JB, Outras Opinioes, p.A11
Autor: JOB, Gilberto
17 de Jul de 2004
Enriquecer agora
Gilberto Souza Gomes Job
Engenheiro, diretor da Associação Comercial do Rio de Janeiro
Você já tem a sua própria ONG? Não tem uma organização sem fins lucrativos, mas com uma personalidade jurídica própria? Nem sequer uma consultoria privada?
Hoje um profissional que não disponha de um desses engenhos legais do último quarto de século é um desorientado, um pobre coitado, uma pessoa sem visão dos tempos e das épocas. Está condenado ao fracasso. Esqueça-se de sua carreira. Ponha-se a vender loteria, frutas, chiclete nos sinais de trânsito ou faça-se escritor, comedor de giletes ou sanfoneiro. Você está perdido!
Há 30 anos, um profissional recém-graduado em ciências sociais ou exatas tinha várias opções de trabalho. Podia cavar alguma sinecura em algum ministério ou empresa estatal ou aproveitar seus contatos no movimento estudantil para derrubar um velho professor e descolar uma cátedra vitalícia na universidade. E se o seu querido pai o bancasse, podia montar um negócio próprio como, por exemplo, uma fábrica de macarrão. Ou, ainda, se aficcionado dos filmes de guerra e amante da disciplina, podia tornar-se militar e elaborar um plano estratégico para combater a guerrilha de Caparaó.
As coisas mudaram. O Estado está falido e há oito anos não atualiza o salário de seus funcionários. As empresas modernas não querem sociólogos esquerdistas, mas apenas alguém que saiba fazer algo que dê dinheiro e que fale bem inglês. Abrir um negócio próprio é pôr em risco as economias da família, pois os juros estão fora do alcance dos pequeno empresários. Os militares estão desocupados e os guerrilheiros querem ser deputados. Também, daqui a mais algum tempo, já não poderemos alegar que fomos perseguidos pela ditadura, o que é outra desvantagem da democracia.
Os tempos mudaram. O grande negócio da Nova República são as ONGs. Aos que perderam tempo estudando filosofia, sociologia, economia, engenharia, jornalismo e outras bobagens que não ensinam, não resta outra alternativa senão uma boa ONG voltada para resolver nossos difíceis e dispendiosos problemas sociais. Você sabe o que é uma Organização Não Governamental?
As ONGs foram organismos criados inicialmente para serem os braços desburocratizados de organismos internacionais localizados em Washington, Paris ou Genebra. Os burocratas dos organismos internacionais são chamados de experts. Eles têm duas ou tês coisas em comum: são todos muito vivos, falam vários idiomas e trabalham em projetos.
Foi baseado nessa experiência internacional que surgiram no Brasil, nos últimos 10 anos, as primeiras ONGs genuinamente nacionais, criadas por expertos brasileiros, com um desenvolvido senso dos nossos imensos problemas sociais, querendo ajudar o governo a resolvê-los a qualquer preço. De um modo geral, elas se voltam para os despossuídos, ignorados pelo capitalismo. Querem ajudá-los mas não podem, não têm como. Aí, vem um funcionário público de alto coturno, no papel de fada madrinha, que reconhece naqueles altruístas o desejo e a capacidade de sanar as dificuldades dos pobres coitados. Os expertos lhe apresentam seu projeto, que supostamente ajudará os humildes despossuídos. O projeto é então esmiuçado em poucas horas pelo funcionário de alto coturno. E como num conto de fadas, o milagre acontece e o dinheiro aparece.
Segundo dados colhidos na imprensa, as ONGs brasileiras já receberam mais de 3 bilhões de reais da fada madrinha.
Pode ser que os objetivos inicialmente propostos no projeto não venham a ser alcançados. Porém as ONGs, sem dúvida, alcançarão seu autodesenvolvimento sustentado.
Você haverá de pensar que as coisas não são bem assim. E tem razão. Existem ONGs e ongs. Será uma ingenuidade generalizar, colocando todos os gatos no mesmo saco. No Rio de Janeiro, por exemplo, existem ONGs voltadas para a solução do problema dos meninos de rua que são de um dedicação comovente. O fundamental é mantermos uma visão crítica e realista, tanto das ONGs quanto desse enorme e caro aparato estatal que, segundo o nosso ministro do Desenvolvimento, não consegue executar suas decisões em tempo hábil. Estamos apenas mostrando a carapuça. Quem quiser que a enfie.
JB, 17/07/2004, p.A11
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