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Esforço para salvar as águas

CB, Cidades, p. 28
22 de jan de 2005

Esforço para salvar as águas
Destruição de matas ciliares, cascalheiras e ocupação irregular do solo aceleram comprometimento dos mananciais que banham o DF. Ações de recuperação estão em curso para assegurar sua sobrevivência

Aline Fonseca
Da Equipe do Correio

Salvar as matas que rodeiam córregos e rios significa manter ou melhorar a qualidade da água que se bebe nas cidades e contribuir para a preservação da natureza onde ainda é possível. Segundo a Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Semarh), em cada uma das sete bacias hidrográficas do Distrito Federal há pelo menos uma ação de recuperação da mata ciliar, vegetação que margeia os mananciais, visando manter o volume e a potabilidade da água.
''A revegetação é um problema que tem de ser resolvido, porque implica qualidade de vida. As matas ciliares são como filtros: reduzem a chegada de lixo, agrotóxicos e nutrientes aos rios'', explica a bióloga e pesquisadora Lucília Parron, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
Por sua importância, as bacias do Paranoá e do Descoberto são as que mais têm ações de recuperação.
É do Descoberto que saem 65% do abastecimento de água do DF e no Paranoá está o lago responsável pelo lazer na capital do país. Organizações Não-Governamentais (ONGs), órgãos do governo e universidades atuam isoladamente ou em conjunto para evitar a diminuição da água.
Na região do Paranoá, o maior problema é a ocupação desordenada. Áreas de beira de córrego foram invadidas, desmatadas e tiveram partes edificadas. A impermeabilização do solo, resultado do asfaltamento e das construções nas ocupações, ajudam a aumentar a ocorrência de erosões.
Os condomínios irregulares das ex-colônias agrícolas de Vicente Pires, Águas Claras e Samambaia, por exemplo, são responsáveis pelo assoreamento dos córregos Vicente Pires e Samambaia, afluentes do Riacho Fundo, que forma um dos braços do Lago Paranoá. Nessa área, o Sistema Integrado de Vigilância e Conservação de Mananciais (Siv-Água) começa a atuar em fevereiro, com replantio das bordas dos córregos e orientação aos ribeirinhos.
Economia para o futuro
No Ribeirão do Gama - responsável por um terço do volume de água do Lago Paranoá -, a preservação é feita há dez anos por meio do projeto ''Recuperação e Gestão Participativa na Área de Proteção Ambiental Gama e Cabeça de Veado'', da Universidade de Brasília. A professora de Engenharia Florestal Jeanine Felfili é a responsável pela recuperação do córrego. Desde 1995 foram plantadas 15 mil mudas de árvores nativas do cerrado. O ribeirão abastece o Park Way e o Núcleo Rural Vargem Bonita, e o assoreamento está diminuindo a quantidade de água na região.
''Revegetar as matas ciliares é uma economia para o futuro, porque a água é um bem muito precioso e, quando um rio fica poluído, limpá-lo se torna muito mais caro'', explica Jeanine.
Em Santa Maria, o Ministério Público firmou Termo de Ajuste de Conduta (TAC) com três cascalheiras da região que estão assoreando o Ribeirão Santa Maria. O compromisso foi de pagar R$ 20 mil para a revegetação das matas ciliares do manancial. O Ribeirão Santa Maria nasce no DF, mas é responsável pelo abastecimento das cidades de Novo Gama, Valparaíso e Céu Azul, no Estado de Goiás. Com o assoreamento causado pelas cascalheiras, as cidades goianas passaram a sofrer com a falta de água. Na Bacia do Rio Preto, a Semarh começou um trabalho de conscientização dos produtores rurais, que utilizam as águas dos mananciais da região para a irrigação.
De acordo com pesquisa da organização não-governamental WWF-Brasil, as bacias hidrográficas do Distrito Federal estão em estado de alerta. A densidade populacional e a ocupação desordenada do solo comprometem rios e córregos e ameaçam o abastecimento de água. Segundo o relatório da entidade, que analisou a integridade dos mananciais do DF, o sinal amarelo está nas alterações ecológicas e terrestres das unidades hidrográficas. Nas bacias do Paranoá e do Descoberto, há problemas com o desmatamento e o lixo jogado nos mananciais, e é preciso melhorar a coleta e o tratamento de esgoto dos núcleos urbanos. Na Bacia do Rio Preto existem pivôs centrais de irrigação e desmatamento.

Ingás estão voltando
A revegetação não é a única ação para manter os córregos íntegros, mas é a principal. ''Mesmo pequenas, as raízes das plantas seguram a terra, a água da chuva, o lixo. Essa é a função de uma mata ciliar: proteger o curso d'água'', explica a professora de Engenharia Florestal Jeanine Felfili, da UnB, uma das pioneiras em recuperação de matas ciliares no DF.
A derrubada de uma mata ciliar pode levar poucas horas, mas o seu restabelecimento dura pelo menos 20 anos. ''É todo um processo em que as plantas crescem e dão condições para que várias outras espécies se alojem ali, mas isso demora. Provavelmente não ficará como uma mata original, mas pode ficar próxima'', diz Jeanine.
No entanto, a revegetação deve vir acompanhada de ações de educação ambiental. ''A comunidade tem de ser orientada, porque é preciso cuidar para que não haja novas ocupações na beira dos córregos, cuidar das erosões existentes, chamar a comunidade a não jogar lixo nos mananciais. Só plantar não adianta, além disso é preciso manter as mudas, garantir que cresçam'', afirma a professora.
No Ribeirão Santa Maria, que já perdeu 70% do volume original, a comunidade começa a agir. Um dos mais engajados na recuperação da mata ciliar do manancial é o confeiteiro Salvador Gomes, conhecido como Sassá. Aos 49 anos, mãos calejadas, jeito simples e nenhuma formação teórica, Sassá está empenhado em revegetar as bordas do ribeirão. Ele é integrante do Conselho de Meio Ambiente de Santa Maria e ajudou a plantar as primeiras mudas no início do mês. ''Vou cuidar disso aqui até morrer'', diz Salvador.
Com o tempo, os jatobás, buritis, ingás e angicos - árvores maiores e que se adequam bem em áreas de mata ciliar - tomam forma, permitindo que outras espécies rasteiras também se estabeleçam ali. ''Acabam atraindo também os animais, até porque as matas ciliares têm função de corredores ecológicos'', explica a pesquisadora Lucília Parron, da Embrapa.

No leito e nas margens
RIO PRETO
Problemas: riscos ambientais relacionados ao uso de agrotóxicos, presença de pivôs de irrigação, desmatamentos e queimadas. Ação: a Semarh está orientando os produtores a protegerem as nascentes e incentivando a criação de lagoas-reservatórios.
MARANHÃO
Problemas: embora seja a mais preservada do DF, precisa de cuidados. Ações: Organizações Não-Governamentais (ONGs) estão se preparando para recuperar o Ribeirão da Contagem, que está com baixa qualidade ocasionada pela exploração mineral e desmatamento.
PARANOÁ
Problemas: os quatro braços formadores do Lago Paranoá (Torto, Bananal, Riacho Fundo e Gama/Cabeça de Veado) apresentam baixa qualidade e desmatamento de suas matas ciliares.
Ações: é a bacia que mais tem ações. No Riacho Fundo, a Caesb mantém programa de revegetação das margens; no Vicente Pires, o Siv-Água vai replantar as matas ciliares; no Ribeirão do Gama, a recuperação é feita pela UnB.
CORUMBÁ
Problemas: o Ribeirão Santa Maria (que nasce no DF, mas abastece cidades goianas) é assoreado pelas cascalheiras.
Ações: o Ministério Público e a UnB começam projeto de recuperação das matas ciliares.
SÃO BARTOLOMEU
Problemas: o Ribeirão Sobradinho recebe esgoto in natura do parcelamento Mestre D'Armas e compromete o restante da bacia. 0 Rio São Bartolomeu está com baixa qualidade, ocasionada pela ocupação desordenada na região. Ações: A Caesb pretende tratar o esgoto e implantar um reservatório em parte do São Bartolomeu.
DESCOBERTO
Problemas: a ocupação desordenada em Águas Lindas (GO), a falta de saneamento no município e o uso de agrotóxicos em Brazlândia comprometem a qualidade da água. Ações: MP, Semarh, Siv-Água e Caesb pretendem começar a recuperação em 2005.

CB, 22/01/2005, Cidades, p. 28

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