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Escolas indígenas Tremembé celebram primeiras aprovações no ensino superior

O Povo - www.opovo.com.br
Autor: Victor Marvyo
11 de Mar de 2026

Resumo

Localizada no aldeamento de Almofala, no município de Itarema, a mais de 188 km de Fortaleza, a Escola Indígena Tremembé de Tapera celebra um feito inédito desde a sua inauguração em 2010. Pela primeira vez em sua história, estudantes indígenas da instituição conseguiram ingressar em uma faculdade pública através do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

Os jovens Ana Beatriz e Francisco Gabriel, que percorreram toda a trajetória escolar em instituições indígenas, agora se preparam para novos desafios no Instituto Federal do Ceará (IFCE), campus Acaraú.

"Para nós, é uma satisfação imensa, é inédito. Pela primeira vez a gente tá conseguindo alunos nossos ingressar numa faculdade pública", comemora o diretor da escola, Fernando Marciano Santos, mais conhecido como Fernando Tremembé. Segundo ele, a conquista é um reflexo de que o modelo de ensino adotado pela escola, que valoriza a identidade indígena, está colhendo frutos.

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Aprovação representa conquista para comunidade

Filho de pescador, Francisco Gabriel, 21, foi aprovado no curso de Engenharia de Pesca e conta que, inicialmente, havia perdido a vaga na chamada pública. Duas semanas depois, no entanto, recebeu mensagens do próprio campus informando sobre vagas remanescentes disponíveis.

"Foi um momento de imensa alegria para mim e para minha família", comemora. Ao relembrar o percurso diário de cerca de 6 quilômetros até a escola, Gabriel destaca os desafios enfrentados no trajeto, que incluía travessia de rio, balsa e ônibus. "Encarei esses desafios para estudar e melhorar meu aprendizado. Foi lá que tirei uma boa nota no Enem e consegui minha aprovação."

Segundo ele, a escolha pelo curso também está ligada à realidade da região. "A maior fonte de renda de Acaraú e Itarema vem da pesca. Além disso, quero honrar minha família, que é o mais importante e sempre esteve ao meu lado."

Gabriel também ressalta o significado da conquista para sua comunidade.

"Essa conquista foi uma grande vitória, tanto para minha comunidade quanto para as escolas onde estudei. Como eu e minha família somos indígenas, sempre estudei em escolas indígenas. É também uma forma de rebater o preconceito de quem diz que 'escola indígena não ensina nada', algo que ouvimos com frequência".

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Escola indígena fortalece acesso ao ensino superior

Um dos diferenciais da Escola Indígena da Tapera é o corpo docente e administrativo, formado integralmente por integrantes do próprio povo Tremembé. Embora muitos professores tenham precisado buscar formação fora da aldeia, hoje retornam para lecionar no mesmo local onde também estudaram. Atualmente, a unidade atende cerca de 160 alunos.

A jovem indígena Beatriz Tavares, 18, ingressou no ensino superior por meio do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) e foi aprovada no curso de licenciatura em Física. Ela conta que soube da aprovação após ser contatada pelo próprio coordenador do curso.

"Descobri que fui aprovada por meio do coordenador, que entrou em contato comigo. Foi uma grande conquista e, quando li a mensagem, senti uma grande euforia", celebra.

Ao O POVO, Beatriz relata que o sonho de cursar o ensino superior começou ainda na infância e que a escola teve papel importante para fortalecer esse objetivo. Segundo ela, a rotina de estudos disciplinada e o apoio familiar foram fundamentais durante a preparação. "São minha base", afirma

Para Beatriz, a conquista ultrapassa a dimensão individual. "Carrego comigo a história da minha família, da minha escola e da minha aldeia. Para nós, indígenas, ocupar um espaço como esse também simboliza nosso esforço. Não estou levando apenas o meu sonho, mas também o sonho do meu povo", ressalta.

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Primeira aprovação universitária marca história da escola

A cerca de 24 quilômetros da Escola Indígena Tremembé de Tapera, a estudante Ariana Lima, 20, da Escola Indígena Tremembé Maria Venância, também celebra uma conquista inédita.

Recém-aprovada pelo Programa Universidade para Todos (Prouni), ela ingressará no curso de Administração em uma faculdade particular com bolsa parcial de 50%, obtida na primeira chamada regular, na modalidade de ampla concorrência.

A aprovação marca um feito histórico: Ariana é a primeira aluna da instituição indígena a ingressar em uma universidade. Também é a primeira pessoa de sua família a cursar o ensino superior.

A jovem relata que a conquista representa não apenas um sonho pessoal, mas também uma superação diante do preconceito e do descrédito frequentemente direcionados às escolas indígenas.

"Sou filha de duas mulheres guerreiras, que foram essenciais na minha trajetória. Quando souberam da aprovação, reagiram com muita felicidade - até choraram. Esse sonho é nosso", conta, emocionada. Para iniciar os estudos, Ariana precisou reorganizar a rotina e passar a morar longe da família.

Ao conquistar a primeira aprovação universitária de sua escola, a estudante diz sentir orgulho de representar sua comunidade. "Essa vitória serve como uma prova concreta do potencial dos alunos indígenas, independentemente das limitações estruturais ou do formato de ensino", afirma.

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