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ENTREVISTA: Na América Latina há "maior consciencialização da questão indígena -- académico

Diário de Notícias dn.pt
27 de mai de 2017

Um académico e ativista equatoriano disse à Lusa que na América Latina existe uma maior consciencialização da questão indígena e um crescente número de pessoas que reivindicam a sua identidade.

"Há mais consciencialização ao nível da América Latina. O tema do indígena agora é mais político, há mais pessoas que se autoidentificam como indígena", considera o académico e ativista Raúl Llasag Fernández, 50 anos, que hoje participa num debate em Lisboa.

"Antes, no processo de colonialismo e neocolonialismo na América Latina, os indígenas escondiam a sua identidade. Mas com estes processos, as pessoas voltam a reivindicar a sua identidade e julgo que pode haver uma mudança", precisa, numa referência às populações autóctones que habitavam no continente americano antes da chegada dos europeus e o início da colonização.

No atual contexto da região, deteta no entanto uma tendência para "impor governos de direita", que poderão comprometer as conquistas já garantidas pelos povos indígenas, após séculos de resistência.

"Em todo este processo os governos progressistas estão por sua vez a apurar a forma de discutir com o movimento indígena, inclusive a nível académico", considera este ativista Kichwa da Comunidade Cobos, e dirigente da CONAIE (Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador).

"Sou otimista sobre a possibilidade de ocorrer a mudança, e isso implica não apenas uma articulação entre os indígenas, mas também com outros movimentos, estudantis, mulheres, urbanos, e como conceber esta forma de associação, de organização a nível urbano. Pode ser o caminho futuro para a América Latina", prossegue o académico, natural de uma comunidade indígena do centro do Equador e com tese de doutoramento no CES (Universidade de Coimbra), após um mestrado em Direito constitucional pela Universidade andina Simón Bolívar.

No entanto, e ao referir-se ao seu "trabalho de base", desde Quito à selva amazónica, deteta que os conflitos não surgem apenas entre os movimentos indígenas e o aparelho de Estado.

"É também uma luta interna, há contradições entre a comunidade e a liderança indígena, que basicamente está em Quito, na capital", diz, numa referência ao seu país.

O envolvimento dos movimentos indígenas no combate político é encarado com reservas pelo ativista, numa referência ao surgimento no Equador, em 1995, no interior do movimento indígena, da formação política Movimento de Unidade Plurinacional Pachakutik.

"Quando surge este movimento político, a maioria dos seus dirigentes elegem como prioridade a tomada do poder, das instituições do Estado. E isso leva a uma crise, primeiro de representatividade, porque as comunidades não estão de acordo com essa posição dos dirigentes", frisa.

"E quando isso sucede, verifica-se uma rutura entre a cúpula dirigente do movimento indígena e as comunidades. E essa crise ainda não foi totalmente ultrapassada", acrescenta, para reforçar que a "ideia inicial do movimento indígena não é a tomada do poder, antes a "construção de uma nova sociedade, através do fortalecimento das diversas organizações".

Um "contrapoder" ao Estado e que "está a decorrer atualmente", assegura, ao referir-se ao exemplo recente de uma comunidade indígena de Quito, que decidiu exercer a sua autonomia, legitimada na nova Constituição de 2008 durante o governo de Rafael Correa (2007-2017) e que entrou em conflito com o município devido a um projeto camarário de expansão urbana.

"Este processo foi muito interessante, pela forma como alterou a dinâmica do município, que agora passou a coordenar com a comunidade e não a impor as suas normas. Um processo com dez anos, e o funcionamento desta comunidade é muito interessante", assinala.

Raúl Fernández participa esta tarde na mesa-redonda "Resistência Política Ameríndia", com o jornalista, ambientalista brasileiro Felipe Milanez, no encerramento do ciclo Questões indígenas. Este ciclo faz parte do Arquipélago Verde, relacionado com as questões da ecologia, inserido no ciclo Utopias, que decorreu no Teatro Maria Matos.

http://www.dn.pt/lusa/interior/entrevista-na-america-latina-ha-maior-co…

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