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À espera de professores

Amazonas Em Tempo
Autor: Sídia Ambrósio
16 de abr de 2007

O barracão construído com varas de bambu, os bancos de madeira e a lousa pendurada na parede estão preparados há pelo menos seis meses, à espera de um professor para lecionar para as 70 crianças da Comunidade Kokama, no Km 8 do Ramal do Brasileirinho, na zona leste de Manaus.

Segundo a guerreira Lucimar Braga Laranjeiras, 50 anos, a comunidade comporta 17 famílias da etnia provenientes dos municípios de São Paulo de Olivença, Santo Antônio do Içá e Tabatinga e, estão assentados no ramal do Brasileirinho há pelo menos 13 anos.

Além das necessidades básicas como saúde, a educação também está em falta na comunidade. "Já faz tempo que esperamos pela vinda de um professor, já que vários pedidos foram feitos para a Prefeitura e para o Governo do Estado e nada foi feito", falou a índia.

Edilane Braga Laranjeiras, dez anos, parou de estudar na 3ª série, porque, segundo ela, estava cansada de tanto preconceito na escola "dos brancos". "Todo o dia sempre tinha um colega que ficava pegando no meu pé porque eu era índia e daí eu acabava brigando e dizia que eu era índia mesmo. Não gosto quando eles falam mal dos índios, por isso não quero mais estudar na escola do branco", falou a pequena Kokama.

Segundo o guerreiro Tupi Guarani, Raimundo Nonato da Silva, 40 anos, vindo do Alto Rio Negro, mais precisamente do município de São Gabriel da Cachoeira, a Prefeitura por meio da Secretaria Municipal de Educação (Semed), já convocou o professor da etnia Baré, conhecido como Orígine, para o processo de admissão. "Ele (Orígine) já foi chamado para fazer testes na Secretaria e parece que agora vai dar aula para a nossa comunidade. Como vocês podem ver, estamos com tudo preparado para que o professor comece a dar as aulas, inclusive para nós adultos", falou o indígena, enfatizando que os índios ainda sofrem muitos preconceitos por parte da sociedade, e que os "brancos" falam que os índios fedem.

Enquanto o professor não chega, Edilane Laranjeiras aproveita o tempo para relembrar as poucas palavras que foram aprendidas na Escola Municipal Manoel Rebelo da Cunha, localizada na zona rural de Manaus. "Aprendi muitas coisas e tenho saudades da sala de aula, espero que o professor comece a dar aula logo aqui na comunidade, pois vou aprender tanto o idioma do branco quanto o nosso", confessou a estudante.

Contratações

De acordo com a coordenadora de Gestão Educacional (núcleo de Educação Indígena) da Secretaria Municipal de Educação (Semed), Lúcia Maia, a rede vai receber no período de 24 a 27 deste mês, cerca de 12 professores indígenas para atuar nas escolas das comunidades indígenas, que ficam localizadas nas zonas rurais e urbanas da capital amazonense. "Estaremos em fase de contratação.
Esses serão os primeiros professores indígenas na rede municipal de ensino. Em um primeiro momento eles irão fazer todos os procedimentos de exames de admissão e, logo em seguida, eles irão participar do segundo ciclo de palestras de educação indígena que será realizado pela Secretaria", contou a coordenadora, salientando que até o final do mês os professores indígenas já deverão está nas comunidades indígenas lecionando para as crianças.

Conforme informou a coordenadora da Semed, as etnias que serão atendidas são: Piratapuia, Baré, Kokama, Kambeba, Ticuna, Sateré-mawé, Baniwa, Tariano, Tukano e Karapanã que estão localizadas nas seguintes localidades: Cidade de Deus (Ticuna), Santos Dumont (Sateré-Mawé), Grande Vitória, Nova Vitória e Ramal do Brasileirinho (Kokama) e Aleixo (Tukano, Baniwa e Tariano).

Etnias

A região amazônica comporta hoje cerca de 450 mil indígenas, desses, 70% estão no Amazonas. No Brasil eles se dividem em Apurinã, Arapaso, Banawa-Yafi, Baniwa, Bará, Barasana, Baré, Deni, Dessana, Diahui, Hi-Merimã, Hixkaryana, Jamamadi, Jarawara, Juma, Juriti-Tapuia, Kaixana, Kambeba, Kanamari, Katukiana (Pedá Djapá), Katukina-Pano, Kaxarari, Kaxinawa, Kubeo, Kokama, Kulina Pano, Kuripano, Madiha-kulina, Maku 2, Makuna, Marubo, Matis, Matsé, Miranha, Parintintin, Paumari, Pirahã, Piratapuya, Sateré-Mawé, Siriano, Tariana, Tenharim, Tikuna, Tora, Tsohom Djapá, Tuyuka, Waimiri-Atroari e Wai-Wai.

Os povos estão distribuídos em 225 sociedades indígenas que perfazem cerca de 0,25% da população brasileira, mas as populações indígenas continuam sendo vistas pela sociedade brasileira ora de forma preconceituosa, ora de forma idealizada. O preconceito parte, muito mais, daqueles que convivem diretamente com os índios: as populações rurais.

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