Valor Econômico, Empresas, p. B2
16 de Dez de 2016
Engie vai priorizar retorno financeiro de Jirau
Rodrigo Polito
Maior investidor privado em geração de energia do Brasil, o grupo franco-belga Engie só entrará em novos projetos hidrelétricos no país se todos os entraves relativos à usina de Jirau, no rio Madeira (RO), forem solucionados. Terceira maior hidrelétrica em operação do país -atrás de Itaipu e Tucuruí - Jirau, que será inaugurada hoje, está com as suas 50 turbinas produzindo energia, porém ainda não gera retorno aos acionistas. Além da Engie, com 40% de participação, são sócias no empreendimento as estatais Eletrosul e Chesf, ambas subsidiárias da Eletrobras com 20% cada, e a japonesa Mitsui, também com 20%.
"Precisamos resolver a questão de Jirau. Não há como você partir para um novo empreendimento com esse ainda em aberto, com essas questões tão importantes em dúvida. O projeto hoje precisa se reequilibrar do ponto de vista econômico-financeiro", afirmou o presidente do grupo Engie no Brasil, Maurício Báhr.
A lista de pontos pendentes sobre Jirau é extensa. A Energia Sustentável do Brasil (ESBR), consórcio formado pelas quatro empresas e dono empreendimento, discute na Justiça o excludente de responsabilidade por alterações no cronograma de implantação da usina em 535 dias, provocadas por dois atos de vandalismo no canteiro de obras. A empresa também questiona a elevação do custo das tarifas de uso do sistema de transmissão (Tust), devido ao maior número de turbinas, apesar da mesma estrutura de escoamento de energia.
MA adequação da Tust, a prorrogação do contrato de concessão e um eventual ajuste nos preços dos contratos, ainda que marginal, para reequilibrar o projeto financeiramente, são pontos que estão na mesa. Mas como o assunto se esgotou no âmbito administrativo [da Agência Nacional de Energia Elétrica], eles estão na Justiça", explicou Báhr. "Os sócios tiveram que colocar mais capital e cumpriram o contrato. Agora gostaríamos de ver o governo tendo sensibilidade para reconhecer que parte desse sobrecusto, desse atraso, não se deveu a nenhum tipo de falha ou falta de capacidade técnica dos empreendedores. Foi um evento de força maior", completou.
Integrante do ESBR, a Eletrobras apoia a atuação do consórcio junto à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e o governo para buscar o reequilíbrio econômico-financeiro de Jirau.
"De fato, existem custos extras, que devem ser tratados de forma equilibrada, para minimizar as perdas", afirmou o presidente da Eletrobras, Wilson Ferreira Jr, ao Valor. "A prorrogação do prazo de concessão é uma das alternativas que permitem recuperar perdas sem prejudicar o consumidor", completou.
O principal ponto de preocupação para a ESBR hoje, porém, é a despesa com o déficit de geração hídrica (medido pelo fator GSF, na sigla em inglês). Segundo o presidente do consócio, Victor Paranhos, este ano, os gastos com o GSF serão de R$ 132 milhões, o equivalente a 7,9% da receita líquida do projeto. Para 2017, a projeção é ainda maior: despesas de R$ 183 milhões, ou 12% da receita líquida.
"Não tem como suportar 12% de perda de margem líquida. Com o GSF nesse nível, não temos geração de caixa positiva", disse Paranhos.
O argumento da ESBR, em linha com o de demais agentes do setor, é que o aumento da inserção de fontes intermitentes (eólicas e usinas solares) no sistema brasileiro desloca a produção das hidrelétricas. "A hidrelétrica não pode ser o patinho feio do sistema elétrico e ficar pagando esse custo", acrescentou Bãhr.
Se do ponto de vista econômico-financeiro, Jirau ainda tem impasses a serem solucionados, no aspecto energético a usina cumpriu seu objetivo. Em outubro deste ano, a hidrelétrica foi a usina brasileira com o maior índice de disponibilidade do país, de 99,12%, de acordo com dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Com 3.750 megawatts (MW) de capacidade instalada, Jirau está com todas as 50 turbinas em operação. Há mais turbinas em Jirau do que em todas as hidrelétricas da região Sul somadas.
Com uma garantia física (volume de energia de fato produzido) de 2.205,1 megawatts (MW) médios, Jirau tem um fator de capacidade da ordem de 59%, acima da média do setor hidrelétrico. Junto com sua "irmã" Santo Antônio, localizada à jusante (abaixo), no mesmo rio, a usina foi o primeiro projeto do mundo a utilizar turbinas do tipo bulbo horizontais em grande escala.
Esse tipo de turbina é ideal para a característica do projeto, de relativo baixo impacto ambiental, por ser uma usina a "fio d'água", ou seja, sem reservatório de regularização. Na prática, em Jirau, mais importante do que a queda d'água (de 15,2 metros de altura) é a vazão do rio para mover as pás das turbinas. Com um reservatório de 361,6 quilômetros quadrados, Jirau tem uma relação de área alagada por potência instalada menor que 0,1.
Segundo Ferreira Jr, Jirau confirma a vocação da Eletrobras em investir em geração de energia renovável, preferencialmente de hidrelétricas. "Além de ser um excelente investimento, a usina de Jirau deixará um legado de desenvolvimento sustentável, baseado na expertise das empresas da Eletrobras de equilibrar a responsabilidade socioambiental com o aproveitamento do potencial hidrelétrico brasileiro", disse.
O investimento atualizado em Jirau alcança a cifra de R$ 19,6 bilhões. O empreendimento foi leiloado em 2008. Na ocasião, o consórcio arrematou a concessão pelo preço de R$ 71,40 por megawatt-hora (MWh), vencendo o concorrente que era considerado favorito por já ter vencido o leilão da usina de Santo Antônio. A tacada de mestre foi uma mudança de 9 km no eixo da barragem da usina, gerando menores custos de escavação, e permitindo ao consórcio fazer um lance 21% inferior ao proposto no edital da concorrência.
A obra de Jirau chegou a contar com 20 mil pessoas. Ao fim do projeto, a ESBR deverá ter apenas 350 funcionários, dos quais cerca de 250 na manutenção da hidrelétrica e o restante no escritório da empresa, no Rio de Janeiro.
Questionado sobre uma eventual negociação para venda de participação em Jirau, o presidente da Eletrobras disse não haver nenhuma conversa nesse sentido. "Nosso plano de desinvestimentos vai priorizar a venda das SPEs [Sociedades de Propósito Específico] em que tenhamos o direito ao 'tag along' e em que o sócio majoritário esteja vendendo sua parte em condições favoráveis. Não temos conhecimento de que haja este interesse por parte dos sócios majoritários de Jirau".
Valor Econômico, 16/12/2016, Empresas, p. B2
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