OESP, Viagem, p. V6
01 de Jan de 2013
Entre paredes de gelo e pedra
De glaciares às margens do Oceano Pacífico, como o deslumbrante San Rafael, à natureza preservada, porção norte da Patagônia desfila motivos para ser descoberta pelos brasileiros
Júlio César Barros
À medida que o catamarã se aproxima da geleira San Rafael, os estalos ficam mais fortes. Pouco depois, instalados em botes infláveis, os turistas estarão diante de um fenômeno belo e arriscado: pedaços de gelo com tamanhos que variam entre o de um carro e o de um prédio de cinco andares se desprendem do paredão e caem na água. Formam ondas enormes como mostra a foto acima. O estrondo lembra um trovão.
Uma das principais atrações da parte norte da Patagônia chilena, que os brasileiros ainda visitam pouco, o glaciar San Rafael tem 2 quilômetros de largura e 80 metros de altura. Fica a 13 horas de São Paulo, divididas em três voos (a Santiago, Puerto Montt e Balmaceda) e traslado à cidade de Puerto Chacabuco, ponto de hospedagem e partida de passeios.
A aventura rumo ao Parque Nacional Laguna San Rafael começa cedo, às 7 horas. O catamarã Chaitén (por US$ 420, com café, almoço, petiscos e bebidas) navega entre ilhas desertas com praias virgens e árvores centenárias. São cinco horas de viagem durante as quais não se vê sinal de civilização, casa, estrada ou desmatamento.
Uma cachoeira brota na mata, para logo desaparecer na floresta densa. Montanhas nevadas se elevam a mais de 2 mil metros acima do nível do mar. Maciços de rocha e gelo se destacam no horizonte predominantemente verde. Coberto por neve eterna, o vulcão Maca, com silhueta escarpada, lembra um lápis apontado com estilete - cumes pontiagudos são formações recentes. Maca é uma montanha jovem.
Fartura.O norte da Patagônia chilena tem clima úmido e frio, com temperatura média de 9 graus ao longo do ano. Entre novembro e fevereiro, os dias são mais quentes - eventualmente, ultrapassam os 20 graus.
No interior do Chaitén, o clima é aquecido e animado por música, dança, vinho e frutos do mar - pernas de caranguejo, salmão, camarão. A estrela do passeio é precedida por blocos de gelo cada vez mais numerosos no estreito canal. Icebergs denunciam suas idades pela coloração: quanto mais azulado ou transparente, mais antigo. Muitos têm milhões de anos. Focas-leopardo observam nossa aproximação.
Mas só compreendemos a real dimensão de San Rafael quando o guia explica que a massa de gelo que avança sobre o mar é apenas uma pequena porção do Campo de Gelo Norte, um gigante que se estende por mais de 4,5 mil quilômetros quadrados dentro do parque nacional.
Depois da navegação nos botes infláveis, os guias ainda servem uísque com pedras de gelo de San Rafael. Perfeito para fechar um dia inesquecível.
Belo e preocupante sinal de alerta ambiental
Os pedaços de gelo que despencam de San Rafael representam, para cientistas, um claro sinal de alerta. No fim de novembro, 20 equipes de pesquisadores dedicados às regiões polares da Terra divulgaram um documento que reúne 40 estudos feitos ao longo de duas décadas sobre o derretimento de calotas e geleiras. Após análises de imagens das agências espaciais da Europa e dos Estados Unidos, a conclusão é preocupante: o nível dos oceanos subiu 11,1 milímetros em 20 anos, valor superior ao esperado para o período.
Segundo os cientistas, o Polo Norte tem apresentado derretimento mais acelerado que a Antártida. Na Groenlândia, a perda da cobertura de gelo é cinco vezes mais veloz hoje do que era há 20 anos. / J.C.B.
OESP, 01/01/2013, Viagem, p. V6
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