O Globo, Economia, p. 43
18 de Out de 2015
Energia nuclear volta à cena 4 anos após desastre no Japão
Geração deve quase triplicar na América Latina até 2030, prevê estudo
Bruno Rosa
MOSCOU e RIO - Mais de quatro anos após o desastre de Fukushima, no Japão, a indústria nuclear está voltando à agenda energética de vários países, em especial os da América Latina. De acordo com a Agência Internacional de Energia (AIE), nações como Uruguai, Chile, Bolívia, Peru e Venezuela estão considerando construir reatores nucleares. Esses países vão se juntar ao Brasil - que conta com duas usinas (Angra 1 e 2) e está construindo Angra 3 - e Argentina, que está desenvolvendo sua quarta unidade nuclear.
Polêmica, a energia nuclear é alvo de protestos no mundo devido ao risco de acidentes. No Japão, em março de 2011, um terremoto seguido de tsunami causou um acidente nuclear na Central Fukushima, o maior desde Chernobyl, na Ucrânia, em 1986. Após o desastre, diversos países suspenderam investimentos em projetos ou mudaram regras em busca de mais segurança. Quatro anos depois, porém, diante da necessidade de garantir o suprimento de energia, muitas nações voltaram a investir na fonte. Neste mês, o Japão reativou um segundo reator nuclear, na usina de Sendai, depois de aprovar a legislação pós-Fukushima.
Projeção inédita da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) mostra que a América Latina, hoje com 4,7 gigawatt (GW) de geração nuclear, pode chegar a 2030 com 13,4 GW, quase o triplo. Um reator de 1 GW pode custar de US$ 2 bilhões a US$ 11 bilhões e levar até dez anos para ficar pronto. No Brasil, o governo pretende construir quatro usinas até 2030 e mudar a forma como elas são construídas: em vez de recursos públicos, as obras seriam tocadas por empresas privadas.
ANGRAS 1 E 2 PODEM PARAR
De olho nesse mercado, a disputa já começou. A estatal russa Rosatom abriu escritório no Rio. Seu presidente, Sergey Kirienko, diz que a companhia tem US$ 300 bilhões em pedidos de construção de 30 usinas em 12 países, além da Rússia:
- Nos últimos anos, nosso portfólio cresceu 5,5 vezes. Temos negociações em andamento com mais cinco países.
A americana Westinghouse, que desenvolveu o reator de Angra 1, assinou memorando com a Nuclep, empresa que produz peças nucleares no Brasil, para colaborar na construção de equipamentos.
- Estamos prontos para apoiar a expansão no Brasil. A América Latina é mercado-chave - disse Carlos Leipner, vice-presidente da Westinghouse para a região.
Ainda há a China, país que em 2030 deverá ultrapassar os EUA como maior produtor de energia nuclear. Segundo Marco Baroni, analista sênior da AIE, os países da América Latina buscam matriz energética mais limpa, e a nuclear não emite gás carbônico, causador do efeito estufa. Além disso, como há expectativa de aumento de demanda por energia nos próximos anos na região, a nuclear representa maior segurança energética, por gerar na base do sistema, sem depender do ciclo de chuvas, como as hidrelétricas. Por outro lado, ele diz que os investimentos para construir um reator são elevados e complicados por envolver muita tecnologia:
- A energia nuclear polariza emoções. O Brasil busca uma matriz mais limpa. E, assim como a eólica e a solar, a nuclear pode fazer parte desse cenário.
As usinas nucleares Angra 1 e Angra 2 podem ter de parar de operar no fim deste mês, conforme antecipou o jornalista Ancelmo Gois no GLOBO de ontem. De acordo com fontes do governo, a apólice de seguro das duas unidades, que era feita pelo Bradesco, venceu em 30 de setembro e não foi renovada, o que pegou de surpresa a própria Eletronuclear, responsável pelas usinas. A empresa conseguiu estender o prazo da apólice por mais um mês. O contrato é de três anos, e o valor do seguro para as duas usinas é de US$ 1,3 bilhão.
- É um problema complicado que tem de se resolver até 30 de outubro. Sem isso, as usinas vão ter de parar - disse uma fonte.
Apesar desse impasse e de as obras de Angra 3 terem sido temporariamente suspensas após virem à tona denúncias de pagamentos de propina sob o âmbito da Operação Lava-Jato, a previsão é levantar mais quatro usinas até 2030 - duas no Nordeste. O ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga, é um dos defensores da fonte, que estava na gaveta nos últimos anos. David Shropshire, diretor de planejamento e estudos econômicos da AIEA, lembra que, com as mudanças climáticas e as secas, os países vêm buscando alternativas às hidrelétricas.
O embaixador Laércio Antônio Vinhas, presidente da junta de governadores (que reúne 35 países) da AIEA, destaca que o Brasil tem a vantagem de contar com a matéria-prima para a geração nuclear:
- E o Brasil ainda tem reservas de urânio. Além da Bahia, já se começa um trabalho para explorar as reservas no Ceará.
DESCARTE PREOCUPA
Já Alexandre Szklo, professor de Planejamento Energético da Coppe/UFRJ, diz que hoje já se fala no renascimento da indústria nuclear no mundo sob o argumento da eficiência e segurança energética. Mas diz que é preciso atenção:
- Não há solução para os resíduos. E, em caso de acidente, quem arca é o governo e a população - disse Skzlo.
Thiago Almeida, coordenador da Campanha Antinuclear do Greenpeace Brasil, alerta para os gastos com descomissionamento da usina após sua vida útil (cerca de US$ 1 bilhão).
- A usina nuclear leva dez anos para ficar pronta; solar e eólica, dois anos.
'TEM DE ATRAIR INVESTIDOR'
Corpo a Corpo
Leonam Guimarães
O engenheiro nuclear Leonam Guimarães, diretor de Planejamento da Eletronuclear, diz que o novo modelo nuclear no Brasil tem de permitir tarifas mais em conta.
O que mudou após o desastre de Fukushima?
Fukushima representou um momento de reflexão. A Alemanha decidiu abandonar o nuclear. O Japão parou sua frota de usinas para verificações técnicas. Após avaliação ponderada da realidade, muitos países decidiram dar continuidade, e alguns começam programas de construção.
Há diferença entre as tecnologias americana, russa e chinesa?
Praticamente são equivalentes. Mas temos a tradição de seguir normas técnicas americanas, que são diferentes desses outros países. E isso é um complicador para o processo de licenciamento em países que já possuem usinas de origem ocidental em operação, como no caso do Brasil.
Novas usinas são viáveis no Brasil?
Será viável na medida em que for concebido modelo que contribua para a modicidade tarifária do sistema. Tem de atrair potenciais parceiros e investidores.
O repórter viajou a convite da Rosatom
No meio do campus, um reator
Maior centro de estudos foi fundado por 'pai' do programa soviético
Bruno Rosa
RIO - Entrar na Universidade de Engenharia e Física de Moscou é como visitar uma usina nuclear. A preocupação não é em vão: a maior universidade do país conta com um reator nuclear em seu campus. E o rito de segurança exige que todos apresentem documentos detalhados - no caso dos russos, um passaporte que funciona como identidade e traz informações como endereço e estado civil - nos guichês de vidro blindado e escuro.
Hoje, a universidade, fundada em 1942 por Igor Kurchatov - cientista conhecido como o "pai" do programa soviético da bomba atômica -, é o principal centro de estudos nucleares do país. Tem 21 campi em 15 cidades e 38 mil alunos, dos quais 3,3% são estrangeiros. Em Moscou, o reator nuclear, cuja localização precisa só é conhecida por parte dos estudantes, é usado para os mais diversos estudos: desde a geração de energia até a aplicação em segmentos como o médico e o agrícola.
Com o aumento da demanda nuclear no mundo, a Rússia quer fazer da universidade um dos principais centros de ciência e estudos nucleares do mundo. Para isso, vem fazendo parcerias com faculdades como as americanas MIT e Stanford, além da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
- Queremos nos tornar, em 2020, o centro de educação global para o segmento nuclear. Estamos atraindo cada vez mais estudantes de Jordânia, Bangladesh e Turquia - disse Georgy Tikhomirov, decano da faculdade de Física.
Mas o Brasil também tem chamado a atenção nos corredores da faculdade, cujas salas contam com o onipresente retrato do presidente Vladimir Putin nas paredes. No centro de pesquisa de Engenharia, está sendo desenvolvida uma ferramenta para coleta de dados de consumo de água da Sanepar, companhia de saneamento do Paraná.
O Globo, 18/10/2015, Economia, p. 43
http://oglobo.globo.com/economia/energia-nuclear-volta-cena-4-anos-apos…
http://oglobo.globo.com/economia/universidade-russa-tem-reator-no-meio-…
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