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Entre indígenas, bandeiras bolsonaristas têm apoio de nomes e grupos isolados

O Globo, País, 8
30 de set de 2019

Entre indígenas, bandeiras bolsonaristas têm apoio de nomes e grupos isolados
Associações de povos tradicionais se opõem às políticas do presidente e criticam tentativa de dividir populações

Vinicius Sassine

BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro decidiu apostar numa divisão das populações indígenas brasileiras, com ataques à maneira como estão representadas e estímulo a nomes isolados. Até agora, Bolsonaro conseguiu colher uma oposição em uníssono por parte das associações das cinco regiões brasileiras que vêm representando os indígenas nos últimos 15 anos.

A política indigenista do presidente - ancorada no fim e na revisão de demarcações, na liberação da mineração em terras indígenas e no estímulo às parcerias agrícolas comerciais - não conta com o apoio dessas entidades. O suporte que existe é de grupos esparsos. Os principais não constituíram associações, surgiram no ano passado, ancoram-se em lobistas que atuam para viabilizar a mineração e os arrendamentos e são próximos aos ruralistas abrigados no governo.

Na ONU, Bolsonaro fez um gesto que evidencia a intenção de buscar a divisão das populações indígenas, o que levou a um aprofundamento da rejeição por parte das associações constituídas e a uma animosidade dessas entidades com índios bolsonaristas. O presidente colocou em sua comitiva Ysani Kalapalo, nascida na região do Xingu, em Mato Grosso, e defensora ferrenha do governo. Ao mesmo tempo, atacou a liderança indígena brasileira mais conhecida no mundo , o cacique Raoni Metuktire, do povo Kaiapó.

- Acabou o monopólio do senhor Raoni - afirmou Bolsonaro.

Próxima da ministra dos Direitos Humanos, Damares Alves, Ysani diz falar em nome dos "índios do século 21". Na ONU, Bolsonaro leu uma carta do Grupo de Agricultores Indígenas do Brasil, surgido no ano passado, em apoio a Ysani. A youtuber, porém, não representa nem mesmo a região onde nasceu. A Associação Terra Indígena do Xingu (Atix) e 14 caciques - inclusive os dos povos Kalapalo e Kamayurá - elaboraram uma carta contra sua presença na ONU.

A carta é apenas uma dentre diversas manifestações contrárias ao governo por parte de organizações com histórico de representação dos indígenas. Entre elas, não há manifestações de apoio à política do presidente.

As organizações estão dispostas em subdivisões que levam em conta os espaços onde estão os povos. A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), criada em 2005, tem abrangência nacional. Oito organizações regionais, nas cinco regiões, compõem a Apib. A maior delas é a Coiab, presente na Amazônia Legal, que representa 180 povos e 430 mil indígenas, quase metade da dessa população. A entidade da Amazônia tem parceria com duas organizações não-governamentais (ONGs) internacionais - Greenpeace e The Nature Conservancy (TNC) -e recebe recursos do governo da Noruega, da Fundação Ford, da Fundação Rainforest e da Aliança pelo Clima.

À Coiab, por sua vez, estão ligadas 22 associações. Uma delas é a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), que representa quase 50 mil indígenas, de 23 povos no Amazonas.

O diretor-presidente da FOIRN, Marivelton Baré, considera "absurdo" o que Bolsonaro fez na ONU:

- Ele demonstrou que não respeita a representatividade e a organização dos índios. É basicamente uma estratégia de guerra, colocando parentes contra parentes.

A federação é contrária à política do presidente, segundo Marivelton, que explica que a entidade surgiu da necessidade de organização para o combate ao garimpo ilegal nas comunidades.

- Ele faz isso para ferir a nossa representatividade. A fala dele é completamente defasada. Quem é homem da caverna é ele - diz Marivelton Baré, em referência a trecho do discurso na ONU, em que Bolsonaro afirmou que "algumas pessoas teimam em tratar e manter nossos índios como verdadeiros homens das cavernas".

Indígenas bolsonaristas
Nos grandes territórios indígenas, como o dos ianomâmi, do Xingu e dos kaiapó, há um conjunto de associações que representam as comunidades. É dessas regiões que surgiram as principais lideranças indígenas brasileiras. Davi Kopenawa, por exemplo, representa a Hutukara Associação Ianomâmi. Ele é um dos principais denunciantes do garimpo ilegal na terra ianomâmi e foi quem liderou campanha pela demarcação do território. Na semana passada, recebeu um prêmio internacional considerado um "Nobel Alternativo". Raoni tem seu próprio instituto há décadas. É cotado ao Nobel da Paz.

A proximidade das associações de indígenas ao campo da esquerda, as parcerias com ONGs e o financiamento internacional são usados por Bolsonaro para criticar as entidades e para tentar abrir terreno a grupos de indígenas bolsonaristas. O principal grupo existente até agora é o de agricultores indígenas, que elaborou a carta para defender Ysani

Jocelio Leite Xukuru é o representante do grupo. Segundo ele, a organização surgiu em 2018, a partir de uma audiência pública na Comissão de Agricultura na Câmara dos Deputados. Em fevereiro deste ano, ocorreu o primeiro encontro nacional de agricultores indígenas, em Campo Novo do Parecis (MT).

- Defendemos as parcerias agrícolas com não-índios, com linhas de crédito para os índios. As comunidades têm, hoje, suas associações e cooperativas - afirma Jocelio.

Ele diz que, na comunidade dos xukuru, em Pernambuco, os índios produzem hortaliças, melão, melancia e mamão, entre outros produtos.

- O governo abriu um elo para o desenvolvimento das terras indígenas. É por isso que fazemos uma defesa irrestrita de Bolsonaro - conclui Jocelio.

Os índios parecis, que plantam soja em Mato Grosso, são os principais representantes do grupo. O apoio à política de Bolsonaro encontra eco ainda entre produtores de Raposa Serra do Sol, em Roraima, com índios da Associação de Índios Produtores (Asprovolt) e da Sociedade de Defesa dos Índios Unidos de Roraima (Sodiurr). Indígenas de etnias em Roraima e Amazonas também se articulam em defesa da mineração em terras indígenas, com a ajuda de lobistas do setor.

Representantes do Grupo de Agricultores Indígenas do Brasil estiveram na Câmara na última quarta-feira, acompanhando a visita que Ysani fez à Casa. A jovem foi ciceroneada por deputados do PSL, o partido do presidente. Apesar do aviso da assessoria do líder do governo na Câmara, major Vitor Hugo (PSL-GO), nenhum jornalista apareceu no gabinete do líder para acompanhar a visita de Ysani.

O PSL organizou a visita no mesmo dia em que o cacique Raoni esteve na Câmara para rebater as falas de Bolsonaro na ONU. Raoni atraiu a atenção de praticamente toda a imprensa presente na Casa. Foi recebido por dezenas de pessoas, aos gritos de "Raoni sim, Bolsonaro não", e acompanhado por diversos políticos de esquerda, em especial do PT e do PSOL.

O Globo, 30/09/2019, País, 8

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