O Globo, Caderno Especial-A Furia da Terra, p. 2
Autor: NOBRE, Carlos Afonso
20 de Dez de 2005
À espera do imprevisível
Entrevista: Carlos Nobre
Roberta Jansen
Presidente do Programa Internacional da Geosfera-Biosfera, que reúne cientistas de todo o mundo na pesquisa sobre mudanças ambientais, o meteorologista Carlos Nobre explica como as ações do homem potencializaram as tragédias dos últimos 12 meses. O cientista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais fala sobre os efeitos do aquecimento do planeta e diz que devemos esperar o inesperado.
Existe alguma correlação entre as tragédias dos últimos doze meses? Qual a contribuição do aquecimento global?
Carlos Nobre: A tsunami foi um fenômeno natural provocado pelo ajustamento das placas tectônicas no fundo do mar. A temporada de furacões do Atlântico deste ano foi excepcional. Foram 26 tempestades, sendo que 14 viraram furacão, um recorde absoluto desde que se faz a medição. Uma andorinha só não faz verão, mas chama atenção: qual a razão de tantos furacões?
Não há dúvida que isso está relacionado ao aquecimento das águas do Atlântico Norte, cujas temperaturas estão acima da média, entre 28 e 29 graus Celsius, ideal para a formação de furacões. Esse aquecimento também foi responsável pela seca intensa registrada na Amazônia este ano. Mas ainda não é possível relacionar isso ao aquecimento global. As projeções indicam que os fenômenos extremos serão cada vez mais freqüentes. Mas ainda não dá pra saber se esse mais freqüente já chegou. Só conseguiremos dizer isso retrospectivamente.
A ação do homem contribui para as tragédias?
Nobre Sem dúvida. A modificação do ambiente global aumentou a vulnerabilidade dos assentamentos humanos pelo aumento da exposição. O risco do desastre natural é um produto de dois fatores: intensidade do fenômeno multiplicado por exposição. Mesmo que o aumento de fenômenos extremos não esteja ocorrendo, a exposição aumentou muito nas últimas décadas e, conseqüentemente, a vulnerabilidade. No caso das tsunamis, nas regiões costeiras onde os manguezais e os recifes de coral estavam intactos o impacto da onda foi muito menor. O mesmo ocorreu no caso do Katrina, que teve um efeito muito maior em Nova Orleans porque, por muitas décadas, se dragava o banco de areia na foz do rio Mississipi que funcionava como barreira para ondas e furacões.
Um estudo recente constatou que a corrente do Golfo estaria perdendo força, o que tornaria o Norte da Europa mais frio.
O aquecimento global torna o mundo mais frio?
Nobre: A grande dúvida é saber se o fenômeno está ligado ao aquecimento global. Se estiver, é um alerta muito importante. Mas é preciso esperar para ver se não se trata apenas de uma variação natural da corrente que leva água quente para a região. Agora, não se trata de um paradoxo. O aquecimento altera todo o sistema climático. Uma mudança na circulação oceânica pode estar relacionada ao aquecimento por mais que o resultado numa determinada área seja o esfriamento. Ao perturbamos um sistema caótico (o climático) devemos esperar surpresas, coisas inesperadas, nunca vistas.
Como seria um mundo 4 graus Celsius mais quente?
Nobre Seria um mundo muito diferente. O nível do mar seria um metro mais alto. As geleiras continentais dos Andes teriam praticamente sumido. O aumento da evaporação teria um impacto enorme sobre a biodiversidade: estima-se a savanização de 30% a 40% da Amazônia. Muitos modelos prevêem o esfriamento do norte da Europa. Há também a chance de ocorrer um fenômeno de baixa probabilidade, porém de altíssimo impacto: o derretimento das geleiras da Groenlândia. Se todas derreterem o nível do mar aumenta em seis metros, o que afetaria 40% da população mundial.
Qual seria o impacto no Nordeste brasileiro?
Nobre: É muito preocupante porque, com o aumento da evaporação, diminui a quantidade de água no solo tornando o problema da seca ainda mais crítico. Boa parte do sertão se tornaria inadequada para o plantio de qualquer cultivo e se tornaria um semi-deserto dentro de 50 a 100 anos.
O Globo, 20/12/2005, Caderno Especial-A fúria da Terra, p. 2
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