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Entre impasses e atalhos: qual o mapa do caminho da agenda climática em 2026?

Amazônia Vox - www.amazoniavox.com
03 de Fev de 2026

Entre impasses e atalhos: qual o mapa do caminho da agenda climática em 2026?
Texto de Alice Martins Morais. Edição de Natália Mello. Revisão Carla Fischer. Fotos de Rafa Pereira/COP30 e Marcio Nagano.

03/02/2026 10:00 Atualizado em 03/02/2026 10:05

A esta altura, no ano passado, os olhos do mundo estavam voltados para Belém (PA), sede da COP30, realizada em novembro. Após meses em que a conferência dominou as manchetes e transformou a dinâmica da capital paraense, a pergunta que se faz agora é o que se aguarda para o futuro da maior cúpula climática do planeta e para a agenda política do segmento. Para analisar esse cenário, o Amazônia Vox conversou com Ciro Brito, analista sênior de Políticas Climáticas do Instituto Socioambiental (ISA).

A COP30 foi oficialmente encerrada em 22 de novembro de 2025 sob forte tensão e sem consenso sobre temas centrais, como os roteiros propostos pelo Brasil para a transição para longe dos combustíveis fósseis e para o combate ao desmatamento, que acabaram ficando fora das decisões finais. Houve avanços, como o reconhecimento do papel dos povos indígenas, a criação de um mecanismo de Transição Justa e a aprovação de indicadores voluntários de adaptação, estes últimos duramente criticados por sua fragilidade e falta de transparência.

Para Ciro, no entanto, o maior risco agora é a falta de tração política. "Enquanto estiver com a presidência da COP, até novembro, quando chega a COP31, o Brasil precisa aproveitar todo o espaço que tiver para vocalizar sobre o mapa do caminho para o fim do desmatamento, que ainda segue sem definição e com pouca mobilização pública", alerta.

Como resposta ao impasse, a presidência brasileira assumiu o compromisso de desenvolver, fora do processo formal da Convenção do Clima, os mapas do caminho rejeitados nas negociações. A expectativa é que os temas pendentes retornem à mesa na COP31, que será realizada na Turquia.

Ainda durante a COP30, também foi reafirmado o avanço de uma declaração para a transição para longe dos combustíveis fósseis, iniciativa paralela às negociações formais que, à época, já contava com a adesão de 24 países. Nesse contexto, ficou agendada a Primeira Conferência Internacional sobre Transição Justa para Longe dos Combustíveis Fósseis, marcada para os dias 28 e 29 de abril de 2026, na Colômbia, com foco nos caminhos legais, econômicos e sociais para eliminar petróleo, gás fóssil e carvão.

Pouco mais de dois meses depois, o embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30, divulgou sua 12ª carta à comunidade internacional, na qual propôs que o multilateralismo climático passe a operar em dois níveis: um baseado no consenso e nas decisões formais, e outro voltado à aceleração da implementação das ações climáticas. "Há um grande número de países que querem acelerar as coisas mesmo que não haja consenso. Se acreditamos na ciência e na urgência de combater as mudanças climáticas, temos que estimular essas coalizões, que em algum momento podem culminar em um consenso", afirmou o diplomata.

Na carta, Corrêa do Lago reafirma que o Brasil irá liderar a elaboração dos mapas do caminho tanto para a transição energética quanto para interromper e reverter o desmatamento, defendendo esses instrumentos como ferramentas de planejamento e estabilidade em um cenário internacional marcado por tensões geopolíticas. Para Ciro Brito, embora o mapa do desmatamento seja, em tese, menos complexo do que o dos combustíveis fósseis, por envolver países que concentram florestas, o principal obstáculo segue sendo o financiamento, já que nações com altos índices de desmatamento tendem a exigir recursos para avançar.

Esse debate ocorre em um calendário internacional carregado de incertezas. A proximidade da COP com a Semana do Clima e a Assembleia Geral da ONU, em Nova York, levanta preocupações diante da imprevisibilidade do governo Trump. Embora a ONU tenha sede nos Estados Unidos, Ciro receia tanto tentativas de obstrução por parte do governo norte-americano quanto a possibilidade de transferência da Assembleia para outra cidade, como Genebra.

"Mesmo que permaneça em Nova York, existe uma possibilidade de baixa presença e de pouca diversidade de países, por conta do recente cancelamento de vistos para cidadãos de dezenas de países", informa o advogado, que também é coordenador do grupo de trabalho de Amazônia da LACLIMA (Latin American Climate Lawyers Initiative for Mobilizing Action), uma rede de advogados de direito das mudanças climáticas na América Latina.

Às vésperas da COP do Clima, outro evento-chave entra no radar: a COP da Biodiversidade. Diferentemente da edição anterior (2024), realizada na Colômbia, que teve avanços impulsionados pela liderança política do governo à época, o cenário atual é mais incerto. O país enfrenta um ano eleitoral, com avaliação negativa da gestão em curso, o que pode limitar o protagonismo político e os resultados da conferência.

Próxima parada: Santa Marta, Colômbia
Segundo Corrêa do Lago, a presença do Brasil em Santa Marta já está confirmada: "É um passo muito importante e acreditamos que essa conferência pode aproveitar o momentum político da COP30". Para Ciro Brito, é importante manter as expectativas realistas, pois os desafios são grandes para destravar esta discussão. "O contexto geopolítico desde a COP30 até agora já mudou, piorou bastante desde novembro, por conta do ataque dos Estados Unidos à Venezuela, o que, inclusive, tem tudo a ver com o interesse de Trump em lucrar com a exploração dos combustíveis fósseis", adverte.

Para Ciro, o que se pode esperar é que a conferência intensifique a articulação entre os países do Sul Global em torno do tema e revele quais são os países do Norte Global que estão realmente dispostos a negociar para viabilizar a eliminação dos combustíveis fósseis. "O que não dá é parar agora, então mesmo que avance pouco, o importante é continuar seguindo. Porque de Dubai [COP29] até o Brasil [COP30] a gente empacou e não queremos que isso se repita", reitera.

O advogado enxerga no evento uma oportunidade de os países terem espaço para discutir o mapa do caminho para a eliminação dos combustíveis fósseis, pois, segundo ele, a proposta foi feita de surpresa, às vésperas da conferência, pelo presidente Lula. "Essa foi umas das críticas na época, que não houve tempo para fazer a construção política necessária e agora, em Santa Marta, o espaço é totalmente dedicado a isso", destaca.

Ciro receia que a conferência, no entanto, se torne apenas um palco para vocalizações anti-imperialistas, por conta das oposições ao governo Trump. "É importante, sim, que seja uma plataforma narrativa anticolonialista e contrária ao imperialismo norte-americano, mas precisa ir além e não esquecer do objetivo principal: avançar no texto de um tratado de não proliferação de combustíveis fósseis", recomenda.

Contudo, para que a conferência entregue ao menos um rascunho de um tratado do tipo seria preciso que até o mês que vem os negociadores climáticos já tivessem algum texto circulando, o que parece improvável a essa altura. "Acredito que neste mês de fevereiro devemos ter maior clareza de como de fato será a conferência", analisa.

Em casa, Brasil tem o Plano Clima para implementar em breve
Em paralelo à agenda internacional, no Brasil a expectativa é de que em março deste ano o novo Plano, aprovado no final de 2025, entre na sua fase inicial de implementação. A estratégia estabelece as diretrizes estratégicas de mitigação e adaptação até 2035, com horizonte de neutralidade climática em 2050.

Em dezembro, foi realizada uma reunião do Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima (CIM), que aprovou os Planos Setoriais de Mitigação e Adaptação do Plano Clima, mas até agora os documentos seguem sem divulgação oficial. A aposta de ambientalistas é que haja um lançamento conjunto, possivelmente em 16 de março, no Dia Nacional da Conscientização sobre as Mudanças Climáticas.

"Além disso, pensando nos próximos anos, o Brasil vai ter que priorizar a discussão de como a Petrobras vai deixar de ser uma empresa de petróleo e virar uma empresa de energia, algo que inclusive o próprio Lula já discursou, mas que precisa ser posto em prática", complementa Ciro. Nesse contexto, a credibilidade da liderança brasileira no clima será medida menos pelas intenções e mais pela capacidade de implementação, palavra que tanto foi repetida na COP30.

https://www.amazoniavox.com/noticias/view/588/pt-br/entre_impasses_e_at…

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