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Epidemia de cesáreas contamina índias

OESP, Vida, p. A16
23 de Abr de 2010

Epidemia de cesáreas contamina índias
Índice desse tipo de parto em hospitais de duas regiões do País está acima da média recomendada pela OMS

João Domingos, Enviado especial / Altamira

Epidemia entre as mulheres brancas, a cesárea alcançou as índias. Embora o parto normal ainda seja predominante (87%) entre as índias, as cesarianas são cada vez mais frequentes, principalmente quando o nascimento ocorre num hospital. Nessa situação, corresponde a 22,1% dos nascimentos de índios nas Regiões Sul/Sudeste e 23,2% no Nordeste. O índice máximo recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) é de 15%. No ano passado, de todos os partos realizados na rede pública, 34% foram por cesariana.
Embora tenham rejeição cultural à cesárea, índias da região do Xingu, no sudoeste do Pará, têm se submetido muito a essa intervenção. A explicação de médicos e enfermeiras se baseia em dois fatores: o corpo quase infantil das mães, que engravidam a partir dos 11 anos, e o grau de parentesco com os pais.
Das 18 aldeias atendidas pelo sistema de saúde de Altamira, com uma população em torno de 2,5 mil indivíduos, a maior ocorrência de cesáreas está entre os Araras, que vivem nas margens do Rio Xingu, a cerca de 50 quilômetros. Como a população da aldeia é pequena, o casamento consanguíneo é comum entre eles, assim como a gravidez em idade infantil.
Winik Arara, de 19 anos, está grávida do terceiro filho. Este nascerá por intermédio de uma cesárea, assim como ocorreu com os dois anteriores. O primeiro, hoje com 6 anos, nasceu quando ela tinha 13. O segundo já está com 3 anos. Embora com três filhos, Winik tem corpo e rosto de criança.
Também da mesma aldeia, Tagati, com 16 anos, ainda convalesce da cesárea a que se submeteu para dar à luz o primeiro filho. Ela tem o rosto um pouco mais adulto do que o da colega. Sua saúde, porém, não está boa. Encontra-se muito pálida. Já um pouco mais velha - 35 anos -, Kokemã, também arara, está no quinto filho, que nasceu por intermédio de uma cesárea.
Todas elas estão sendo atendidas na Casa de Assistência ao Índio (Casai), em Altamira, mantida pela Fundação Nacional da Saúde (Funasa). Enfermeiras cuidam dos doentes quando a situação não é grave. Em caso de emergência, eles são encaminhados para o Hospital Municipal.
Duas das enfermarias desse hospital atendem somente a população de origem indígena. As camas foram retiradas para que eles ponham lá suas redes. Assim que os partos por cesárea são feitos, as mães e os bebês são levados às redes, onde ficam até receber alta. Aí, são encaminhados à Casai. No mesmo hospital há um cartório, onde as mães podem tirar gratuitamente a Certidão de Nascimento dos filhos.
Arlinda de Souza, diretora do Hospital Municipal, disse que o Sistema Único de Saúde (SUS) repassa R$ 4,8 mil por mês para a instituição cuidar dos índios nas horas de emergência. Para ela, a verba é pequena, porque o hospital não cuida só dos partos, mas de todo tipo de atendimento. E às vezes há surtos de doença numa aldeia, como dengue.

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100423/not_imp541945,0.php

Pré-natal também é feito em número insuficiente

O ritmo em que a população indígena incorpora problemas de saúde típicos da região urbana é bem diverso da melhoria ao acesso a serviços. Mulheres indígenas têm menor acesso a consultas de pré-natal. A OMS recomenda que sejam feitas pelo menos seis consultas durante a gestação. Mas o trabalho revela que a média desse tipo de atendimento a mulheres indígenas que hoje tem filhos menores de 5 anos foi de 4,7 consultas. Além de o número ser inferior ao recomendado, a qualidade deixa a desejar.
Entre mulheres gestantes ouvidas na pesquisa, apenas 52,4% receberam solicitação para fazer exame de sífilis, 40% para HIV e 52,8% para urina. / D.M. e L.F.

OESP, 23/04/2010, Vida, p. A16

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100423/not_imp541946,0.php

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