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Escola Agrotécnica leva educação profissional a povos das aldeias do Amazonas

Ministério da Educação - portal.mec.gov.br
Autor: Ionice Lorenzoni
04 de nov de 2008

A escola vai à aldeia. Essa foi a forma encontrada pela Escola Agrotécnica Federal (EAF) de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, para oferecer cursos técnicos aos povos indígenas que residem nas aldeias de Assunção do Içana, distante 172 quilômetros, e Cunuri, a 50 quilômetros, trajetos percorridos por rios do município.

A decisão de inverter o processo tradicional - o aluno vai à escola -, segundo o diretor da EAF, Paulo Assis Cavalcante Nascimento, resolve uma série de dificuldades peculiares à região Norte. Entre elas, o custo do transporte dos alunos por rios e a retirada dos estudantes das suas comunidade por longos períodos.

O método adotado pela Escola Agrotécnica Federal, em comum acordo com as lideranças indígenas e suas associações, foi a ida dos professores até as comunidades para encontrar os alunos, projeto pioneiro nas escolas técnicas e agrotécnicas do Ministério da Educação.

Em 2007, a EAF de São Gabriel da Cachoeira abriu o curso técnico em etnodesenvolvimento para 42 alunos indígenas, com idade entre 22 e 24 anos, dos povos baníua e curipaco. O curso é ministrado na escola indígena Cariamã, distrito de Assunção do Içana (terra indígena Alto Rio Negro), a 172 quilômetros da sede do município. A abertura do curso, explica Paulo Nascimento, aconteceu depois de dois anos de conversas, discussões e pesquisas desenvolvidas pela EAF com as 15 comunidades que habitam a região.

O diretor explica que o sucesso do curso se deve a parceria entre a agrotécnica e as comunidades. "Eles (indígenas) detém um conhecimento de 2 mil anos no manejo dos recursos ambientais, que é levado em conta no currículo". Mas hoje, com os novos hábitos de consumo, diz ele, as atividades econômicas que praticam não são suficientes para atender suas necessidades. A EAF estruturou um curso de 1.160 horas, sendo mil horas de estudos e 160 horas para criação de um projeto para a comunidade. As aulas são em regime de alternância (tempo na escola e tempo na comunidade).

Os alunos se concentram na Escola Cariamã durante 30 dias, onde grupos de professores ministram dois módulos do curso. Depois os estudantes voltam às comunidades para trabalhar nas suas atividades rotineiras, aplicar o que aprenderam e fazer pesquisas durante 30 dias.

O curso, explica o diretor da EAF, não forma técnicos para trabalhar no mercado, mas nas comunidades a que pertencem. Entre os conteúdos estão os recursos pesqueiros (produção de ração alternativa, construção de tanque-rede com matérias primas da região); processamento de alimentos (raízes e frutas); construção de viveiros de mudas para replantio de árvores (produção de madeira, canoas, frutas).

Saúde, educação, manejo sustentável, gestão, inclusão digital também estão no currículo. Com o apoio da Fundação Nacional do Índio (Funai), os alunos fizeram um curso básico de informática na sede da EAF em São Gabriel da Cachoeira. Hoje, diz o diretor, o ProInfo já mandou dez computadores para a Escola Cariamã, mas ainda falta a conexão à internet, tema que a EAF está tratando com o Ministério das Comunicações. O curso em etnodesenvolvimento deve ser concluído no final deste ano.

Desenvolvimento sustentável – A 50 quilômetros de São Gabriel da Cachoeira, 52 alunos de nove comunidades, com predominância dos povos tucano, piratapuia e tariano, fazem o curso técnico em desenvolvimento sustentável (ensino médio integrado). O curso, que vai de 2008 a 2010, é itinerante para os professores da Escola Agrotécnica e para os alunos indígenas. Em 2008, o curso é na comunidade Cunuri; em 2009, em Monte Alegre e Monte Cristo, e em 2010, em Ipanoré.

São 2.600 horas de formação, ministradas em três anos. Cada encontro dura 45 dias, com três módulos, e mais 45 de atividade individual na comunidade. Paulo Nascimento explica que, como a EAF não tinha professores do ensino médio suficientes para enviar às aldeias, nem fluentes na língua tucano, contratou quatro professores indígenas com curso superior em licenciatura intercultural, para suprir essa lacuna. A EAF ainda precisou fazer oficinas sobre metodologia e teoria do ensino médio para preparar os quatro professores.

O currículo do curso de ensino médio integrado à educação profissional em desenvolvimento sustentável compreende uma etapa de conhecimentos gerais, em que entram filosofia, sociologia, economia, ecologia e métodos de pesquisa, e fases específicas: gestão de recursos (ensinamentos sobre a gestão financeira e de recursos humanos de associações e cooperativas de trabalho); gestão ambiental (meio ambiente, recursos florestais, madeira, pesca, solos, agricultura); sistema de produção aplicada (processamento de frutas e produtos locais, agricultura, piscicultura, apicultura, manejo de roça).

De acordo com o diretor da EAF, a formação dessa turma de jovens indígenas, com idade de 15 a 30 anos, visa oferecer alternativas de sustentabilidade nas terras de suas reservas. Ele explica as dificuldades mais comuns: os peixes estão escassos por causa da sobrepesca praticada por grandes barcos; nos solos da região predominam os igapós (terras inundadas durante seis meses do ano) que não permitem uma agricultura regular; os cipós para confecção de móveis, abundantes na região, são vendidos a preços irrisórios para atravessadores; as distâncias e a falta de animais de carga também constituem grandes dificuldades de sustentação dos povos.

Ao constatar essa realidade, a Escola Agrotécnica Federal de São Gabriel da Cachoeira não ficou parada, diz seu diretor. Além dos cursos de formação, a EAF estuda mais dois projetos. Um deles é de capacitação para fabricação de móveis com cipós e madeiras da região, curso que poderá ser realizado em parceria com o Sebrae ou o Senac; o outro reúne duas ações: uma com o Ministério das Comunicações, com recursos do Governo Eletrônico, constando de serviço de atendimento ao cidadão (Gesac), para a montagem de um barco com antena, internet e computadores para a inclusão digital das comunidades indígenas, de uso itinerante; outra com o Ministério da Educação, que prevê a compra de um barco-biblioteca para as escolas indígenas e de um barco com motor para transporte de alunos.

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