornalista - jesse@folhabv.com.br - Twitter: www.twitter.com/jessesouza - Blog: www.pajuaru.blogspot.com.br

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.