Correio Braziliense-Brasília-DF
02 de Set de 2001
O racismo institucional do Brasil
Como disse o Zagallo, vocês vão ter que me engolir. Eles vão ter que engolir esse programa de índio.
Na adolescência, Marcos Terena, 46 anos, escondia a sua origem se identificando como japonês. Ele conta que passou mais de dez anos sentindo vergonha de ser índio, até partir para a luta pelos direitos de seu povo. Coordenador de Defesa dos Direitos Indígenas da Funai, Terena reclama de ter um homem branco representando os índios na Conferência das Nações Unidas contra o Racismo -o presidente da Funai, Glenio da Costa Alvarez .
CORREIO BRAZILIENSE A delegação brasileira levou documento a Durban se comprometendo a aprovar o Estatuto do Índio. O senhor concorda com o projeto de lei que tramita no Congresso?
MARCOS TERENA Quem levanta a polêmica da lei são paternalistas, porque querem manter o índio sob o patrocínio do homem branco. Os índios têm que ser tratados com dignidade e respeito. Nós queremos mudar o relacionamento com o governo federal. Eu sou a favor de uma nova lei. O estatuto atual é totalmente desatualizado.
CORREIO Por que demora tanto a aprovação do projeto?
TERENA Porque não existe uma preocupação com a realidade indígena. Você pode verificar que nos últimos cinco anos não houve nenhuma medida inovadora para a defesa da questão indígena. Mas tudo bem. Nós falamos para o (ministro da Justiça) José Gregori que as iniciativas indígenas são um processo irreversível. Como disse o Zagallo, vocês vão ter que me engolir. Então eles vão ter que engolir esse programa de índio. Se a lei demora, a gente ganha tempo para se organizar melhor.
CORREIO Por que é importante para o senhor ter um indígena na presidência da Funai?
TERENA Há um resgate no mundo da auto-estima dos índios. O que aconteceu com Alejandro Toledo no Peru (indígena eleito presidente)? No Equador, haverá um índio candidato à presidência da república. E nós vamos lançar candidatos a deputado federal, estadual e talvez até senador. Sobre a Funai, o governo está preocupado pois acha que um índio não teria capacidade de gerenciar as etnias e que daria preferência ao seu povo. Isso é uma ignorância em relação a um índio que vai gerenciar uma estrutura de governo.
CORREIO Há racismo contra os indígenas no Brasil?
TERENA É mais estrutural, é o que o pessoal chama de racismo institucional. Quando você chama um índio de bugre (no Sul do Brasil) é preconceito. Então você pegue essa figura, identifica o agressor e o que você faz com esse que chama o índio de bugre? Não faz nada, acha graça. Então, através disso cria-se o conceito de que o índio é uma figura x. Mas o índio é uma figura abstrata. Então você cria um conceito de que todo índio para ser índio tem que estar daquele jeito ali (e aponta uma foto pendurada com um índio seminu). Ele não pode estar com paletó e gravata, porque não é mais índio. Essa violência é mais perigosa e mais cruel com a realidade indígena. Só o índio que está na aldeia vale.
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